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Expresso

Henrique Raposo

República de magistrados

Quem é que manda no regime? Perante esta pergunta, a maioria dos portugueses responderá qualquer coisa como isto: "os políticos, claro; são os malandros dos tachos que mandam nisto". Não querendo ser mal-educado para com a vox populi, gostava de dar outra resposta: o verdadeiro dono do regime é o Ministério Público (MP). Aliás, a nossa democracia está hipotecada, e quem controla a hipoteca é um conjunto opaco de procuradores que domina o espaço público através das fugas de informação. Essas fugas, caro leitor, têm a precisão cirúrgica daqueles mísseis que vemos na CNN. Se os mísseis ianques matam talibãs, os mísseis do MP lá vão matando, com a lentidão do gerúndio, a dignidade da nossa democracia.

A nebulosa composta por procuradores que não prestam contas a ninguém conseguiu o que pretendia: através do caso Freeport, o MP está a dominar, de forma silenciosa, a atmosfera política; a campanha eleitoral em curso está a ser conduzida dentro dos limites impostos pelo MP. Para perceber este ponto, basta olhar para o PSD. Os laranjinhas estão a construir uma narrativa que assenta no duelo entre a verticalidade (Ferreira Leite) e a desonestidade (Sócrates). Ou seja, o PSD está a aproveitar a gestão escandalosa que o MP fez do caso Freeport, atacando Sócrates com uma jogada às três tabelas. E aqui, atenção, convém relembrar que o PS está a provar do seu próprio veneno: os socialistas usaram fugas do sistema judicial para atacar o governo PSD/CDS.

Ora, esta instrumentalização das fugas oferecidas pelo MP revela que os escândalos judiciais substituíram as ideias no centro da nossa vida política. Nós não temos política, isto é, não temos um confronto entre diferentes visões para a governação. PSD e PS são idênticos, e, por isso, não conseguem promover um debate. Neste deserto de ideias, a nossa pseudo-política acaba por ser alimentada pelas fugas do MP. As ditas fugas preenchem o vazio de ideias, enquanto os partidos dançam ao som da música soprada pelos procuradores.

Se o PSD vencer as eleições, essa vitória dever-se-á ao caso Freeport. A vitória do PSD não terá por base os méritos de Ferreira Leite, mas sim os deméritos do MP. E isto é o pior que podia acontecer à direita: voltar ao poder sem ter feito o trabalho de casa; voltar ao poder sem ter desenvolvido uma forma de pensar diferente da cartilha socialista. E isto também é o pior que podia acontecer à democracia. É cada vez mais evidente que vivemos numa república de magistrados, e não numa democracia liberal. Seja qual for a vontade do eleitorado, o MP já ganhou as eleições de 27 de Setembro.

Pos-ocidental

Vale a pena reler "Vida e Morte dos Outros" (ICS) de José Cutileiro. Este livro - que fazia o rescaldo das operações ocidentais nos Balcãs - foi um dos precursores da tese que está finalmente na moda: o declínio do Ocidente. Cutileiro terminou o livro dizendo que o Ocidente "vogava num hovercraft de privilégio acima das suas posses morais". Hoje, podemos dizer com toda a certeza que o hovercraft esbarrou contra a parede, isto é, acabou o tempo em que os ocidentais podiam liderar sozinhos a 'comunidade internacional'.

Henrique Raposo