Não sei se alguém, entre os que generosamente pousam os olhos nesta página, se dedicou a fazer a lista das causas da tristeza portuguesa que aqui propus, depois de ver o bom povo lusitano descrito como "surpreendentemente tristonho" nas páginas da "The Economist". Somos tristes por humildade: ensinaram-nos a responder "cá se vai andando" e a nunca manifestar muita alegria, para não ofender os outros. É uma ideia avara e arrogante, esta, de quem quer poupar-se a explicações ou suspeita que lhe vão pedir favores. Por outro lado, num país pequeno, o grau de intromissão na vida alheia agiganta-se e as solicitações multiplicam-se - o "cá se vai andando", mais do que uma declaração de desalento, é uma expressão de autodefesa. Defendemo-nos, talvez, demasiado - uma desconfiança incompreensível num país com fronteiras antiquíssimas. Há na atmosfera portuguesa um fatalismo que se prende com o prolongamento de uma cultura de famílias e castas, fortemente hierarquizadas, inamovíveis para lá de todos os progressos tecnológicos. Esse peso da tradição feudal explica o fraco empreendedorismo nacional - ou, melhor dito, os obstáculos violentos aos empreendedores desprotegidos de relações de poder - e a baixa produtividade do país. A má gestão do erário público é outra das causas de tristeza - e pobreza. O fosso entre os salários de topo e os de baixo só não pode dizer-se terceiro-mundista porque os países do dito terceiro mundo estão já a corrigi-lo mais depressa do que nós. Pessoas infelizes, frustradas, enraivecidas com a injustiça das suas condições laborais, produzem pouco e mal.
Entretanto, se começássemos por olhar para as coisas boas do país, talvez conseguíssemos mudar de atitude. A carta de despedida do embaixador de Inglaterra, Alex Ellis, publicada há semanas no Expresso, enumerava as seguintes singularidades positivas de Portugal, por esta ordem: a ligação intergeracional, o lugar central da comida na vida diária, a variedade da paisagem, a tolerância, o café e os cafés, a inocência, um profundo espírito de independência, as mulheres, a curiosidade sobre, e o conhecimento, do mundo, a relativização da importância do dinheiro.
Claro que algumas destas qualidades - a dimensão dos almoços da trabalho, por exemplo, ou o tempo passado nos cafés, já para não falar pela relação solta com o dinheiro - explicam também a dificuldade de nos tornarmos mais activos e competitivos. Mas a grande lição que o ano de 2010 deu ao mundo foi que os jogos do dinheiro e a competição desenfreada tornam-se fatais: são a Al-Qaeda interior do mundo capitalista. O conselho que o embaixador recebeu à sua chegada a Lisboa ("se quiser uma coisa bem feita neste país dê a tarefa a uma mulher"), também não é bom sinal: significa que as portuguesas sentem que têm de se esforçar a dobrar para que o seu trabalho seja reconhecido - e que os homens, contando com isso, descarregam sobre elas as missões impossíveis (e mais mal pagas).
Tocou-me particularmente, nesta lista, a palavra inocência. À primeira vista pode parecer paternalista, como o próprio Alex Ellis admite - até porque o paternalismo é um dos nossos mais velhos fantasmas. Facilmente tomamos um gesto de ternura por invectiva de menoridade - é o excesso de desconfiança e cerimónia em que fomos criados, a inabilidade para a expressão dos afectos que é o nosso problema central, o medo de mostrarmos vulnerabilidade e de sermos apoucados por isso. Nada nos torna tão vulneráveis quanto a inocência - um dom de encantamento, uma espécie de fé no futuro que resiste a todas as dores, desenhando-se como coragem luminosa. O ex-embaixador de Inglaterra encontra a palavra a partir da imagem de uns adolescentes dançando músicas tradicionais em Vila Real. Esta visão padece de uma inocência turística, de um fascínio pelo exótico que turva a comunicação. Mas não se pode negar que, precisamente por ser um país pequeno, convivial, de clima suave, exposto ao mar e ao desconhecido, com um ritmo lento e uma curiosidade inesgotável, Portugal cultiva a inocência. O fado é uma canção radicalmente inocente, extremista, transbordante de sentimentos, a canção que nos ensina a fazer das lágrimas rios que nos levarão para outras paragens. A inocência explica a força e a originalidade da literatura e do cinema que se fazem em Portugal. A inocência é a pedra de toque da beleza comovedora deste rosto da Europa que é o nosso país. Só a inocência salva.
Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia
Texto publicado na revista Única de 15 de janeiro de 2011