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Expresso

Henrique Raposo

A direita ilegalizada

O 25 de Abril continua envolto em nevoeiro mitológico, melhor, em vários nevoeiros mitológicos. É tempo de o 25 de Abril sair do pedestal do mito e entrar na história. Aliás, a melhor maneira de comemorar o 25 de Abril passa por começar a estudá-lo, em vez de o comemorar em passeatas.

Em "Marechal Costa Gomes - No Centro da Tempestade" (Esfera dos Livros), o historiador Luís Nuno Rodrigues oferece-nos um pormenorizado relato do percurso militar e político de Costa Gomes. O livro defende que Costa Gomes, enquanto Presidente, conseguiu evitar a guerra civil entre as forças democráticas e as forças autoritárias lideradas pelo PCP. Ora, aqui, eu gostava de destacar outro ponto; algo que funciona como cenário inamovível de todos os actos dessa peça de teatro que foi o PREC, incluindo o acto que evitou a guerra civil.

O PREC foi marcado pelo confronto entre o 'socialismo pluripartidário' e o socialismo autoritário. Contra o socialismo ditatorial do PCP, as forças democráticas geraram um consenso em redor do tal 'socialismo pluripartidário', a única senha que garantia legitimidade. Este "socialismo pluridemocrático" - mil vezes defendido por Costa Gomes - era visto como a única coisa que poderia evitar, ao mesmo tempo, o regresso ao passado autoritário de Salazar e o avanço para o futuro autoritário de Cunhal.

Mas o que era, em concreto, este socialismo pluralista? Bom, o "socialismo pluridemocrático" parece-me, precisamente, o nome de código do trade-off que evitou a guerra civil. Para evitar que Lisboa passasse a ser a Havana de Cunhal, as forças democráticas tinham de impor um pluralismo partidário. Porém, este pluralismo partidário vinha acompanhado de um preço: a ausência de pluralismo ideológico.

O país não caminharia para o comunismo autoritário, mas, em troca, a única 'direita' aceitável seria o "socialismo pluridemocrático". Desta forma, todos os partidos foram forçados - pelo Conselho da Revolução - a aceitar o "socialismo pluripartidário". O trade-off de Costa Gomes evitou a guerra civil, mas matou a diversidade política da III República. Este acordo ilegalizou a direita democrática dentro da III República.

E essa ilegalização criou raízes. Ainda hoje as pessoas falam do "arco governativo" (PS, PSD e CDS) por oposição aos revolucionários (PCP e BE). Este "arco governativo" é, assim, o novo nome de código do 'socialismo pluripartidário'. Ou seja, mesmo quando não está no Governo, o PS 'governa' o país através deste consenso que o PSD e CDS nunca tiveram coragem de romper. 35 anos depois, a direita continua ilegalizada.

TPC para Sócrates

Na RTP, Judite de Sousa e José Alberto de Carvalho foram vítimas de bullying socrático. Sócrates abusou de uma atitude autoritária, revelando o seu pouco à-vontade para lidar com perguntas. Além disso, Sócrates deveria ler "Areopagítica - Discurso sobre a Liberdade de Expressão" (Almedina). Este clássico de John Milton tem ainda muito a ensinar a políticos que procuram proteger a sua actividade pública com um suposto 'bom nome' privado. Quem é que Sócrates julga que engana quando diz que não está a processar "jornalistas", mas sim "pessoas" que o difamaram?

Henrique Raposo