Nas discussões europeias, os angustiados com a "falta de uma solução europeia" esquecem sempre um pormaior: a zona euro não é um estado soberano. Estão aqui em jogo várias soberanias e não apenas uma. Mas, curiosamente, os debates são sempre lançados no pressuposto de que a UE/zona euro é um estado soberano. Isto não é um detalhe insignificante. É um problema, vá, intelectual que dificulta a discussão dos problemas da UE/zona euro.
Para começar, dificulta a compreensão de estados como a Alemanha. Nos últimos anos, o europeísmo-chapa-5 tirou a mira do Reino Unido, e colocou-a sobre a Alemanha. Porquê? Porque, dizem, Merkel foi muito lenta nas tomadas de decisões que levaram à formação do FMI europeu. Qual é o problema desta abordagem? Esquece por completo os alemães e a democracia alemã. Alguns políticos e intelectuais falam das soluções para a UE como se não existisse povo alemão, como se o povo alemão não tivesse uma voz legítima, como se a Alemanha fosse da Joana
. Como é óbvio, Merkel tem de gerir as percepções dos alemães em relação à UE e, por isso, não pode andar à velocidade dos europeístas que imaginam uma UE abstrata, num estirador sem pó, sem gente real.
Por outro lado, esta pressa europeísta pode causar sérios problemas nas próximas fases de construção da UE. Porque vão começar a chover pressões para que a zona euro dê passos largos no sentido de maior integração, nomeadamente através das eurobonds. Qual é o problema aqui? As eurobonds implicam, a médio prazo, a concretização de um federalismo europeu, implicam a construção de um estado federal europeu.
E, mais uma vez, esta discussão está a ser feita nas costas dos povos europeus. O debate sobre as eurobonds está a ser lançado dentro da linguagem técnica do economês, ficando assim longe dos debates públicos. Lamento, mas esta questão tem de ser debatida na linguagem política. É possível criar uma zona euro com eurobonds? É. Um federalismo europeu pode ser construído de forma legítima, no perfeito respeito pela autonomia democrática de cada estado? Pode
. Mas tudo isto representa um salto histórico enorme. Não é ir ali à esquina buscar uns trocos. Isto representa uma caminhada imparável em direcção aos Estados Unidos da Europa. Portanto, a pergunta é só uma: será que os povos europeus estão prontos para outra fase de integração política? Como dizia a minha avó, cuidado com os passos maiores do que as pernas.