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Expresso

Henrique Raposo

Sim, sou liberal

A ignorância é atrevida, e, por isso, muitos lisboetas acham que eu já não posso ser liberal. A crise bancária, dizem estes videntes alfacinhas, deveria forçar todos os liberais a deixar de lado as ideias liberais. Esta opinião - que já ouvi mil vezes - revela que a actual crise está a recauchutar o velho antiliberalismo português. Neste ambiente demagógico, muita gente pensa que pode reduzir o 'liberal' a uma espécie de apêndice engravatado do 'fascista'. Lamento, mas um liberal não é um fascista que veste Armani. E, sim, continuo a ser um liberal à moda antiga.

Esta renovação do antiliberalismo está a produzir uma enorme falácia intelectual, que tem sido repetida até à exaustão por José Sócrates: a crise portuguesa, reza a falácia, foi causada pelo liberalismo; o "neoliberalismo", coitado, é o culpado da desgraça portuguesa. Só há um problema nesta tese neo-socrática: a realidade. Nos últimos 100 anos, nenhum governo português colocou em prática políticas liberais. Perante este facto, a pergunta é óbvia: como é que a culpa da nossa crise pode ser atribuída a algo que nunca existiu em Portugal? Alguém me explica este milagre da lógica?

Meus caros neo-socráticos, a crise no sistema bancário não representa a morte do liberalismo; esta crise determina, isso sim, o desaparecimento de um modo de vida assente no crédito barato. E este modo de vida, vamos lá ver se nos entendemos, foi partilhado por países liberais (EUA, Inglaterra) e por países socialistas (Portugal, França). Ou seja, esta crise foi provocada, em igual medida, pelo liberalismo e pelo socialismo democrático. Mais: o facto de o liberalismo perder vitalidade na "vida virtual" do sistema bancário não determina a falência do liberalismo ao nível da "vida real". Por outras palavras, a crise de Wall Street não significa a crise do liberalismo junto da Main Street. Um exemplo histórico comprova esta asserção: os suecos nacionalizaram - temporariamente - os bancos, mas liberalizaram o código de trabalho e o sistema de ensino.

Portugal deveria olhar para este exemplo nórdico. O nosso Estado, quando necessário, deve intervir na "vida virtual" dos bancos, mas essa intervenção na virtualidade bancária não retira legitimidade à seguinte ideia: Portugal precisa de reformas liberais no código de trabalho e no sistema de ensino. Portugal necessita de liberalismo na "vida real".

Refundar

Viro-me para a esquerda, e apenas oiço o velho esquerdismo tecnocrata. Viro-me para a direita, e apenas oiço a direita da calculadora. Este cerco tecnocrata faz-me lembrar Henrique Paiva Couceiro (1861-1944), tal como foi descrito por Vasco Pulido Valente em "Um Herói Português" (Alêtheia). Paiva Couceiro era um cavaleiro romântico num tempo em que a política já começava a ser coisa de tecnocratas. Aliás, este livro acaba por ser o relato do choque entre o D. Quixote da tresloucada grandeza romântica (Paiva Couceiro) e o tecnocrata da pequenez do défice (Salazar). Hoje, Portugal não precisa de um Paiva Couceiro monárquico e com tiques de D. Sebastião, mas necessita de um Paiva Couceiro 'institucional' com a capacidade para refundar a III República.

Henrique Raposo