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Seis milhões de anos da Terra lidos em lama

Expedição científica ao largo da costa portuguesa e espanhola revela dados sobre alterações climáticas e prováveis depósitos de hidrocarbonetos.

Cristina Peres (www.expresso.pt)

A grande novidade resultante da expedição 339 do IODS (Integrated Ocean Drilling Program, Programa Integrado de Perfuração do Oceano) é que na costa ocidental de Portugal e na zona da baía de Cadiz encontram-se areias a grande profundidade favoráveis à criação de depósitos de hidrocarbonetos, ou seja, petróleo e gás.

"A espessura, extensão e propriedades dessas areias contorníticas torna-as um alvo ideal, em locais onde elas estão soterradas suficientemente fundo para permitir a captura de hidrocarbonetos", explicou Dorrik Stow, da Universidade Heriot-Watt, da Escócia.

A areia encontrada e recolhida durante a expedição encontra-se "particularmente limpa e bem calibrada e, portanto, muito porosa e permeável. As nossas descobertas podem anunciar uma mudança significativa nos alvos de exploração de hidrocarbonetos no futuro", rematou.

Objetivos do estudo

A expedição tinha por fim estudar "os riscos (tremores de terra, tsunamis) naturais e os recursos (hidrocarbonetos) naturais", acrescentou Fernando Barriga, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, os últimos dos quais "têm no presente muito interesse para Portugal", sublinhou o professor, acrescentando que a fase científica deste processo está a cargo do IODP e sairá do seu âmbito numa posterior fase de exploração industrial.

Esta é uma das conclusões preliminares resultantes das perfurações a 990 metros que surpreendeu a equipa de 35 cientistas, oriundos de 14 países, participante nesta missão que durou dois meses, a bordo do navio norte-americano 'JOIDES Resolution', que se encontra desde ontem atracado na Rocha de Conde de Óbidos em, Lisboa.

Além desta conclusão, os cinco quilómetros de testemunhos de sedimentos recolhidos numa área que nunca tinha antes sido explorada revelaram provas do ritmo tectónico da Terra (nesta região) e permitiram um registo detalhado das alterações climáticas.

Conclusões da expedição

"Propusemo-nos entender como o Estreito de Gibraltar funcionou ao longo dos últimos seis milhões de anos, inicialmente como uma barreira e depois como um local de passagem e troca de água entre o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo. Agora, temos de compreender o registo geológico de uma profunda e poderosa corrente de água proveniente do Mediterrâneo através do Estreito de Gibraltar", explicou Javier Hernandéz-Molina, investigador da Universidade de Vigo que participou na expedição.

O primeiro local de perfuração, na margem oeste de Portugal ao largo dos Açores, forneceu o mais completo registo até ao momento das mudanças climáticas ocorridas ao longo dos últimos 1,5 milhões de anos da história da Terra, preservado nos sedimentos marinhos obtidos.

O 'JOIDES Resolution' é o segundo maior navio científico do mundo (o maior é o japonês 'Chikyu'), com 143 metros de comprimento (o equivalente a 12 autocarros em fila) e uma torre de 62,4 metros de altura (equivalente a um edifício de 13 andares), apetrechado para perfurações de grande profundidade do fundo do mar.

A missão tinha por objetivo estudar o significado ambiental da corrente de saída de água do Mediterrâneo para o Atlântico e as suas implicações globais. A expedição permitiu avaliar os ciclos de alterações climáticas e o pulsar rítmico das placas tectónicas no rio de areia e lama subaquática traçado pela dita corrente de saída de água do Mediterrâneo.

A expedição 339 faz parte de um programa científico lançado em 2003 para durar dez anos. Portugal participa no consórcio europeu ECORD (European Consortium for Ocean Research Drilling, Consórcio Europeu para a Perfuração de Investigação dos Oceanos) sendo um dos 17 países europeus dos 25 membros, com os Estados Unidos, Japão, China, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia e Índia.