A SIC devia investir num novo programa semelhante ao popular "Querido mudei a casa" mas adaptado aos tempos modernos. Neste emaranhado de dívidas em que vivemos lançar um "Querido, entreguei a casa ao Banco" seria um tiro certeiro nas audiências. E o mais certo é terem programa para os próximos 100 anos. É que não interessa muito andar a fazer reformas na cozinha, sala de estar ou ter um quintal com zona de lazer, parque infantil e um anexo bonito para o cão quando quem acaba por lucrar com as reformas é um investidor qualquer num leilão depois da casa ter sido entregue ao Banco por falta de pagamento das prestações. Este último recupera o total em divida ou ainda lhe ficam a dever dinheiro, com juros obviamente.
O número de pessoas que deixaram de pagar os empréstimos bancários aumentou 450%. Repito: 450%. Há dezenas de milhares de empresas em incumprimento. No entanto a preocupação de meio mundo e de grande parte da comunicação social deste país gira em torno dos desgraçadinhos dos banqueiros que apresentaram resultados negativos. Até me dá vontade de chorar, palavra de honra. Quando os vejo na televisão a carpirem como madalenas procurando explicar o óbvio só dá vontade de lhes perguntar onde andaram este tempo todo? A culpa não pode ser só de quem teve acesso ao dinheiro. Quem o pediu emprestado por necessidade ou puro consumismo é o único responsável? Ele não caiu na conta das pessoas por acaso, ou caiu?
Onde andaram estes senhores de gravata composta e camisa imaculada quando os seus bancos emprestavam dinheiro sem a devida "securitização" dos mesmos? Sem acautelarem o possível, mais do que provável, incumprimento futuro. Onde andava Vítor Constâncio, supra sumo da Banca, quando os banqueiros aqui do burgo, numa guerra em que valia quase tudo para captar mais um cliente ou crédito à habitação, emprestavam dinheiro como se ele nascesse numa fonte do Jardim Botânico. Não viram o Air Bus a aterrar-vos no quintal? Pudera, com lucros de centenas de milhões trimestrais também eu andava contentinho da vida e ceguinho de todo. Isto para não falar em BPP, BPN e outras vergonhas a que temos assistido. E até estas são pagas pelos cidadãos.
Acho que está na altura destes senhores ajudarem a pagar a crise. Isto porque grande parte do que se está a passar socialmente é fruto da ligação estreita e estranha entre banqueiros e políticos. Uma ligação entre alta finança e política feita de cumplicidades, negociatas e fechares de olhos que só não são seriamente punidos porque a Justiça neste país não vale um tostão furado. E porque em boa verdade se diga que não interessa a ninguém mexer no que está instituído. Cabe ao jornalismo sério investigar todas estes meandros. E se não o fazem é porque não querem. Revejam todos os grandes escândalos dos últimos 30 anos e se não estiver envolvido um ou mais do que um banco e as suas empresas de nomes pomposos sedeadas em paraísos fiscais por detrás de cada negociata eu próprio faço mea culpa nesta página. E saem sempre incólumes porquê? Mistério.
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