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A Tempo e a Desmodo

Carlos César e a mulher devem-nos 20 mil euros

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Em Portugal, os escândalos têm prazos e critérios incompreensíveis. No verão, o Tribunal de Contas disse que o governo regional dos Açores gastou 27.400 euros numa viagem da mulher de Carlos César, o outro Alberto João. De Junho a Novembro, com a exceção de uma coluna de Camilo Lourenço, não vi nada sobre este assunto. Entretanto, o governo regional mudou, mas as perguntas continuam em cima da mesa: por que carga de água a mulher do presidente dos Açores tem uma actividade protocolar à parte? Para quê? Por que razão andamos a gastar dinheiro em viagens oficiais da mulher do presidente de um mero governo regional? Até parece piada.

Mas, por agora, deixemos a piada estrutural, e concentremo-nos nesta viagem em concreto. Os números não batem certo. Durante cinco dias, Luísa César andou pelo Canadá com dois assessores. O preço do bilhete entre Açores e Toronto (ida e volta) custa cerca de 1000 euros. E o hotel? A diária média do Ritz de Toronto ronda os 500 dólares canadianos (387 euros). Portanto, 387 euros x 5 = 1935 x 3 = 5805 euros. Mas eu acredito que Luísa  César não escolheu um hotel tão fino e tão caro. Estou certo que esta distinta senhora escolheu, em nome do erário público, um hotel mais mixuruca. Vamos lá então supor que a estadia dos três viajantes só custou uns, vá, 4400 mil euros. Portanto, em hotel e viagens, três açorianos no Canadá durante cinco dias devem custar qualquer coisa como 7400 euros. Ora, para onde foi o resto do dinheiro? Os restantes 20.000 euros foram gastos no quê? Jantares de lagosta? A Senhora César andou por acaso de limusina? No fundo, só interessa fazer uma pergunta: por que razão uma viagem ao Canadá teve um orçamento à Willy Fog? O facto de ter sido uma adjudicação directa é a causa do altíssimo custo? Se sim, quais são as relações entre a família César e a agência que preparou a viagem?

Confrontado com a questão, o Alberto João açoriano limitou-se a dizer que a viagem não colocou em causa a execução orçamental. Moral da história segundo o dr. César? O nepotismo é aceitável desde que não ultrapasse os limites do orçamento. O caso devia ter causado escândalo, mas a pátria não se mexeu. São as tais indignações selectivas. Se um caso semelhante batesse à porta do Alberto João original, os indignados de 'Lesboa' exigiriam, no mínimo, o envio de fuzileiros para a Madeira. Seja como for, a família César deve 20 mil euros ao erário público.