Mário Soares afirmou hoje que a escolha do primeiro-ministro belga Herman Van Rompoy para presidente do Conselho Europeu teve como objectivo "não fazer nada".
"Ninguém conhece esse senhor na Europa", disse o ex-Presidente português. "Sabe-se que ele é conservador, católico e sem passado. Foi escolhido por isso, para não fazer nada e isto é grave para o Tratado de Lisboa".
Mário Soares falava hoje de manhã num seminário luso-espanhol "Portugal e Espanha: O que fazer em conjunto na Europa?", organizado pelo Instituto dos Estudos Estratégicos Internacionais no Centro Cultural de Belém e na qual participou também o ex-primeiro-ministro espanhol, Felipe González.
O mesmo raciocínio é válido para a escolha da comissária britânica Catherine Ashton para Alto Representante para a Política Externa (o "mne europeu"): "É singular que se tivesse de ir buscar um inglês para este cargo, cujo país sempre se opôs à diplomacia europeia, e tendo além do mais uma diplomacia poderosa. É ela que a vai dirigir?"
Políticos querem tudo na mesma
Para Mário Soares, isto é grave para o Tratado que entrará em vigor no próximo dia 1 de Dezembro e que, segundo ele, "já está ultrapassado em alguns aspectos, nomeadamente nas questões económico-financeiras".
"Não temos uma política comum europeia para enfrentar a crise global em que estamos e vamos continuar a estar. Não a tendo, como vamos sair da crise?", perguntou Mário Soares.
"Querem que tudo fique na mesma", acrescentou noutro passo da sua intervenção, "mantendo os paraísos fiscais e os bónus, sem que se faça justiça".
Inexorável decadência
O ex-Presidente também se afirmou "preocupado" com a mediocridade de muitos políticos europeus, "que não correspondem à vontade política europeia no seu conjunto. A Europa foi feita por políticos europeus porque a queriam".
Neste sentido, Mário Soares considera "um erro" que a actual chanceler alemã, Angela Merckel esteja a demonstrar agora "pouco interesse em relação à Europa: é uma ilusão pensar que um só país europeu se possa sentar à mesa dos grandes".
Mário Soares terminou apelando a um movimento europeu de opinião pública para pressionar os líderes, senão "vamos entrar numa inexorável decadência".
"Os políticos europeus vivem virados para os seus interesses imediatos de Estado e não com objectivos maiores. Se os governos não forem pressionados não vão lá", sublinhou.