Aqui ficam algumas notas sobre a noite eleitoral de ontem. E começo por dizer que,
em democracia, os derrotados têm prioridade na análise. Porque da
derrota tem de surgir a
regeneração futura do sistema. Temos de pensar em anos e não em meses ou semanas.
I. O PS tem uma derrota histórica, pois regressa à casa dos 20%, algo que não acontecia desde os anos 80. É um justo castigo para o partido que governou Portugal na última década e meia. Em democracia, nós temos de responsabilizar quem governa. Ontem, o PS recebeu essa responsabilização. José Sócrates, o homem que nos conduziu à bancarrota, só tinha uma saída política: desamparar a loja. Agora, o PS tem um caminho ideológico e político para percorrer: quer ser um partido de esquerda moderna, de esquerda liberal à Blair, de esquerda nórdica, ou quer manter a âncora no velho socialismo? Aquilo que assinou com a troika indica a primeira opção. Ou seja, estas eleições podem ser o início de uma mudança histórica no partido central da nossa esquerda.
II. O BE é o outro grande derrotado da noite. O discurso de Louçã é inaceitável. O homem perdeu metade do seu grupo parlamentar, mas falou como se tivesse vencido as eleições. O BE tem de passar rapidamente para a fase pós-Louçã, tem de ultrapassar rapidamente este esquerdismo infantil, este revolucionalismo de spa. O BE tem a oportunidade histórica para criar as condições para um governo de coligação à esquerda (algo revolucionário no nosso sistema político)
. Sim, isso mesmo: a curto-prazo, estas eleições determinam uma coligação de direita, mas, a longo-prazo, abrem as portas a uma coligação de esquerda, PS/BE. O radicalismo anti-europeu da extrema-esquerda foi derrotado sem contemplações pelo eleitorado. Esta é a oportunidade para o surgimento de um partido de esquerda com capacidade, e humildade, para fazer coligações com o PS. Se não for o BE, terá de surgir uma coisa nova. Por outras palavras, estas eleições mudaram, para sempre, o mapa da nossa esquerda, a abriram as portas para uma futura coligação de esquerda, a peça que falta para a normalização europeia da nossa democracia.
III. O PSD é o grande vencedor, e alcançou mesmo uma vitória histórica. Foi quase uma vitória à Cavaco. E é uma vitória histórica por várias razões. Em primeiro lugar, Passos Coelho conseguiu algo inédito em 200 anos de história constitucional portuguesa: pela primeira vez, alguém conseguiu vencer o poder instalado através de eleições. Ou seja, até ontem, o primeiro-ministro no poder nunca tinha perdido esse poder através de eleições (Santana não conta). Foi assim na Monarquia Constitucional e, obviamente, na I República e no Estado Novo. E nesta III República o primeiro-ministro nunca tinha sido derrubado desta forma. Ontem, o país fez história. Em segundo lugar, o PSD vence com um programa claro, ideologicamente separado da esquerda. A CDU não tem razão: o programa do PSD foi discutido. Ninguém pode dizer que "não sabia". Em terceiro lugar, Passos vence contrariando os manuais do "comentário político português", isto é, Passos vence dizendo coisas complicadas e duras. Disse que era preciso acabar com feriados e ganhou de forma clara, disse que era preciso mudar a lei laboral e a TSU, e venceu de forma clara, disse que era preciso mexer na CGD e ganhou de forma clara, disse que não podia prometer nada e ganhou de forma clara. É por isso que a sua vitória representa um governo forte, porque disse o que ia fazer antes das eleições. Dentro da nossa III República, isto é uma novidade.
IV. Vamos ter um governo AD, porque o CDS conseguiu aguentar as trincheiras contra o voto útil. O CDS fez uma má gestão das expectativas, criou demasiadas esperanças num resultado épico, mas, na verdade, este é um resultado épico. O CDS cresce - novamente -, e solifica a sua posição bem acima dos 10%. Convém lembrar que os 10.5% de 2009 podiam ser virtuais, podiam ser o efeito Ferreira Leite no eleitorado da direita. Agora sabemos que não é assim. O CDS está a crescer solidamente, sendo, aliás, mais atractivo para os jovens do que o PSD (uma nota a ter em conta). Para se manter no clube dos grandes, o CDS só tinha de aguentar ou cresceu um pouco. Não tinha de crescer muito. Num clima de ódio contra Sócrates, o CDS resistiu ao voto útil, impediu uma maioria absoluta e voltou a cresceu. Onde é que isto é uma derrota? Só será uma derrota para aqueles que sonhavam com a hipótese Paulo Portas como PM. Mas isso sempre foi impossível. Mas, apesar de não ser PM, Paulo Portas mudou (para sempre?) o sistema partidário português. A era das maiorias absolutas acabou. E isso é positivo. Tal como já defendi 1235 vezes, o país precisa de uma cultura de compromisso.