Dizia Fellini: "A única responsabilidade que sinto é a de evitar a aproximação que é a secreção mais directa da ignorância e da estupidez. Ser aproximativos é uma característica nossa, tipicamente italiana, uma atitude psicológica que cultivamos desde sempre com deleitado cuidado, às vezes até com presunção, como se fosse um recurso, uma qualidade genética que os outros só podem invejar-nos; enquanto quase sempre não é mais do que a esquálida resignação a sobreviver; ainda e só aproximativamente, entenda-se. Sinto a responsabilidade de não enganar, de não me contentar, de testemunhar, com uma aplicação rigorosa dos instrumentos de que disponho, a embrulhada que, caso a caso, vou encontrando." (Em "Fellini por Fellini", entrevista de Giovanni Grazzini, Publicações Dom Quixote, 1985). Este escorregadio talento para a aproximação, mansa e mordaz, feita de doses iguais de deslumbramento e desconfiança, resvalando quase sempre para o conformismo, é também muito português - talvez seja esse um dos encantos que a Itália tem para nós. O Museu de Arte Contemporânea de Roma (MACRO) exibe agora, pela noite dentro (das quatro à meia-noite) um fabuloso Labirinto Fellini. A parte central da exposição é uma instalação cenográfica inspirada nas atmosferas teatrais e oníricas do realizador, um prodígio de luz, som e vazio, seguido por um dédalo de telas gigantes onde pedaços dos seus filmes contracenam entre si, e onde confirmamos a que ponto Marcello Mastroianni é único e inesquecível. Pedaços do filme que já não chegou a realizar, excertos de entrevistas, e uma homenagem à revolução que foi "La Dolce Vita" compõem a outra parte da exposição. Reencontrar Fellini é recuperar o dom da inocência, essa verdade íntegra e desprevenida que nos falta tanto. Há também inocência na exasperação sublime da pintura de Caravaggio, que levou para as paredes das igrejas a desesperada sensualidade do mundo. Fui a Roma para me ajoelhar uma vez mais, na igreja de Santo Agostinho, diante da Madonna dei Pellegrini, uma mulher com uma criança demasiado grande nos braços, e que ainda assim parece dançar em silêncio, sobre uns pés levitantes, e abraçar com olhos carnais, humanos, os peregrinos de pés sujos que vergam as suas dores diante dela. Era prostituta de profissão, a Lena que serviu de modelo a esta Madonna de Caravaggio - não é por acaso que as santas e santos deste pintor de fogo e gelo são invariavelmente seres da verdade violenta da noite, anjos caídos na hipocrisia de um mundo de aparências. Às Madonnas de Caravaggio pode-se rezar, porque elas não têm medo de ouvir nem se deixam confundir com mentiras, meias tintas, cobardias ou omissões. São apenas e soberanamente mulheres, com os braços carregados e ainda assim disponíveis para afogar o mal dos outros nos seus fartos colos.
No regresso, a alma irmã que me acompanha nesta peregrinação e percorre comigo em silêncio o Panteão onde jaz Rafael, debaixo de uma abóbada de céu, põe-me na mão um livro pequeno: "Toma, fica com ele. Está velho, não encontrei um novo, já o li três vezes, é teu". O livro chama-se "Um Amor Puro" e é assinado por Agustina Izquierdo - uma velharia de 1995, imaginem, impossível de encontrar nas livrarias. Leio: "Era uma luz feita de uma precisão perversa ou misteriosa, longínqua e penetrada pelo silêncio. Não havia uma luz em combate com uma sombra, um dia que se opusesse à noite e aniquilasse a sua escuridão. Havia uma terceira fonte de brilho e de trevas simultaneamente. Havia uma luz escura em que os homens mantinham as pálpebras fechadas e estavam em condições de perceber a vida mais intensamente, se para isso tivessem a temeridade necessária." Na Catarina desta novela de uma escritora que nem sequer existe vejo o rosto de Lena, o rosto da Madonna de Caravaggio, o rosto de Roma, devastadoramente belo na sua melancolia de séculos misturados, a esperança dos jovens turistas que lançam moedas e desejos à Fontana di Trevi que Anita Ekberg continua a percorrer, à noite, no labirinto de Fellini, que abre as portas quando a noite cai. Em Roma, de resto, a noite não cai - nasce devagar, numa bruma lenta que apaga os azuis e ocres das paredes e acende a música e os projectores, como no genérico de um filme que nunca acabasse de começar.
Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia