"Os crimes cometidos por Kaing Guek Eav estão entre os piores da história. Merecem a pena mais pesada que existir". Com este argumento, o juiz Kong Srim, do Tribunal Internacional do Camboja, condenou a prisão perpétua o antigo chefe do estabelecimento prisional de Tuol Sleng, em Phonm Penh, onde cerca de 16 mil pessoas foram mortas depois de torturadas.
Kaing Guek Eav, conhecido por "Duch", havia sido condenado em 2010 a 35 anos de prisão (pena reduzida a 30 para compensar o período de detenção ilegal) e recorrerera da sentença. O tribunal, porém, decidiu agravar a pena, declarando-o culpado também por extermínio.
Após a leitura da sentença, ex-presidiários sobreviventes de Tuol Sleng manifestaram a sua alegria por se ter feito, finalmente, justiça.
Ao apresentarem o recurso da sentença que condenara Guek Eav a 35 anos de prisão, os seus advogados argumentaram que o tribunal - criado com o apoio das Nações Unidas para julgar os crimes do regime - não teria jurisdição para o julgar, uma vez que este "não exerceu nenhum cargo de destaque, nem foi o responsável direto pelos crimes cometidos dentro da prisão". Ou seja, "apenas cumpriu ordens". A acusação, por sua vez, também recorreu, pedindo a prisão perpétua.
Guek Eav pedira absolvição apesar de ter admitido a sua responsabilidade nos crimes.
Processo com mais de 350 mil páginas
"Duch" é o primeiro condenado entre os altos dirigentes do Khmer Vermelho implicados nas atrocidades cometidas durante o regime que causou a morte de pelo menos 1,7 milhões de pessoas entre 1975 e 1979, durante a liderança de Pol Pot.
Outros quatro acusados, em prisão desde 2007, estão a ser julgados desde novembro do ano passado. São eles o ideólogo do regime e número dois da organização, Nuon Chea, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Ieng Sary (conhecido como o "irmão número três") e a sua mulher Ieng Sary, antiga ministra dos Assuntos Sociais, bem como o ex-presidente do "Kampuchea Democrático", Khieu Samphan, a face visível do regime.
Todos se dizem inocentes e respondem em tribunal a acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O processo tem mais de 350 mil páginas, 11.600 documentos e mais de mil registos escritos de entrevistas com testemunhas.
Durante o regime liderado por Pol Pot, mais de um quinto da população morreu à fome, por doença, tortura ou exaustão devido a trabalhos forçados.
O líder do Khmer Vermelho, Pol Pot, morreu em abril de 1998 na base da guerilha situada em Anlong Veng, no noroeste do Camboja. Outros altos dirigentes também já faleceram.