O governo cubano está "assustado" com as repercussões internacionais dos protestos que têm ocorrido, designadamente na capital, Havana, após a morte de um opositor por greve de fome, disse Hugo Landa, diretor da Cubanet
, à Agência Lusa.
As ruas de Havana testemunharam na quinta-feira o quarto dia de protestos do grupo "Damas de Branco", familiares dos 75 dissidentes detidos e condenados na onda de repressão de 2003, conhecida como "Primavera Negra", entre as quais está Reyna Luisa Tamayo, mãe de Orlando Zapata, que morreu a 23 de fevereiro, após uma greve de fome de 85 dias.
Este grupo tenciona desfilar durante sete dias, um por cada ano passado na prisão pelos seus familiares. Na quarta feira, o protesto foi interrompido de forma violenta pela ação das forças policiais que retirou as manifestantes das ruas, forçando-as a entrar em autocarros.
Assustar as Damas de Branco
Landa atribui, de resto, a forma mais pacífica como decorreu o protesto de quinta feira à repercussão internacional das agressões registadas na véspera.
"O governo teve medo das repercussões, das fotos publicadas em todo o lado. Assustou-se", disse à Lusa, em contacto telefónico.
"O principal objetivo [do governo cubano] é assustar e parar as 'damas de branco'. (Por isso) promoveram manifestações de apoio", acrescentou.
Questionado sobre se sabia algo sobre a denúncia de ameaças a dissidentes feita na quinta feira pela Amnistia Internacional, Landa afirmou desconhecer o caso concreto mencionado, mas avançou que "isso é típico do governo".
Grupo de mafiosos
"Aterrorizam as pessoas através das famílias, dos filhos, do que calha. O que o mundo não entende, ou não quer ver, é que estamos a lidar com um governo mafioso. Não é um governo legítimo. É um grupo de mafiosos. Não conhecem limites", declarou.
O diretor da Cubanet realçou ainda o que considerou ser a "determinação" as 'Damas de Branco': "Vi hoje a fotografia de Laura Pollan [uma das líderes do grupo] a desfilar, com o braço ao peito" [partido na quarta feira durante a ação das forças de segurança].
Mencionou também o facto de as autoridades cubanas estarem agora a ser confrontadas com uma novidade: a entrada de informação em Cuba e a redução do controlo que têm tido sobre os fluxos noticiosos.
Media controlados
"Tem de se perceber que em Cuba todos os 'media' são controlados pelo governo. Não há televisão privada. O que as pessoas sabem é o que o governo lhes diz ou que quer que saibam", referiu.
"O grande problema do governo cubano agora é que a informação começou a circular em Cuba. Até há dois anos, as pessoas não podiam comprar telemóveis em Cuba. Agora, as notícias voam. O grande problema do governo é que o que está a acontecer está a ser conhecido dentro e fora de Cuba", esclareceu.
Solicitado a extrapolar evoluções dos movimentos em curso, Landa manifestou-se cauteloso: "Vejo as coisas a mudar, as pessoas a perder o medo, a tomar as ruas".
PE condena brutalidade policial.
Na quinta feira, a Amnistia Internacional (AI) instou o presidente de Cuba, Raúl Castro, a garantir a segurança das "Damas de Branco", perante o risco de sofrerem maus-tratos físicos e intimidações. No mesmo dia, o Parlamento Europeu, pela voz do seu presidente, Jerzy Buzek, condenou a "brutalidade policial" usada contra as "Damas de Branco" e exigiu que Havana liberte de "imediato todos os presos políticos".
Ainda de acordo com a AI, polícias visitaram no passado dia 15 a casa de Soledad Riva com o intuito de a demover de participar nas manifestações das "Damas de Branco".
Riva, casada com o ex-preso de consciência Roberto de Miranda Hernández, foi avisada de que não voltaria a ver os seus filhos caso participasse nos protestos.
A Cubanet funciona na Florida e tem o apoio financeiro de entidades norte-americanas, como divulga no seu sítio eletrónico.
A Agência Lusa procurou por várias vezes estabelecer contactos telefónicos com pessoas em Cuba, mas todas as tentativas se revelaram infrutíferas.
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