A extrema violência dos primeiros segundos deixava, quase sempre, as raparigas paralisadas de medo. Henrique Sotero, o 'violador de Telheiras', sabia que bastava encostar a lâmina fria da faca ao pescoço das vítimas para não sofrer grandes contratempos. Mas jogava pelo seguro e apertava-as contra si, com demasiada força. "Nunca feriu ninguém com gravidade mas chegou a deixar marcas físicas visíveis", conta uma fonte policial.
Embora tenha cometido o mesmo tipo de crime ao longo de uma década, o engenheiro de 30 anos nunca aperfeiçoou os ataques. "A experiência não lhe trouxe qualquer sofisticação. Agia de forma rudimentar e atabalhoada", revela o mesmo investigador.
Henrique Sotero estava, no entanto, longe de ser um criminoso previsível. Depois de consumar as violações, mudava radicalmente de atitude para com as vítimas. Conversava de uma forma serena com elas, como se nada de anormal se tivesse passado nos minutos anteriores, tentando seduzir as que considerava mais atraentes. "Usava tanto charme que só faltava convidá-las para sair com ele".
Noutras ocasiões, optava por se desculpabilizar dos seus actos violentos. Como se uma força incontrolável se tivesse apoderado dele, não lhe restando outra hipótese senão obedecer a esse instinto maligno. As autoridades julgam que Henrique Sotero guardava a secreta esperança de que elas o perdoassem e se tornassem até suas amigas. Algo que nunca aconteceu.
Violações às terças-feiras
Logo que foi detido pela PJ, na sexta-feira, dia 5, Henrique Paulino Sotero confessou ser autor de 40 violações na Grande Lisboa. Na maioria das vezes, obrigava as vítimas, algumas delas menores de idade, a praticarem sexo oral. E houve também casos de penetração. Ambos os delitos sexuais estão previstos no mesmo artigo do Código Penal - Henrique Sotero arrisca-se por isso a uma pena de dez anos de prisão, já que a condenação para um único crime de violação situa-se entre três e dez anos de cadeia.
Os crimes eram cometidos às terças-feiras, dia da semana em que dizia à companheira - com quem vivia num apartamento em Massamá - que ia ao ginásio. Telheiras, Linda-a-Velha, Oeiras e Alfragide foram os locais escolhidos para actuar, sempre de cara destapada.
Crime no terraço
As autoridades estranham que, até ao momento, apenas cinco mulheres tenham apresentado queixa, até porque a PJ tem já conhecimento de dez crimes da autoria do engenheiro. "Para a investigação, pouco interessam os crimes cometidos há dez anos, uma vez que já prescreveram. Estamos a apostar em identificar os delitos recentes", diz a mesma fonte.
Uma das primeiras queixas, e a mais mediática, foi a de Joana (nome fictício), uma menor de 17 anos que, no final da tarde de 18 de Agosto do ano passado (uma terça-feira), foi ameaçada à porta do prédio onde morava, em Telheiras.
O edifício de onze andares é vigiado por um porteiro, que naquele dia estava de folga, e tem um sistema de alarme ligado directamente a uma empresa de segurança. De nada serviu. Henrique Sotero estudou a rotina dos moradores, a maioria de férias, provavelmente do interior do Ford Focus estacionado no extenso baldio, defronte do prédio.
Terá atacado a jovem em poucos segundos, com uma faca, obrigando-a a subir até ao terraço. Consumada a violação, fugiu a pé com o telemóvel da vítima, sem se cruzar com ninguém. Em pânico, Joana alertou os familiares, que a levaram de imediato ao Hospital de Santa Maria.
Tal como acontece com outras vítimas de abusos, a jovem foi informada pelos médicos de que teria de ser submetida a exames ginecológicos para confirmar o crime. Só que em Agosto de 2009 o Instituto de Medicina Legal (IML), local onde se faz este tipo de exames, tinha as urgências fechadas entre as 18h e as 8h. Os técnicos da urgência do Santa Maria não tiveram outra solução senão recomendar a Joana que não tomasse banho, não bebesse água e voltasse ao IML doze horas depois.
O drama da vítima do 'violador de Telheiras' prolongou-se até à manhã seguinte. Pior: as amostras de ADN pouco serviram para a investigação até ao dia da detenção de Henrique Sotero. "Não tendo ele cadastro não era possível chegar até ao violador", explica a mesma fonte ligada ao processo. Joana já não reside em Telheiras. "Mudaram-se poucos meses depois do crime", revela uma pessoa próxima da família.
Nenhum dos vizinhos com quem o Expresso falou sabe do seu paradeiro e muitos desconheciam de quem se tratava. "Entramos para a garagem de carro, à noite, e saímos de carro, de manhã. Só nos cruzamos no elevador. Como poderemos saber da vida uns dos outros?".
Números
40 violações confessadas pelo engenheiro de 30 anos. Só cinco vítimas terão feito queixa
9 anos. Duração do namoro entre Sotero e a namorada, com quem dividia o T-3 em Massamá
25 de Fevereiro. A PJ emite um retrato-robô para ajudar a identificar o suspeito
10 anos. Início do curso de Engenharia Química no Técnico
19h
Espera
Joana chega a casa, despreocupada depois de mais um dia de férias. À sua espera, na penumbra da entrada do prédio, está Henrique Sotero, que tinha estudado as rotinas da estudante com uma precisão cirúrgica. Ele já sabia que naquele dia o porteiro não iria trabalhar.
19h01
Ameaça
O 'violador de Telheiras' encosta uma faca à garganta da menor, obriga-a a digitar o código secreto de moradora e a abrir a enorme porta de vidro que dá acesso ao átrio interior. Entram num dos três elevadores e sobem até ao 11.º andar, sem se cruzarem com nenhum dos vizinhos.
19h03
Violação
À saída do elevador, no 11.º andar, Henrique Sotero encaminha Joana pelas escadas de incêndio que vão dar ao 12.º andar. É uma zona do prédio não habitada e sem qualquer movimento a qualquer hora do dia. O violador força a jovem a abrir a porta que dá acesso ao pequeno terraço. É ali que a obriga a praticar sexo oral. Não há penetração. Como não existem prédios em frente, é impossível que sejam detectados.
19h10
Fuga
Durante o regresso ao rés-do-chão, Henrique Sotero tenta fazer conversa com a vítima. Antes de se pôr em fuga, rouba-lhe o telemóvel e obriga-a a depositar a bateria numa das caixas de correio. Foge, a pé, em direcção ao Ford Focus. Joana sobe para casa, para pedir ajuda à família.
Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Março de 2010