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A Tempo e a Desmodo

Os príncipes lusitanos de Angola

É triste saber que um diplomata português aconselha José Eduardo Agualusa da seguinte forma: "Escreva os seus romances mas não ataque o regime angolano".

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

1. José Eduardo Agualusa publicou no "i" um ensaio elucidativo: "O Príncipe Perfeito". Nesta prosa, ficamos a saber que muitos diplomatas, editores, empresários e políticos portugueses têm uma mensagem de medo e respeitinho perante a ditadura angolana: "Escreva romance mas não ataque o regime". É ridículo. É trágico. Em 2010, os senhores do 25 de Abril defendem "certas posições do regime angolano com a veemência de jovens aspirantes ao Comité Central do MPLA". Há, de facto, muito príncipe português na defesa da causa de José Eduardo dos Santos.

2. A ver se nos entendemos. As empresas portuguesas podem fazer negócios com Angola. As economias de todas as democracias negoceiam com as Chinas e as Arábias. E ainda bem: o comércio é a melhor forma de destruirmos uma ditadura. Os embargos económicos só beneficiam os senhores do poder, pois fragilizam ainda mais a sociedade civil.

3. Porém, as relações económicas não devem determinar um "amiguismo" político entre uma democracia e uma ditadura. Existe uma fronteira entre a economia (feita pela sociedade) e a política (feita pelo Estado). Um político e um diplomata têm deveres éticos que um empresário não tem. Ou seja, Portugal, enquanto democracia, deve evitar apaparicar o regime angolano. A democracia portuguesa deve manter uma posição de distanciamento diplomático em relação a José Eduardo dos Santos.

4. Por último, o distanciamento político em relação ao regime autoritário de Angola deve ser acompanhado por um maior proximidade entre a sociedade portuguesa e os democratas angolanos que "lutam" contra o regime. Nunca percebi uma coisa: por que razão os intelectuais e jornalistas portugueses desprezam os defensores da liberdade em Angola? Essa "figura" - a do democrata angolano - não existe nas nossas narrativas, aqui em Lisboa. Outra falha a corrigir.