Entre outras coisas, Quentin Tarantino ficou famoso por devolver o poder da palavra ao cinema. Sejam elas ditas no "Cães Danados" ou no "Kill Bill", uma pessoa sabe sempre que cada personagem quer mesmo dizer aquilo e não outra coisa. O tom é declarativo. A regra, nas filmagens, deve ser "improvisa se queres ser despedido".
As frases ganham a importância de um crescendo dramático. Quanto mais elas são ditas, maiores as consequências. Se há sermão assim para o longo - geralmente a pender para o sarcástico - ninguém tem dúvida que vem aí muita violência.
Toda a gente se lembra dos silêncios desconfortáveis no "Pulp Fiction". A actriz Uma Thurman está a beber um milk shake de frente para John Travolta e pronto, acontece um daqueles silêncios que ela adoraria se não fossem sempre tão terrivelmente desconfortáveis. O diálogo fala do valor do silêncio mas, no fim, é sobretudo sobre a arte de bem escrever um filme.
Por isso, aqui como noutras partes da mesma história, a viagem que fazemos com outros cinéfilos sentados na mesma sala torna-se memorável, não só pelo movimento da imagem mas, talvez sobretudo num mundo saturado de imagens, pela sedução da palavra.
Há até gente que faz peregrinações aos filmes de Quentin Tarantino e que debita o diálogo todo em perfeita sincronia com o que se passa no ecrã. Num filme dele os silêncios são desconfortáveis, os diálogos são o cume e a acção é a descida antes da resolução. As palavras decidem e o corpo apenas executa. Nalgumas cenas de "Pulp Fiction", por vezes isso fica ainda decorado com uma dança coreografada por dedos em V de Vitória passando pelos olhos.
O novo "Inglourious Basterds" ("Sacanas Sem Lei", que na próxima semana estreia em Portugal) torna-se memorável, como é hábito nos filmes de Tarantino, pela importância dos diálogos.
Comecemos pela primeira cena. Os alemães chegam a uma vila francesa ocupada e o chefe assustador do bando invasor confronta um lavrador que vive humildemente com as suas três filhas bonitas. Fica claro que o alemão sabe muito bem os factos - o francês esconde, na cave, uma família da judeus.
Ou seja, fica claro que está ali só para torturar mentalmente o seu anfitrião. Quer vê-lo, gradualmente, a sentir-se encurralado. Com um alemão sofisticado à frente, três filhas nas cercanias, judeus na cave e o previsível espectro da morte, o camponês transpira debaixo do maior controlo emocional e a tensão sobe até estalar, sempre com a ajuda das palavras.
Mas, stop! A versão do que saiu em Cannes não é a versão que está a ser distribuída nos cinemas. Nessa cena há coisas que mudaram. Fui ver como é que isto aconteceu.
 |
| Quentin Tarantino e as alterações introduzidas em "Sacanas Sem Lei" após Cannes: "É importante ver o filme com mais gente na mesma sala" |
| Nina Prommer/EPA |
Quentin Tarantino, por favor, há tantos boatos sobre as mudanças que foram impostas ao filme depois da estreia em Cannes, que eu preciso mesmo que esclareça algumas coisas.
Se calhar devia sentir-me lisonjeado. De facto, em toda a minha carreira nunca tive de confrontar boatos antes de estrear o filme nos Estados Unidos. Nunca se disse nada sobre o estado do filme na fase de pós-produção.
Ouvi dizer que o estúdio o obrigou a cortar 25 minutos mas que o Quentin, depois de ter desaparecido durante semanas, regressou com uma nova versão em que tinha cortado 25 minutos mas que tinha, agora, incluído mais 26 minutos...
Sim, ouvi falar nisso. Ouvi dizer que os irmãos Weinstein - Bob e Harvey, da The Weinstein Company, produtora do filme - e a Universal me pediram que cortasse não 25 mas 20 minutos. Blá, blá, blá. Tudo treta. Percebe? Treta. Nem sequer vou ficar chateado ao imaginar que as pessoas têm de mim essa imagem, a de ser mandado daqui para ali como se não tivesse voz própria. Faço o meu trabalho e mais nada. O meu estilo é o meu estilo. O que aconteceu foi isto: depois de ter sido convidado a apresentar o filme em Cannes, fiz as coisas com demasiada pressa. Ora bem, trabalho sempre com a mesma editora. Em todos os filmes que faço é sempre a Sally Menke quem me ajuda a cortar o filme. Nessa operação, há um esquema que seguimos. Há um processo. Nessa pressa de levar o filme a Cannes, esquecemo-nos do último passo do nosso processo: ver o filme com o público. É importante ver o filme com mais gente na mesma sala.
Mas correu tudo bem em Cannes, não?
Sim, mas não vou iludir-me. A plateia de Cannes não é neutra. Se fosse assim, depois dos aplausos e de uma ovação que durou 11 minutos, ia dormir à sombra da minha glória. Mas eu não penso assim. E foi por isso que, seis dias depois da apresentação em Cannes, fui mostrar o filme no The Bridge, para um público normal. The Bridge é um desses multiplex. Fica perto do Los Angeles International Airport.
E foi então que ...
Não distribuímos cartões para as pessoas preencherem. Não pedimos opiniões. Nada disso. Queria apenas ver o filme numa sala normal e rodeado de pessoas normais. Só assim é possível ver o que funciona e o que não funciona. Vi o filme. Regressámos à sala de montagem e, dois dias depois, estava tudo definitivamente pronto. Foi preciso cortar daqui e dali, acrescentar segmentos. Por vezes, as gargalhadas surgiram no momento certo, por vezes não fazia sentido prolongar a cena se não iria haver reacção do público, como verificámos. Tudo coisas que fazemos sempre.
Mas não houve, pelo menos, uma grande mudança?
Sim. Tive de devolver partes de uma cena que tinha cortado da primeira versão. Aliás, não sei explicar o que aconteceu. Devo ter tido uma hemorragia cerebral.
Que cena foi essa?
Quando Landa, o coronel alemão, se senta para comer tarde de maçã com a menina judia que sobreviveu ao massacre na aldeia. Eles tinham de continuar a comer o strudel. Não sei porquê, mas tinha feito a cena demasiado curta. O fim era demasiado abrupto. Agora a cena do strudel é maior.