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Rendas: liberalização relutante

Henrique Raposo (www.expresso.pt)
7:29 Quinta feira, 23 de fevereiro de 2012

Devido à fraca qualidade do autor do costume, a gerência de "A Tempo e a Desmodo" resolveu abrir uma nova secção: "os convidados". O convidado desta semana é Rui Alpalhão, Professor Associado Convidado, IBS. 

 

"Every individual necessarily labours to render the annual revenue of the society as great as he can. He generally, indeed, neither intends to promote the public interest, nor knows how much he is promoting it. (...) by directing that industry in such a manner as its produce may be of the greatest value, he intends only his own gain, and he is in this, as in many other cases, led by an invisible hand to promote an end which was no part of his intention. Nor is it always the worse for the society that it was no part of it. By pursuing his own interest he frequently promotes that of the society more effectually than when he really intends to promote it. I have never known much good done by those who affected to trade for the public good".

Adam Smith, An Enquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, 1776

 

Adam Smith, geralmente creditado como autor do primeiro tratado moderno de Economia, era Professor de Filosofia na sua Escócia natal. Quiçá por isso, a filosofia subjacente a uma reforma legislativa é essencial, e a - estimável - Reforma do Arrendamento recentemente anunciada pelo Governo falha, salvo melhor opinião, na filosofia que lhe subjaz. De facto, a visível degradação das cidades portuguesas não é obra do acaso, nem de uma qualquer praga congeminada por bruxa inimiga da pátria, mas sim consequência directa da sistemática e reiterada disrupção legislativa dos mecanismos de mercado, particularmente do congelamento das rendas, ocorrido pela primeira vez em 1910, logo após a implantação da República.

O legislador congelante, concedamos, terá estado animado de boas intenções, muito provavelmente crente de que contribuía para o bem dos seus concidadãos. Smith via mais longe, e, se fosse vivo, teria podido antecipar o nefasto resultado: contracção do parque habitacional arrendado, exclusão de muitos potenciais arrendatários do mercado, nomeadamente dos mais jovens, prejudicados por esse grave defeito de terem nascido mais tarde, deslocação do capital para outras aplicações com rentabilidade não limitada artificialmente, ruína do parque inicialmente dedicado ao arrendamento, abandono do centro e construção desenfreada para revenda na periferia, desperdício.

A inflação nos anos sessenta e setenta, ao fazer as rendas congeladas divergir brutalmente dos respectivos valores de mercado, pôs a cereja no topo do bolo. Depois de uns anos a imitar a avestruz, os sucessores dos legisladores congelantes não optaram por corrigir o erro dos seus antecessores. Com a introdução do RAU, deixaram o mercado funcionar de novo, mas somente para os novos arrendamentos, e geraram complicados mecanismos para correcção das distorções acumuladas nos contratos antigos. Smith, se estivesse entre nós, teria avisado que não ia funcionar. Assim foi, e, para corrigir o problema, insistiu-se na receita das distorções ao mercado com o NRAU. Também não funcionou.

A reforma recentemente apresentada é, infelizmente, essencialmente mais do mesmo, registando-se com apreço o saudável pudor em a designar NNRAU. São introduzidas flexibilizações marginais na arquitectura contratual dos arrendamentos novos, nomeadamente a liberdade de contratar sem prazo mínimo, que se saúda, mesmo reconhecendo que, no essencial, a reposição da eficiência do mercado dos arrendamentos novos se conseguiu com o RAU de 1990. Para os arrendamentos antigos, o benevolente legislador introduz mais complicados mecanismos que fariam o orgulho do legislador congelante do século passado: um esquema paternalista de supervisão e regulação das negociações entre o sacrificado senhorio e o protegido inquilino incumbente, um conjunto de excepções ancorado em variáveis como rendimento, idade e deficiência do inquilino que mantêm o senhorio amarrado a um papel forçado de substituto de um Estado incapaz de prover os direitos que prescreve para os portugueses. A relutância em liberalizar é uma má opção, e terá consequências, nomeadamente um próximo NNNRAU.

 

 

 


 

 

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Rendas liberalização relutante
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 10:07 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Esta situação foi criada por uma Lei das rendas, que sendo revolucionária e tendo até algum sentido na altura, se tornou com o tempo um desastre Nacional. Independente de alguns acertos que será necessário fazer é urgente que a Nova Lei das Rendas seja posta em prática o mais breve possível. Há que colocar no mercado casas devolutas, que só se encontram nessa situação devido à falta de confiança dos Senhorios. Os jovens de hoje, mesmo os que têm emprego, não têm possibilidade em comprar e por isso há que por a funcionar o arrendamento e dar utilização a essas casas.

 
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jpafonso (seguir utilizador), 2 pontos , 10:26 | Quinta feira, 23 de fevereiro
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rollsrock (seguir utilizador), 2 pontos , 13:52 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Rendas liberalização relutante    Ver comentário
ViraLatasNaEuropa (seguir utilizador), 1 ponto , 18:35 | Quinta feira, 23 de fevereiro
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rollsrock (seguir utilizador), 1 ponto , 21:16 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Rendas liberalização relutante    Ver comentário
a_Razao (seguir utilizador), 1 ponto , 22:02 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Rendas liberalização relutante    Ver comentário
shicat (seguir utilizador), 1 ponto , 22:40 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Rendas liberalização relutante    Ver comentário
filipe@rio (seguir utilizador), 1 ponto , 1:47 | Sexta feira, 24 de fevereiro
Não é bem assim...
poiz (seguir utilizador), 2 pontos , 10:57 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Não concordo totalmente com a opinião do prof. Rui Alpalhão.
Se é verdade que a anterior lei das rendas era uma barbaridade de "faz de conta", não é justo enfiar esta no mesmo saco.
Reconheço a injustiça e injusteza das anteriores leis das rendas (sendo que a que a anterior substituiu não era do tempo do PREC, mas do regime salazarista), que passavam para os senhorios os custos sociais que deveriam ter sido assumidos pelo Estado.
Estas leis criaram distorções gravíssimas no mercado de arrendamento, mas também no mercado imobiliário e tiveram consequências graves na solidez financeira do País. Com efeito, as famílias endividaram-se para comprar casa, quando a poderiam ter alugado, mormente pela ineficiência do mercado de arrendamento que tornou as rendas caras, e pela bandalheira na concessão de crédito por culpa dos bancos e do Estado (na minha opinião, houve dumping por parte dos bancos nesta matéria). As famílias optaram pelo racional e, deu no que deu.
Resultado, está tudo metido num grande molho de bróculos: bancos, famílias e País...
A liberalização da lei das rendas é assim inevitável.
Não podemos é esquecer que continuam a existir algumas lacunas sociais complicadas e que o Estado por si só não consegue resolver. Há que ter em conta um necessário período de adaptação, especialmente aos mais desfavorecidos que não podem ser confrontados com um impacto imediato. É justo que o mesmo seja repartido entre Estado e senhorios, para esses casos mais graves.
 
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    Re: Não é bem assim...    Ver comentário
rollsrock (seguir utilizador), 1 ponto , 14:01 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Não é bem assim...    Ver comentário
poiz (seguir utilizador), 2 pontos , 16:09 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Não é bem assim...    Ver comentário
a_Razao (seguir utilizador), 1 ponto , 22:07 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Leis
moncarapacho (seguir utilizador), 2 pontos , 11:26 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Na minha opinião a lei das rendas foi das mais perniciosas coisas que aconteceram neste país.
-Aliviou a preocupação das Câmaras em construir para arrendamento, a custos controlados, passando para os privados os custos da protecção social.

-Arrasou e arruinou todo o parque habitacional das "baixas" das cidades e vilas, pois o ridículo das rendas não permitia aos senhorios qualquer obra. O oportunismo dos inquilinos completou o quadro.

-Prejudicou o desenvolvimento do país, ao "agarrar" casais jovens a compromissos de 50 anos, prejudicando-lhes a mobilidade e o dinamismo de procura de melhores condições. Muitos jovens de vinte e poucos anos ganharam mentalidade de conservador reformado em fim de vida, que já não se quer mexer do sítio onde está.

-A solução é a liberalização total do sistema, um mecanismo expedito de despejo em caso de não pagamento e talvez ainda se vá a tempo de corrigir.

As situações de cariz social, terão que ser assumidas pelos poderes públicos, Câmaras ou Segurança Social. Os privados pagam os seus impostos e não são obrigados a fazer caridade.........
 
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Rendas
Jolitras (seguir utilizador), 1 ponto , 9:16 | Quinta feira, 23 de fevereiro
rendilhados e bordados deste nosso Portugal.

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Que falta de detalhe...
oreivaivestido (seguir utilizador), 1 ponto , 10:33 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Só não percebo qual a situação alternativa que é apresentada neste artigo. Liberalização total e instantanea?

Talvez fosse o mais justo, mas que governo democrático aguentaria depois de ver umas dezenas de milhares de pessoas de idade a irem viver para a rua?

http://oreivaivestido.blo...
 
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    Re: Que falta de detalhe...    Ver comentário
rollsrock (seguir utilizador), 1 ponto , 14:04 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Que falta de detalhe...    Ver comentário
oreivaivestido (seguir utilizador), 1 ponto , 14:51 | Quinta feira, 23 de fevereiro
    Re: Que falta de detalhe...    Ver comentário
Mamaevovo (seguir utilizador), 1 ponto , 7:56 | Sexta feira, 24 de fevereiro
Arrendamento,um caso perdido.
rollsrock (seguir utilizador), 1 ponto , 14:18 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Depois de ter gasto mais de 10 mil € na remodelação de um apart de 3 assoalhadas no centro da cidade e de a ter alugado por €350 eis que recebo a noticia que o inquilino vai sair.

Tudo isto era normal não fosse o facto do inqulino dizer que tem um mês de caução e só sai no mês a seguir apesar de me dever cerca de €3000 em rendas atrasadas...é preciso ter uma lata do caraças.

E agora como é que vou reaver o dinheiro se nem sequer sei para onde é que ele vai morar?e o dinheiro e o tempo que vou perder,compensará?compensará meter alguém em tribunal que nada tem em seu nome e já parte do ordenado penhorado por dividas a outrém??
Como magra consolação resta-me er observado "in loco" que a casa está estimada...valha-me isso.
 
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Mais uma lei que não aquece nem arrefece...
mimp (seguir utilizador), 1 ponto , 18:19 | Quinta feira, 23 de fevereiro
À luz de um estudo da APL, 16% dos arrendamentos têm valores abaixo dos 15€, 43% estão entre os 15 e os 100€, 24% entre os 100 e os 250€, 15% entre os 250 e os 500€, e só 2% acima dos 500€.
Ora, facilmente se compreende que não é em 17% que é necessário intervir... E foi isto que fizeram os RAU sucessivos, com ou sem "N" à frente... Todas as rendas abaixo de 100€ são rendas "antigas", e representam 69% do total. E, aqui, a nova lei continua a não mexer significativamente. Porque, evidentemente, os arrendatários têm, na maioria, mais de 65 anos...
Embora fazer "justiça" custe alguma coisa aos cofres do Estado, o que é certo é que o facto de se permanecer neste marasmo também custa: as receitas de IRS das rendas destes 69% são praticamente nulas.
É evidente que TODAS as rendas têm de ser liberalizadas, competindo ao Estado, e não aos senhorios, resolver os problemas sociais subjacentes. Deveria ser o Estado a pagar subsídios de renda, caso o inquilino não pudesse suportar o respectivo valor. Evidentemente que, sobretudo agora, não há dinheiro para isso. Muito bem: o Estado constituía-se em dívida, e passavam os senhorios a deduzir, em sede de IRS sobre os seus outros rendimentos, o dinheiro correspondente ao tal subsídio que o Estado deveria pagar e "não pode"...
Enquanto andarem simplesmente a pôr "N"s à frente do RAU, nada vai mudar realmente... Vai continuar a haver um problema em 69% dos arrendamentos...
 
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    Re: Mais uma lei que não aquece nem arrefece...    Ver comentário
a_Razao (seguir utilizador), 1 ponto , 22:16 | Quinta feira, 23 de fevereiro
Reformar para ficar tudo igual...
Perspectiva (seguir utilizador), 1 ponto , 18:28 | Quinta feira, 23 de fevereiro
A proposta da Nova Lei das Rendas não resolve o problema do incumprimento do inquilino. Acaba tudo, como antes, em tribunal e sabendo o que isso significa comoi querem que as casas devolutas sejam postas no mercado?
A Lei continua a não resolver o problema das rendas antigas, uma vez que mantem a a injustiça de serem os senhorios a fazerem à sua custa segurança social, da qual o Estado se demite.
Por fim, a Lei não prevê qualquer tipo expedito de atribuir ao inquilino os custos dos danos (caso existam) do local arrendado.
Concluindo, fazem-se reformas para ficar tudo na mesma! Uma desilusão! Se são estes os tipos de reformas que o Governo pretende implementar, vamos mesmo ao fundo!
 
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a injustiça é só para uns?
Alberto Teixeira (seguir utilizador), 1 ponto , 9:56 | Segunda feira, 27 de fevereiro
Se em relação aos senhorios cujas rendas datam de tempos anteriores ao congelamento salazarista das rendas entendo perfeitamente a necessidade de efectuar uma compensação de injustiças, já em relação a outros parece-me estar-se a criar aqui um benefício injustificado aos senhorios.
Dou um exemplo: Em 1964, as rendas estavam já congeladas. Os senhorios para arrendar as suas casas cobravam valores exorbitantes, pois sabiam que a renda não poderia ser aumentada. Esses valores eram normalmente superiores ao salário médio de um português por casas pequenas levando a que em poucos anos o senhorio tivesse o valor integral do imóvel pago por esse facto.
Obviamente que, ao locupetamento levado a cabo nos primeiros anos do contrato seguir-se-ia um baixar progressivo dos valores devido à inflacção, no entanto nessa altura o senhorio já só recebia lucro depois de ter amortizado, à custa do inquilino, o capital investido no apartamento.
Pergunto eu, qual a justiça de agora o senhorio poder aumentar desmesuradamente a renda como se tivesse sido vítima de algo imprevisível quando na realidade não o foi?
Há algo nesta tentativa de aumento de rendas que visa criar um despejo massivo de cidadãos dos centros das grandes cidades de uma forma que não é justa.
 
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