O homem e o rapaz passeavam abraçados pelo Cais da Ribeira, às três da madrugada. Nem uma aragem tocava a imobilidade das águas. As luzes da cidade multiplicavam-se no rio; o tempo parara e o espaço era feito de noite e silêncio. As casas cintilavam como estrelas caídas na Terra. O homem lembrava-se talvez do dia em que lhe chegara à prisão a primeira imagem da Terra fotografada do espaço. Era então um rapaz, como agora o seu filho. Foi há mais de quarenta anos, e o deslumbramento mantém-se. Conseguiu chegar a esta noite, a esta cidade, com a capacidade de encantamento intacta - apesar de todas as desilusões? Não: através de todas as desilusões. A felicidade não se encontra fugindo aos obstáculos da vida, pelo contrário: é uma escolha, difícil, intermitente, gloriosa. Uma questão de liberdade e inocência. A prisão ensinara-lhe isso. Como a imagem da Terra, coberta de nuvens. O homem passara o braço sobre os ombros do rapaz e caminhava, na verdade, pendurado no seu pescoço, porque o filho já era mais alto do que ele. Vivemos a primeira geração em que os filhos conseguiram crescer mais do que os pais, a primeira geração em que pais e filhos caminham abraçados, conversando.
- Essa ponte foi construída por um sócio de Eiffel. O mesmo que fez a torre de Paris.
- É parecida com a torre, mesmo.
O pai contou ao filho que naquela cidade do Porto nascera o infante Dom Henrique, cérebro pioneiro das navegações portuguesas. Explicou-lhe que as famosas tripas à moda do Porto foram inventadas, como tantas outras coisas, por necessidade de sobrevivência. A população cedeu toda a carne disponível para a armada que partiu à conquista de Ceuta, em 1415, ficando apenas com as tripas para a sua alimentação. Na noite anterior os dois haviam percorrido, no mesmo abraço, pelas mesmas horas desertas, o Terreiro do Paço. Aquele era o rio Tejo, este é o rio Douro, enumerava o pai, esquecido do cansaço no calor das cidades partilhadas. Voariam juntos para outros países, mas o pai queria que o filho não esquecesse a particular beleza deste, tão próximo na Língua e no sangue, tão estranhamente tropical nestas duas noites. O homem e o rapaz maravilhavam-se pelo gosto de gostarem das mesmas coisas e de pensarem coisas diferentes sobre tudo aquilo que juntos amavam. Lisboa e Porto tornavam-se outras por causa do olhar de cada um deles: lugares onde todos os sonhos e projectos se tornavam imediatamente possíveis, lugares disponíveis e íntimos, as cidades irmãs que nunca se lembram de ser. Eles viviam aquelas noites como se fossem as primeiras, como se a história dos seus dezoito anos de vida em comum se resumisse neste dom do riso e da descoberta contínua, além do tempo e do espaço.
A paternidade é uma das mais vanguardistas conquistas do nosso tempo. Ao contrário da maternidade, não tem cartilha de etiqueta nem caderno de encargos; aquilo a que no passado se chamava pai era uma ausência: um senhor que saía cedo e entrava tarde, pagava as contas, exigia respeito e obediência - ou pior. As famílias assim constituídas estoiraram porque eram fontes de solidão e violência. Mulheres e homens agarram-se ainda demasiadas vezes aos filhos como náufragos a pedaços de mobília flutuantes, temerosos do mundo anunciado em que o amor será o único valor com cotação constante, sem as escoras das aparências sociais. Os filhos deixaram de ser o certificado de aforro das famílias para se tornarem aquilo que desde sempre deveriam ter sido: exemplos de alegria, liberdade e futuro. Nenhum filho merece o peso da infelicidade obrigatória dos pais, nenhum filho prefere uma família agrilhoada aos seus tornozelos a um pai e uma mãe autónomos, aos quais possa amar como pessoas inteiras, estejam juntos ou separados. O divórcio tem sido muitas vezes o início do casamento dos pais com os seus filhos - o princípio do exercício da verdadeira paternidade, uma experiência de amor muito diferente da que oferece a conjugalidade.
Quando um pai e um filho atravessam abraçados a noite de uma cidade que decidiram tornar sua, não precisam de mais ninguém. Trazem com eles todo o amor vivido e por viver e a certeza de que, porque existem um no outro, nada nunca lhes faltará.
- Pai, essas aves que gritam são gralhas?
- Não, kid. São gaivotas. O Atlântico começa já ali, depois da curva do rio. Não se vê daqui, mas está lá.
Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia
Texto publicado na edição da Única de 7 de agosto de 2010