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Henrique Raposo

Sócrates é o réu

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

No domingo, só uma pessoa estará sentada no banco dos réus da democracia: José Sócrates. Na última semana, um deus ex machina político-mediático tentou transformar um figurante, Fernando Lima (FL), no actor (e réu) principal da campanha. Lamento, mas o actor (e réu) principal continua a ser Sócrates. A governação socialista é a única coisa que estará sob julgamento no domingo. E é bom lembrar que Sócrates, e não FL, é o pior primeiro-ministro desde 1985.

Não foi FL que aumentou todos os impostos. Essa gentileza fiscal é da responsabilidade de Sócrates. Não foi FL que legou ao país um número recorde de desempregados. Essa caridade social, composta por uma colecção faraónica de gente desamparada, saiu da governação socialista. Depois, não foi FL, mas sim Sócrates que processou nove jornalistas em quatro anos. Não foi FL que transformou um juiz amigo num ministro amigo. Esta pérola institucional é da lavra do Montesquieu do Rato, José Sócrates. Não foi FL que lançou a maior campanha de intimidação contra a imprensa e grupos de comunicação social. Este cerco (ERC, estatuto do jornalista, lei da concentração, etc.) foi arquitectado por Sócrates. Não foi FL que deixou a escola pública em pé de guerra. O apache guerreiro do ensino foi Sócrates. E, acima de tudo, não foi FL que permitiu a subida vertiginosa do endividamento do país. Essa proeza económica está no currículo de Sócrates, e de mais ninguém. Aliás, é impressionante o desprezo que Sócrates revela pelo problema do endividamento. O primeiro-ministro conseguiu passar uma campanha inteira a falar do TGV sem nunca mencionar o dado dramático: o nosso endividamento atingiu os 107% (em 2000, era apenas de 36%). Como é que Sócrates pode negligenciar o facto mais marcante da economia portuguesa? Como? Perante a actual situação, esta fixação no TGV não passa de um fetichismo socrático completamente irracional. Não há dinheiro. Ou melhor, há dinheiro, mas é o dinheiro dos nossos netos.

Sócrates está a fazer política com o dinheiro das futuras gerações, mas as nossas conversas políticas giram em torno de FL. Se calhar, Vasco Pulido Valente tem razão: Portugal é um manicómio a céu aberto. Mas, para que fique em acta, convém relembrar que Sócrates, e só Sócrates, é o responsável directo pela nossa crise económica e pela deterioração das liberdades em Portugal. Durante os últimos quatro anos e meio, o primeiro-ministro foi Sócrates, e não FL ou Cavaco. Mais: nos últimos catorze anos, o PS governou durante onze anos e meio. Os números não mentem. Se o país está mal, então isso deve-se sobretudo ao PS.

Factos

Facto n.º 1: há uns meses, na RTP, Sócrates insultou o telejornal de Manuela Moura Guedes (MMG) e elogiou o "Diário de Notícias".

Facto n.º 2: o telejornal de MMG foi cancelado.

Facto n.º 3: o jornal elogiado por Sócrates lançou uma polémica que abafou o 'escândalo MMG'.

Facto n.º 4: Cavaco Silva, um jogador de xadrez, tentou jogar às damas com Sócrates (perdeu, obviamente).

Opinião: se calhar, era mesmo aconselhável cancelarmos a democracia por uns meses, para que a 'Lesboa' palaciana parasse para pensar naquilo que anda a fazer ao país e à tal ética republicana.

Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Setembro de 2009