23/05/2012 atualizado às 22:04
Página Inicial » Opinião » Inês Pedrosa » Programa para um ano de crise

Programa para um ano de crise

A conversa da angústia é velha e mata os novos.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011

Na Sociedade Filarmónica Alunos de Apolo, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, mulheres e homens das mais variadas idades encontram-se ao cair da noite para aprender a dançar. As aulas, excelentes, custam apenas um euro por dia, para quem tenha a persistência de rodopiar diariamente e queira aprender uma dança diferente em cada mês: jive, valsa inglesa, valsa vienense, rumba, samba, tango, cha-cha-cha, paso doble, slow fox e quick step.

Quando chegam os alunos da primeira hora, saem os dançarinos das matinés dançantes que ali existem todas as tardes, das três às sete - gente que se reformou do trabalho mas não da alegria de viver. Há mais mulheres do que homens com vontade de aprender a dançar. Pelo menos nos Alunos de Apolo. Mas nunca falta par, porque há um valoroso conjunto de homens dos níveis mais elevados que se disponibiliza a aparecer pelas aulas dos principiantes para se deixar pisar até que as novatas consigam fixar os passos.

Ali, naquela hora, ninguém quer demonstrar nada, nem chegar a lado algum - não há egos lustrosos nem feitos imponentes, apenas ritmos. Enquanto os professores corrigem cada passo em falso e cada movimento trôpego, os parceiros sapientes segredam às tropeçantes: "deixe-se levar pela música que o resto vem depois". O resto virá depois, sim, desde que saibamos escutar a música, entrar no tempo.

A crise que vivemos resulta do oposto desta atitude: querermos acelerar o tempo, dominar a música, abafá-la, tomá-la toda para nós. Essa é uma das coisas que se aprendem num filme que só aparentemente é sobre dança - "Cisne Negro", candidato a mais Óscares do que os que mereceria, se tomasse alguma distância sobre a loucura da perfeição em que se compromete.

A competição desenfreada conduziu o mundo ao impasse em que estamos hoje. É tempo de percebermos que o remédio está na antítese do veneno - pararmos de correr e encontrarmos tempo para, simplesmente, dançar. A conversa da angústia sobre o futuro é velha e mata as novas gerações. Há trinta anos o telemóvel, a Internet e as redes sociais que entretanto criaram empresas e fortunas eram impensáveis - por conseguinte, que valor têm os augúrios de desgraça para os nossos filhos e netos? A nova geração precisa desesperadamente de incentivo - e sobretudo calma.

O direito ao sonho parece arredado da cartilha dos mais novos, tanta é a ansiedade dos pais sobre o seu sucesso futuro. Einstein chumbou a Humanidades na entrada para a Universidade e Bill Gates abandonou o curso no 3º ano para se dedicar aos computadores. Estudar é importante, desde que se tenha paixão por aquilo que se estuda. Conheço jovens que estiolam a estudar Gestão quando gostam de Artes, porque têm medo de não poder sustentar-se. E sei que ninguém pode ser um bom gestor se não tiver amor pela gestão. Sei que a felicidade começa sempre pelo amor.

Não me atreveria a dizer que sei mais nada - mas quando se teve a sorte de aprender na infância que é importante ter sonhos e lutar para os tornar realidade, sabe-se isto. Essa sorte é hoje interditada aos meninos que são obrigados a aprender chinês ou a correr de explicação em explicação para serem os melhores da turma, os mais hábeis sobreviventes, os mais competitivos.

A crise fundamental é a de ideias: os sistemas económicos tradicionais estoiraram, e não se adivinha ainda o que poderá vir substituí-los. Seria mais fácil adivinhar se tivéssemos tempo para pensar. Tempo livre - para ler, viver, e sobretudo pensar. Deveríamos fazer da filosofia o centro dos currículos escolares, desde o primeiro ano de ensino - em vez de fazermos precisamente o contrário, como calamitosamente temos feito.

Os jardins são gratuitos. Os museus, aos domingos, também. Como são gratuitas as bibliotecas - e há-as hoje pelo país inteiro, disponibilizando, além de livros e revistas, músicas e filmes. Um bilhete para os fabulosos filmes que a Cinemateca exibe custa menos de metade de um bilhete de cinema normal. Quando se passa uma manhã de sol, mesmo no Inverno, lendo estiradamente na relva, o cérebro acende-se e a alegria renasce.

A pouco e pouco, perde-se aquele instinto de frustração que nos leva, tantas vezes, a desrespeitar os outros - utilizando-os, fustigando-os, ou tentando frustemente caçar-lhes o lugar, numa fila dos Correios ou numa qualquer empresa. O mais urgente programa anticrise parece-me esse: gozar cada dia devagar, com o mínimo de possível de custos. E pensar como quem dança, sem olhar para o par do lado nem pretender mais do que o prazer de rodopiar ao som da música.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 12 de fevereiro de 2011

 
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
«Einstein chumbou a Humanidades»
joa de arievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 17:51 | Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011
Eu até podia chegar aqui e tecer os mais rasgados elogios... mas seriam falsos. O defeito não são os outros, somos nós!
Os nossos pensadores, eu's, são tão mauzinhos que arrepia. Aliás só assim se justifica este mar de palha.

«"deixe-se levar pela música que o resto vem depois".»
Se não aprendermos as regras (as leis do Universo) que
conduzem o compasso e a dança, o resto que virá depois poderá ser sempre tralha, não fora assim e nem seriam necessárias escolas de dança. Bastaria escutar, deixarmo-nos levar pela música. Que é, infelizmente, o que temos feito.

«...o remédio está na antítese do veneno - ...simplesmente, dançar. pararmos de correr e... tempo para, ...dançar.»
O remédio está no saber usar dos venenos! Nem a correr, nem a dançar levados pela música, chegamos a bom porto. Isso é o que temos feito. Rs.

«Há trinta anos o telemóvel, a Internet... e as redes sociais que
...fortunas eram impensáveis»
olha quem fala! nem consegue aceitar uma pequenina alteração na sua principal ferramenta de trabalho, a escrita.
Sem nada se alterar, os sonhos serão apenas patetices, há que estar aberto ao renovar de cada dia!

«Einstein chumbou a Humanidades»
Quer melhor nota que essa, quando toda a humanidade é um
chumbo?
Não é o que está a dizer, e a revelar em si e no texto?

«Sei que a felicidade começa sempre pelo amor.»
Riso meu, como se constrói uma sinfonia só com notas felizes?

«A crise fundamental é a de ideias:» ...
 
 Regras da comunidade
    Re: «Einstein chumbou a Humanidades» (II)    Ver comentário
joa de arievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 17:59 | Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011
Retrógada
Maxx (seguir utilizador), 1 ponto , 17:01 | Segunda feira, 21 de fevereiro de 2011
Gostei do seu texto simples, verdadeiro, com visão e a lembrar sempre o mais importante: o amor. Portugal e´um dos países onde reina o "amor ao dinheiro , luxuria e pecado". Tudo o resto é para "pobre fazer" e não tem valor algum, pois não custa "rios de dinheiro" nem envolve "sacrificar a vida de uns quantos". É lamentável, mas é triste o País que temos e que se recusa a evoluír.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Obrigada
0:00 Quarta feira, 23 de fevereiro de 2011, 9
Programa para um ano de crise
0:00 Quarta feira, 16 de fevereiro de 2011, 3
Meter água
0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011, 2
Memória, precisa-se
0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011, 15
Peregrinação a Roma
0:00 Quarta feira, 26 de janeiro de 2011, 2
Sigamos a inocência
0:00 Quarta feira, 19 de janeiro de 2011, 3
A curva da felicidade
0:00 Quarta feira, 12 de janeiro de 2011,
Década dois
0:00 Quarta feira, 5 de janeiro de 2011, 3
Aviso por causa da moral
0:00 Quarta feira, 29 de dezembro de 2010,
Estado de emergência
0:00 Quarta feira, 22 de dezembro de 2010, 2
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB