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Sigamos a inocência

O medo da vulnerabilidade torna-nos pequenos e tristes.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011

Não sei se alguém, entre os que generosamente pousam os olhos nesta página, se dedicou a fazer a lista das causas da tristeza portuguesa que aqui propus, depois de ver o bom povo lusitano descrito como "surpreendentemente tristonho" nas páginas da "The Economist". Somos tristes por humildade: ensinaram-nos a responder "cá se vai andando" e a nunca manifestar muita alegria, para não ofender os outros. É uma ideia avara e arrogante, esta, de quem quer poupar-se a explicações ou suspeita que lhe vão pedir favores. Por outro lado, num país pequeno, o grau de intromissão na vida alheia agiganta-se e as solicitações multiplicam-se - o "cá se vai andando", mais do que uma declaração de desalento, é uma expressão de autodefesa. Defendemo-nos, talvez, demasiado - uma desconfiança incompreensível num país com fronteiras antiquíssimas. Há na atmosfera portuguesa um fatalismo que se prende com o prolongamento de uma cultura de famílias e castas, fortemente hierarquizadas, inamovíveis para lá de todos os progressos tecnológicos. Esse peso da tradição feudal explica o fraco empreendedorismo nacional - ou, melhor dito, os obstáculos violentos aos empreendedores desprotegidos de relações de poder - e a baixa produtividade do país. A má gestão do erário público é outra das causas de tristeza - e pobreza. O fosso entre os salários de topo e os de baixo só não pode dizer-se terceiro-mundista porque os países do dito terceiro mundo estão já a corrigi-lo mais depressa do que nós. Pessoas infelizes, frustradas, enraivecidas com a injustiça das suas condições laborais, produzem pouco e mal.

Entretanto, se começássemos por olhar para as coisas boas do país, talvez conseguíssemos mudar de atitude. A carta de despedida do embaixador de Inglaterra, Alex Ellis, publicada há semanas no Expresso, enumerava as seguintes singularidades positivas de Portugal, por esta ordem: a ligação intergeracional, o lugar central da comida na vida diária, a variedade da paisagem, a tolerância, o café e os cafés, a inocência, um profundo espírito de independência, as mulheres, a curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo, a relativização da importância do dinheiro.

Claro que algumas destas qualidades - a dimensão dos almoços da trabalho, por exemplo, ou o tempo passado nos cafés, já para não falar pela relação solta com o dinheiro - explicam também a dificuldade de nos tornarmos mais activos e competitivos. Mas a grande lição que o ano de 2010 deu ao mundo foi que os jogos do dinheiro e a competição desenfreada tornam-se fatais: são a Al-Qaeda interior do mundo capitalista. O conselho que o embaixador recebeu à sua chegada a Lisboa ("se quiser uma coisa bem feita neste país dê a tarefa a uma mulher"), também não é bom sinal: significa que as portuguesas sentem que têm de se esforçar a dobrar para que o seu trabalho seja reconhecido - e que os homens, contando com isso, descarregam sobre elas as missões impossíveis (e mais mal pagas).

Tocou-me particularmente, nesta lista, a palavra inocência. À primeira vista pode parecer paternalista, como o próprio Alex Ellis admite - até porque o paternalismo é um dos nossos mais velhos fantasmas. Facilmente tomamos um gesto de ternura por invectiva de menoridade - é o excesso de desconfiança e cerimónia em que fomos criados, a inabilidade para a expressão dos afectos que é o nosso problema central, o medo de mostrarmos vulnerabilidade e de sermos apoucados por isso. Nada nos torna tão vulneráveis quanto a inocência - um dom de encantamento, uma espécie de fé no futuro que resiste a todas as dores, desenhando-se como coragem luminosa. O ex-embaixador de Inglaterra encontra a palavra a partir da imagem de uns adolescentes dançando músicas tradicionais em Vila Real. Esta visão padece de uma inocência turística, de um fascínio pelo exótico que turva a comunicação. Mas não se pode negar que, precisamente por ser um país pequeno, convivial, de clima suave, exposto ao mar e ao desconhecido, com um ritmo lento e uma curiosidade inesgotável, Portugal cultiva a inocência. O fado é uma canção radicalmente inocente, extremista, transbordante de sentimentos, a canção que nos ensina a fazer das lágrimas rios que nos levarão para outras paragens. A inocência explica a força e a originalidade da literatura e do cinema que se fazem em Portugal. A inocência é a pedra de toque da beleza comovedora deste rosto da Europa que é o nosso país. Só a inocência salva.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 15 de janeiro de 2011
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Re: Sigamos a inocência
Jorge Duque (seguir utilizador), 1 ponto , 11:22 | Domingo, 23 de janeiro de 2011
Pergunto-me se a tal carta não fosse de um nórdico (ainda por cima inglês), mas de um nigeriano, vietnamita, angolano ou haitiano, a senhora dar-lhe-ia a mesma importância ou crédito?

Desconfio que nem se daria ao trabalho de a ler, se é que essa carta teria a mínima publicidade.

Veja agora as coisas noutra perspectiva: imagine que o embaixador português em Londres se atrevia a traçar o retrato psicológico dos ingleses. No mínimo, a sua atitude seria desprezada, senão mesmo ridicularizada.

Pois na minha opinião, as ideias do tal inglês são uma treta a que não dou qualquer importância. Ele que vá ser psicólogo do povo dele.

Desculpe, mas a sua atitude demonstra subserviência ao nórdico de pele clara, que já vem do tempo dos visigodos. E acho que senhora devia combater essa linha de pensamento indigna.
 
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Ser tristonho
Trapezio (seguir utilizador), 1 ponto , 11:28 | Domingo, 23 de janeiro de 2011
De facto, viver no terceiro-mundo não é motivo de grande alegria, já que se vive (vive, não! sobrevive-se) pelo pão nosso de cada dia, que, por vezes, até nem chega, embora uma pessoa trabalhe feito um mouro ...

Os homens de pele branca têm muita razão no que dizem.
 
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Maxx (seguir utilizador), 1 ponto , 12:19 | Terça feira, 25 de janeiro de 2011
Sir Alex escreve bem e vê Portugal através de uns óculos que lhe proporcionam uma visão pura de um País, como se tratasse de um estranho recentemente conhecido. Ao que parece leva com ele para Londres o melhor de Portugal, e como todos os que nos visitam, daqui levam saudades...
 
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