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Paternidade

Pela primeira vez, os filhos descobrem a alegria de ter um pai.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 11 de agosto de 2010

O homem e o rapaz passeavam abraçados pelo Cais da Ribeira, às três da madrugada. Nem uma aragem tocava a imobilidade das águas. As luzes da cidade multiplicavam-se no rio; o tempo parara e o espaço era feito de noite e silêncio. As casas cintilavam como estrelas caídas na Terra. O homem lembrava-se talvez do dia em que lhe chegara à prisão a primeira imagem da Terra fotografada do espaço. Era então um rapaz, como agora o seu filho. Foi há mais de quarenta anos, e o deslumbramento mantém-se. Conseguiu chegar a esta noite, a esta cidade, com a capacidade de encantamento intacta - apesar de todas as desilusões? Não: através de todas as desilusões. A felicidade não se encontra fugindo aos obstáculos da vida, pelo contrário: é uma escolha, difícil, intermitente, gloriosa. Uma questão de liberdade e inocência. A prisão ensinara-lhe isso. Como a imagem da Terra, coberta de nuvens. O homem passara o braço sobre os ombros do rapaz e caminhava, na verdade, pendurado no seu pescoço, porque o filho já era mais alto do que ele. Vivemos a primeira geração em que os filhos conseguiram crescer mais do que os pais, a primeira geração em que pais e filhos caminham abraçados, conversando.

- Essa ponte foi construída por um sócio de Eiffel. O mesmo que fez a torre de Paris.

- É parecida com a torre, mesmo.

O pai contou ao filho que naquela cidade do Porto nascera o infante Dom Henrique, cérebro pioneiro das navegações portuguesas. Explicou-lhe que as famosas tripas à moda do Porto foram inventadas, como tantas outras coisas, por necessidade de sobrevivência. A população cedeu toda a carne disponível para a armada que partiu à conquista de Ceuta, em 1415, ficando apenas com as tripas para a sua alimentação. Na noite anterior os dois haviam percorrido, no mesmo abraço, pelas mesmas horas desertas, o Terreiro do Paço. Aquele era o rio Tejo, este é o rio Douro, enumerava o pai, esquecido do cansaço no calor das cidades partilhadas. Voariam juntos para outros países, mas o pai queria que o filho não esquecesse a particular beleza deste, tão próximo na Língua e no sangue, tão estranhamente tropical nestas duas noites. O homem e o rapaz maravilhavam-se pelo gosto de gostarem das mesmas coisas e de pensarem coisas diferentes sobre tudo aquilo que juntos amavam. Lisboa e Porto tornavam-se outras por causa do olhar de cada um deles: lugares onde todos os sonhos e projectos se tornavam imediatamente possíveis, lugares disponíveis e íntimos, as cidades irmãs que nunca se lembram de ser. Eles viviam aquelas noites como se fossem as primeiras, como se a história dos seus dezoito anos de vida em comum se resumisse neste dom do riso e da descoberta contínua, além do tempo e do espaço.

A paternidade é uma das mais vanguardistas conquistas do nosso tempo. Ao contrário da maternidade, não tem cartilha de etiqueta nem caderno de encargos; aquilo a que no passado se chamava pai era uma ausência: um senhor que saía cedo e entrava tarde, pagava as contas, exigia respeito e obediência - ou pior. As famílias assim constituídas estoiraram porque eram fontes de solidão e violência. Mulheres e homens agarram-se ainda demasiadas vezes aos filhos como náufragos a pedaços de mobília flutuantes, temerosos do mundo anunciado em que o amor será o único valor com cotação constante, sem as escoras das aparências sociais. Os filhos deixaram de ser o certificado de aforro das famílias para se tornarem aquilo que desde sempre deveriam ter sido: exemplos de alegria, liberdade e futuro. Nenhum filho merece o peso da infelicidade obrigatória dos pais, nenhum filho prefere uma família agrilhoada aos seus tornozelos a um pai e uma mãe autónomos, aos quais possa amar como pessoas inteiras, estejam juntos ou separados. O divórcio tem sido muitas vezes o início do casamento dos pais com os seus filhos - o princípio do exercício da verdadeira paternidade, uma experiência de amor muito diferente da que oferece a conjugalidade.

Quando um pai e um filho atravessam abraçados a noite de uma cidade que decidiram tornar sua, não precisam de mais ninguém. Trazem com eles todo o amor vivido e por viver e a certeza de que, porque existem um no outro, nada nunca lhes faltará.

- Pai, essas aves que gritam são gralhas?

- Não, kid. São gaivotas. O Atlântico começa já ali, depois da curva do rio. Não se vê daqui, mas está lá.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição da Única de 7 de agosto de 2010

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Zé Sá 1975 (seguir utilizador), 1 ponto , 14:50 | Quarta feira, 11 de agosto de 2010
Em termos do real e do processo de viver, tão bom que eu mereço uma mulher comigo para o amor, tão bom que eu mereço viver do meu comportamento, a sua tristeza com que eu sou a única pessoa no planeta fora do estado para concepcional e estado civil em ordem aqui como a personalidade integral do meu ser em composição sexual. Um resultado de extrema violência, que aqui em Coimbra pelo meu modo de vida em torno desta área Solum é danificado como natural é o comércio de dialogístico funções para viver e também auto-reconhecimento para o meu projecto, eu não sair deste lugar que eu ao vivo, aqui a base social próprias estruturas de plano em mim uma realização da castração perigosas e de qualquer fonte de linguagem aqui a fim de destruir a minha defesa sobre as acções penais respectivas concepcional para a linha do corpo orgânico que aqui são colocados para fora da minha cabeça pela orelha até os pés dentro de um pulo em directo evidente a sequência de energia nominal ao vivo no conceito de concepção criminal, que a propriedade interna reservada para actos sexuais é nesta área sujeita a utilização antes da pessoa que me atacam, e neste maneira puxar minha residência corpo como uma forma de linguagem sexual que em mim foi girada para simples prazer de prostituição pública, sobre a minha imagem pessoal e em confronto da paridade em directo, dos meus códigos de genética e da estrutura jurídica que aqui posto em julgamento do meu estado mental, as acções erradas em um longo tempo ...
 
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A beleza das palavras de Inês
Mrhynde (seguir utilizador), 1 ponto , 11:49 | Segunda feira, 16 de agosto de 2010
Todas as vezes que me ponho a pensar em Inês Pedrosa, lamento por ela escrever tão vagarosamente e tão pouco. Um texto como a crônica acima só faz com que meu sentimento de carência das palavras dela se confirme. Que texto lindo, sonoro, poético! Que beleza vital!

Escreve mais, Inês, com mais frequência! Acabo de ler o teu "Os Íntimos" e já queria outro romance. Você é única, dentre as vozes portuguesas de hoje. Obrigado pelo que nos já deste (mas eu quero mais).
 
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