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Henrique Raposo

O 'Sócrates' e o 'José'

Henrique Raposo (www. expresso.pt)

A natureza, digamos, voluntariosa de José Sócrates faz-me lembrar a Dona Laurinda, uma vizinha muito 'enervadiça' aqui do bairro. Quando é contrariada, a Laurinda tem por hábito atirar telemóveis à parede. Eu gosto de imaginar José Sócrates a atirar telemóveis à parede no momento em que acaba de ler as crónicas de Mário Crespo (como eu gostava de ser uma mosquinha para saber se a minha imaginação doentia está, ou não, afastada da realidade). Mas, apesar de tudo, Laurinda e Sócrates são diferentes. A Laurinda é a mulher mais poderosa do bairro. Toda a gente assume isso. Em consequência, Laurinda é magnânima. Ela, por exemplo, não responde aos piropos que a garotada atira sobre os seus quadris. Sócrates não é assim. O nosso glorioso líder tinha muito a aprender com a Laurinda.

Sócrates é o homem mais poderoso do país, mas, paradoxalmente, tem uma insegurança brutal. Sócrates, qual petiz assustado, parece que vive aterrorizado com os 'piropos' que os media lançam sobre a sua acção política. Às vezes, até apetece dar miminho ao nosso primeiro-ministro. Existe, portanto, um desconcertante abismo entre o (imenso) poder de Sócrates e a sua (escassa) autoconfiança. E o mais grave é que este abismo, que revela uma inesperada fragilidade, torna Sócrates um político perigoso para as nossas liberdades. Para se proteger das críticas e das perguntas, o líder do PS inventou uma teoria que destrói as regras de uma sociedade livre: a "liberdade respeitosa".

A "liberdade respeitosa" de Sócrates assenta num malabarismo jurídico: o primeiro-ministro 'José Sócrates', o homem público que deve ser escrutinado sem piedade, esconde-se atrás do bom-nome privado do 'José'. Ou seja, quando não gosta das críticas dirigidas à sua conduta pública, Sócrates invoca que o 'José' ficou ofendido com as ditas críticas; uma crítica pública dirigida a 'José Sócrates' é assim transformada numa ofensa pessoal ao 'José'. Truque catita, ah! E não fica por aqui. De manhã, este truque tem um carácter defensivo, isto é, fomenta este catenaccio que bloqueia as críticas. Mas, à tarde, o truque é virado do avesso, e passa a legitimar ilegítimas manobras ofensivas. Os adeptos do socratismo acham normal que o 'José' aplique um bullying 'privado' sobre os media. Neste país das maravilhas, o 'José' pode andar a telefonar alegremente para as redacções com o objectivo de congelar as perguntas incómodas que é preciso fazer a 'José Sócrates'. Nesta lógica, a pressão de 'José' sobre um executivo de televisão é uma mera "conversa privada".

Depois de todos os choques entre Sócrates e a liberdade de imprensa, apetecia-me fazer uma manifestação anti-Sócrates (à semelhança das manifestações anti-Santana). Mas, como não tenho feitio para passeatas, eu e a Laurinda vamos escrever uma carta à Freedom House (uma carta de protesto é uma passeata civilizada). É preciso denunciar lá fora, nos fóruns internacionais, a forma como o Governo português despreza as regras da liberdade. Já chega de impunidade. Será um esforço inglório (e patético, concedo), mas será feito. A carta, meus amigos, começa assim: "Caríssimos, a Freedom House está enganada. Portugal não merece a nota máxima ao nível das liberdades civis. O facto de Portugal ser um país da UE não pode desviar a vossa atenção do seguinte: José Sócrates amputou a democracia portuguesa".

Texto publicado na edição do Expresso de 6 de Fevereiro de 2010