Bolsas: "Twist" de Bernanke provocou crash de 4,5%
22.09.2011 às 22h53
"Operação Twist" desencadeada ontem pela Reserva Federal norte-americana provocou hoje uma derrocada de quase 4,5% à escala mundial e um disparo no risco de default de grandes economias da zona euro. O sector financeiro foi o mais massacrado pelo pânico
A "Operação Twist" de mudança do perfil do portefólio de títulos do Tesouro da Reserva Federal (banco central) norte-americana está a alcançar um dos seus objetivos - o de empurrar as yields (taxas de rendibilidade) dos títulos norte-americanos e alemães (Bunds) a 10 anos para mínimos históricos, mas desencadeou, desde quarta-feira à noite, uma onda de crash bolsista.
As yields dos títulos do Tesouro americano a 10 anos caíram hoje para 1,72%, um novo mínimo histórico, e no caso dos Bunds com a mesma maturidade para 1,67%, também, um novo mínimo. Sao níveis impressionantemente baixos.
Sector financeiro já perdeu 10% esta semana
Mas a decisão do banco central, liderado por Ben Bernanke, provocou hoje uma onda de crash nas bolsas mundiais, que se saldou por uma quebra de 4,487%. O sector financeiro foi ainda mais penalizado, com uma quebra, à escala mundial, de 4,978%.
Em termos acumulados, desde o início da semana, o índice global das bolsas (MSCI All-Countries World Index, que abrange as bolsas de 45 países) caiu 7,87% e o índice específico para o sector financeiro cotado (MSCI ACWI Financials) teve uma derrocada de 10%, segundo dados da Bloomberg.
O agravamento da dinâmica de crash bolsista é nítido a partir de serem conhecidas as deliberações da equipa de Ben Bernanke.
O vermelho começou por marcar ontem o fecho de Wall Street, mas a onda cresceu e atingiu com força as bolsas asiáticas, que fecharam hoje no vermelho, com destaque para o Hang Seng (da bolsa de Hong Kong) e o BCE Sensex 30 (da bolsa indiana), que caíram mais de 4%. No caso do índice indiano foi a maior queda diária nos últimos dois anos. O MSCI Asia Apex 50 fechou com uma quebra de 5,12%.
Na Europa, 16 bolsas fecharam com quebras superiores a 4%, entre elas as mais importantes, como Londres, Frankfurt, Paris, Milão e Madrid. O índice CAC 40, da bolsa de Paris, e o PSI 20, em Lisboa, fecharam com quebras superiores a 5% e três bolsas chegaram inclusive a cair mais de 6%, no caso da Áustria, Polónia e Rússia. O índice Bloomberg European 500 fechou com uma queda de 4,64%.
Na abertura de Wall Street, os índices Dow Jones e S&P 500 caíram mais de 2,5% e acabaram por fechar com quebras de 3,51% e 3,19% respetivamente. O índice das tecnológicas, o Nasdaq, caiu 3,25%.
Itália esteve acima de 550 pontos base
Mas o impacto não se deu apenas nas bolsas. O mercado secundário da dívida soberana foi atingido por uma revoada de deterioração da situação de crédito de grandes economias da zona euro - com destaque para a Itália, que galgou pela manhã os 550 pontos base de preço dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento), a França que está acima de 200 pontos base, a Bélgica próxima de 300 pontos base, e a própria Alemanha ultrapassou a barreira dos 100 pontos base.
O nível de 500 pontos base - agora ultrapassado pela Itália - é considerado um ponto de viragem, como ocorreu para a Grécia, Irlanda e Portugal.
A acalmia relativa em relação à Grécia - que recomeça as negociações para a semana com a troika e cujo risco de default da dívida soberana está adiado para dezembro -, foi largamente compensada pelo stresse na Itália.
O risco de default da dívida de Roma fechou em 37,78% e o custo dos cds situou-se em 533,04 pontos base, segundo dados da CMA DataVision. A 21 de julho, o custo dos cds para a dívida italiana era de 250,94 pontos base, quase metade, e a probabilidade de incumprimento era inferior a 20%.
O stresse alastrou a Portugal - cujo risco fechou hoje em 63,91% -, à Espanha (com o risco em 31,97%), à Bélgica (cujo risco subiu para 23,2%), à França (com o risco em 16,5%) e mesmo à Alemanha, que tem um risco muito baixo, de 9,2%, mas que aofreu uma pressão significativa hoje.
Alto stresse na banca mundial
No mercado dos cds, 17 dos principais bancos do mundo subiram mais de 5% no preço desses seguros contra o risco.
Segundo dados da CMA DataVision, a lista alberga por ordem decrescente de aumento do preço dos cds: Morgan Stanley (+13,25%); Crédit Agricole (+12,83%); Australia an New Zealand Bank (+12,31%); Standard Chartered (+10,01%); Goldman Sachs (+9,98%); Nomura Securities (+9,65%); JP Morgan (+8,39%); Barclays (+8,34%); UniCredit (+8,27%); Wells Fargo (+8,02%); Deutsche Bank (+7,88%); Bank of Scotland (+7,80); Bank of America (+7,67%); Mitsubishi UFJ (+6,40%); ING (+5,84%); Lloyds (+5,63%) e Royal Bank of Scotland (+5,48%).
As três situações mais graves neste conjunto de bancos, em termos de custo dos cds, são o UniCredit italiano com 510 pontos base, o Morgan Stanley com 402,54 pontos base e o Bank of America com 402,44 pontos base, estes dois últimos dos EUA.