A Europa é exótica para Obama
25.11.2010 às 8h53
A presença de Obama em Lisboa serviu para reforçar o amor dos europeus pelo Presidente americano. Sim, Obama é porreiro, mas a sua visão do mundo é a negação do 'ar do tempo' europeu.
I. Obama é o primeiro Presidente do Pacífico. É o primeiro Presidente que assume o seguinte: a sua visão do mundo é marcada pelo Oceano Pacífico (i. e., pelas relações entre os EUA e os asiáticos), e não pelo Oceano Atlântico (i. e., pelas relações entre os EUA e a Europa). Isto é uma questão de facto, e não de opinião. Olhem para um discurso de Obama de Novembro de 2009: "o Pacífico ajudou a moldar a minha visão do mundo (...) enquanto primeiro Presidente do Pacífico, prometo-vos que esta nação do Pacífico (os EUA) fortalecerá e apoiará a nossa liderança nesta importante parte do mundo".
II. Para percebermos isto, só precisamos de olhar para a biografia de Obama: nasceu no meio do Pacífico (Hawaii), e viveu a infância na Indonésia com uma irmã e um padrasto indonésios. Este percurso biográfico representa uma América sentada no Pacífico, onde a costa oeste (virada para a Ásia) rouba protagonismo à costa leste. No seu famoso livro The Audacity of Hope, Obama revela, de forma clara, esta visão transpacífica: o capítulo dedicado à política externa (The World beyond Our Borders) começa e acaba com a Indonésia, a sua segunda terra natal. E a Europa aparece sempre como um actor secundário no radar do novo inquilino da Casa Branca. Obama é o primeiro Presidente americano para quem a Europa não representa uma especial ligação sentimental e familiar. Para Obama, a Europa é só mais um dos cenários da política mundial. Para Obama, a Europa até é um sítio 'exótico'.
III. Neste sentido, os europeus não podem pensar que continuam a ser os aliados democráticos "especiais" de Washington. Porque já não são. Aliás, podemos até dizer que Obama já oficializou o declínio normativo da Europa dentro do mundo democrático, em geral, e dentro do sistema de alianças americano, em particular. Em The Audacity of Hope, Obama nunca usa a palavra Ocidente (the West). Nunca. Em vez de usar o conceito Ocidente, Obama utiliza um conceito revelador: "sistema global de democracias liberais". Neste free world global, as democracias do Pacífico (ex: Japão e Índia) são aliados tão ou mais importantes do que democracias europeias. E isso ficou evidente na primeira viagem da Secretária de Estado de Obama, Hillary Clinton. Pela primeira vez em cerca de 50 anos, a primeira viagem do Secretário de Estado americano não foi feita na direcção da Europa, mas sim na direcção da Ásia. E se passou um dia em Lisboa para falar com todos os europeus ao mesmo tempo, Obama passou uma semana na Ásia, visitando - individualmente - os grandes aliados democráticos do mundo transpacífico (Coreia do Sul, Índia, Indonésia, etc.). E repare-se nisto: a forma como Obama trata os europeus é completamente diferente da forma como trata os asiáticos. O Presidente americano faz exigências aos aliados europeus, enquanto faz promessas aos aliados asiáticos.
IV. Sim, Obama é cool, mas não tem uma visão europeia ou eurocêntrica do mundo. Isso não tem mal nenhum, mas convém que os europeus tenham consciência disso.