O gesto de Manuel Pinho, que resultou na sua demissão, foi o culminar de uma polémica que o ministro mantém com o PCP desde Fevereiro.
Na altura, o agora ex-ministro foi alegadamente portador de um donativo da EDP, empresa que tutela, ao Sporting Clube Mineiro de Aljustrel, clube que tem na direcção o candidato socialista às próximas autárquicas, Nélson Brito. A história foi relembrada pelo líder parlamentar do PCP em conversa cruzada durante o debate e isso irritou Pinho.
Além da entrega de um suposto cheque da EDP ao clube, a história contém versões contraditórias que ajudaram a alimentar a polémica na imprensa local e que mereceram mesmo um requerimento do PCP ao Governo.
Hélder Vairinhos, presidente do Aljustrelense, conta que, em Maio do ano passado, José Sócrates se deslocou a Aljustrel para assinar um contrato de investimento entre a API, a Pirites Alentejanas e a AGE Minas de Portugal, que resultaria, segundo palavras do primeiro-ministro, "na reabertura das minas encerradas há 14 anos" e na criação de "370 postos de trabalho".
Na altura, Sócrates recebeu uma camisola do clube local com o seu nome. Manuel Pinho, que acompanhava o líder do Governo, terá reclamado: "E eu? Só se lembram do primeiro-ministro?", recorda Vairinhos. A direcção do Aljustrelense prometeu então ao ministro que lhe faria chegar ao gabinete idêntica oferta. Mas tal não se concretizou, explica Vairinhos, "porque o senhor ministro mostrou interesse em se deslocar à vila".
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| Pinho, dia 15 de Fevereiro, num jogo do Aljustrelense. Uma visita que ditou a sua demissão |
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Ora, apesar de ter sido Pinho a "fazer-se convidado", diz o PCP, acabaria por ser noticiada a sua deslocação a Aljustrel, mas na qualidade de convidado. Na altura, relatava uma notícia da Lusa, citando fonte do Ministério, que "o ministro foi convidado a assistir ao jogo do clube local". A mesma fonte acrescentaria que o convite era uma "forma de agradecimento pelo seu papel no encontro de uma solução para as minas".
A agência noticiosa acrescentava que "o ministro iria oferecer equipamentos desportivos à equipa de Aljustrel" e que a homenagem estaria a ser "coordenada pelo governador civil", o general Manuel Monge.
Logo na altura, e contactado pela Lusa, o sindicato dos mineiros demarcar-se-ia da iniciativa, até porque as minas tinham, afinal, acabado de encerrar há dois meses, com despedimento colectivo, e o clima era de contestação ao Governo.
O facto é que, a 15 de Fevereiro de 2009, Manuel Pinho, acompanhado do governador civil de Beja, surgiria no campo de futebol durante o encontro entre o Aljustrelense e o Torreense. Ao intervalo, o speaker anunciou a presença do ministro e do governador civil, mas fez questão de esclarecer que estavam ali na qualidade de "cidadãos". Pinho recebeu a camisola do Ajustrelense oferecida pelo vice-presidente e candidato do PS às próximas autárquicas. O speaker acrescentou que o cidadão Pinho "era portador de um donativo de 5 mil euros da EDP ao clube", lembra Manuel Camacho, presidente da autarquia e militante do PCP que assistia ao jogo.
Contactada pelo Expresso, a EDP confirmou o donativo, mas garante não o ter feito através de cheque, mas directamente em equipamento desportivo. A empresa desmente que Manuel Pinho tenha sido o portador da oferta. A verdade é que o ministro se esqueceu da famosa camisola em Aljustrel e esta história acabou por determinar a sua saída do Governo.
Texto publicado na edição do Expresso de 4 de Julho de 2009