23/05/2012 atualizado às 19:49
Página Inicial » Opinião » Nicolau Santos » O novo mundo que aí vem

O novo mundo que aí vem

Nicolau Santos
8:00 Segunda feira, 23 de março de 2009

O mundo de abundância e prosperidade em que vivemos desde a II Guerra Mundial está a ruir fragorosamente. Há, contudo, quem pense que, passada a tempestade, tudo voltará ao mesmo. Pois a má notícia é que não voltará. A boa é que, mesmo sendo um mundo mais pobre aquele que aí vem, pode ser um mundo melhor. Explico-me.

O que se está a passar é o empobrecimento das sociedades ocidentais. Os nossos padrões de consumo serão inferiores àqueles que temos praticado até agora. Haverá menos emprego nos sectores da agricultura, indústria e serviços. E será insustentável que se mantenham e agravem as fortíssimas desigualdades sociais que se criaram desde os anos 80.

É bom que ninguém se esqueça que o que começou por ser uma crise imobiliária, passou para uma crise financeira, tornou-se uma crise da economia real, está já a transformar-se numa enorme crise social e vai descambar inevitavelmente em crises políticas, cujos desfechos são completas incógnitas.

Por isso, não podemos cair nos vários erros que nos conduziram até aqui. Não podemos pedir às pessoas que se endividem para aumentar o consumo - foi precisamente o excesso de endividamento das pessoas, das famílias, das empresas, dos bancos, dos Estados que nos conduziu ao beco em que nos encontramos. Não podemos pedir aos bancos que emprestem dinheiro a tudo e a todos para manter as economias a funcionar - porque a probabilidade de grande parte desse dinheiro não ser recuperado é agora muito maior. Não podemos pedir às empresas que invistam para aumentar a produção - quando os mercados não conseguem absorver a produção existente. Não podemos pedir às autarquias que façam obras desnecessárias porque é preciso que o dinheiro chegue à economia - sob pena de agravarmos o seu desequilíbrio financeiro. Não podemos pedir aos Governos que deitem dinheiro para cima de todos os problemas - porque estamos a agravar os défices excessivos e os desequilíbrios comerciais fortíssimos e a passar uma factura pesadíssima para os nossos filhos.

O que precisamos é de algo que não se compra mas que tem um valor incalculável: bom senso. O bom senso que se espera dos que ganham mais é que reduzam os seus salários para evitar despedimentos. O bom senso que se espera dos gestores é que abdiquem de bónus que, na fase que atravessamos, são ofensivos. O bom senso que se espera dos banqueiros é que não apresentem lucros pornográficos nem tenham remunerações indecorosas. O bom senso que se espera dos trabalhadores é que não agravem o problema das empresas com reivindicações irrealistas.

É por tudo isto que é um bálsamo para a alma a decisão do Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de taxar a 90% os bónus dos administradores de empresas que recorreram a empréstimos do Estado. Se os próprios administradores não tiveram o bom senso de recusar esses bónus (o que diz muito da estupidez da natureza humana), que haja, da parte do poder político, decisões que moralizem a sociedade. Esperemos que o exemplo se espalhe e frutifique. Porque a alternativa é um mundo a caminho de convulsões sociais cada vez mais violentas.

Sonae contra o seu ADN

Belmiro de Azevedo construiu o maior e mais bem sucedido grupo empresarial não financeiro pós-1974 à sua imagem e semelhança. O engenheiro acredita no trabalho árduo, na competência, na dedicação, na exigência, na transparência. Na Sonae não há lugar nem para medíocres nem para acomodados - só para o homem Sonae. Belmiro é também de uma enorme frontalidade (abrasiva, dirão os que já lhe sentiram os efeitos) e de uma feroz independência.

Por isso, ao longo do seu consulado, Belmiro disse que Marques Mendes nem servia para porteiro da sua empresa, pegou-se com Marcelo Rebelo de Sousa, desancou Santana Lopes, garantiu que nunca mais falava com Carlos Tavares, criticou sucessivos governos sem calculismos nem receios de represálias. A ideia que existe é que pagou caro essa liberdade, com a Sonae a perder negócios em que o Estado era parte interessada. Pelo menos no caso da Portucel isso foi evidente, quando o então ministro das Finanças, Sousa Franco, proibiu a Sonae de conquistar uma posição que lhe permitisse vir a mandar na papeleira. E na OPA sobre a PT, a Sonae deixou subentendido que perdeu porque o Governo não quis a operação.

Belmiro também perdeu uma oportunidade de ouro para criar um grupo de distribuição de dimensão internacional quando esteve em cima da mesa a fusão entre a Sonae e o Grupo Jerónimo Martins. E não se livra da fama de tratar mal os accionistas minoritários.

Ora é este ADN que Paulo de Azevedo, filho e sucessor de Belmiro, presidente executivo do grupo desde há dois anos, pretende agora mudar, pelo menos a crer no seu discurso. Garante que a Sonae faz parcerias, consegue partilhar negócios e pode mesmo deter posições minoritárias. Além disso, não é oposição ao poder, tendo até permanente "disponibilidade para colaborar com as autoridades centrais e locais".

Pode ser. Mas que é contra o ADN da Sonae, disso não há dúvida. E pode significar duas coisas: ou que o grupo está mais fraco e por isso aceita o que nunca aceitou; ou que Paulo ganhou a carta de alforria e vai exercer o poder como pensa que é melhor para a Sonae.

Emprego: o bom exemplo

Se os maus exemplos são seguidos, porque não hão-de ser seguidos os bons? Vem isto a propósito do que pode ser uma mera coincidência. Mas se é, é uma excelente coincidência. Acontece que em 20 de Janeiro a Sonae Indústria anunciou o despedimento de 42 trabalhadores de um total de 130 de duas fábricas em Portugal. Em 16 de Fevereiro, foi a vez da Corticeira Amorim revelar que iria fazer um despedimento colectivo.

Contudo, em 18 de Fevereiro, a PT anunciou que iria contratar 400 recém-licenciados em 2009. Nesse dia, Belmiro de Azevedo afirmou que não haveria despedimentos na Sonae. Em 4 de Março, foi a vez de a Zon referir que iria contratar mais 70 pessoas. No dia seguinte, a EDP anunciou a criação de 500 novos postos de trabalho. E em 9 de Março, a Sonaecom garante que não haverá despedimentos e que pode mesmo aumentar o número de colaboradores em 2009. Quem disse que os bons exemplos não são seguidos?

Angola: o mau exemplo

Uma semana após a sua visita a Portugal, cujos resultados considerou espectaculares, José Eduardo dos Santos, através de alguém do seu Governo, voltou a recusar o visto de entrada no seu país a uma das mais brilhantes jornalistas portuguesas, Cândida Pinto, que iria cobrir a visita do Papa a Angola para a SIC, Expresso e "Visão". O mesmo tinha acontecido em Setembro aquando das eleições presidenciais, abrangendo também "Público" e Rádio Renascença.

Ora é tempo de dizer basta! É tempo de dizer que a maneira como os angolanos são recebidos em Portugal exige reciprocidade. E é um sério aviso a todos os que se curvam acriticamente ao dinheiro angolano. Estes actos mostram que Angola está longe de ser uma verdadeira democracia. E sem democracia, todas as arbitrariedades são possíveis.

Nicolau Santos

Relacionados
24 março 2009

Arranja-me um emprego

1
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
O articulista esta semana foi às compras
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 9:35 | Segunda feira, 23 de março de 2009
Vemos que o articulista esta semana foi às compras. Comprou a gravata do samaritano (terá sido por sugestão do director?), comprou a T-shirt do Homem-Sonae e, por fim, um brinde para uma colega jornalista.
Sobre as suas opções (algumas em tom profético) faremos os seguintes remoques:

- O samaritano não existe mais. Na lógica da velocidade do jogo económico/financeiro ao dispor do homem hodierno as morais e religiões do passado estão há muito fora de prazo. Surge assim a sua exposição como um rol de atavismos irrisórios pouco adequados à nossa modernidade;

- O Homem-Sonae estaria há muito tempo votado à ilegalidade em países como por exemplo os EUA ou a Suécia pelo seu astucioso desprezo pela transparência das normas dos sistemas de concorrência e pelas pessoas dos trabalhadores encarados como seres humanos. Pensamos que o articulista desconhece (ou pretende desconhecer…) as formas efectivas de actuação da Sonae nos seus múltiplos interesses tentaculares…;

- No caso da tímida referência à liberdade de informação em Angola, basta-nos ler os textos do articulista sobre esse país em diversas circunstâncias para ficarmos a saber que a sua louvável indignação apresenta menos um cariz estritamente político do que simplesmente pessoal.
 
 Regras da comunidade
Crie-se um imposto sobre os bónus
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 14:33 | Segunda feira, 23 de março de 2009
Nicolau Santos não entende conceitos básicos de economia e diz asneiras umas atrás das outras. Vejamos algumas:

1. Mundo da abundância – talvez em casa de NS se viva em grande abundância desde a II guerra, mas a generalidades dos portuguesas não viveu nem vive em abundância. Na década de 60 tiveram de emigrar em massa. Nos últimos anos também. A sopa dos pobres está activa e o banco alimentar contra a fome abastece centenas de milhares de pessoas.

2. Vamos empobrecer. Em Portugal as políticas seguidas têm tido esse resultado. Mas no mundo não será esse certamente o futuro. O facto é que as fabricas e os trabalhadores que produziam a riqueza existente antes da crise continuam a existir. O que não existe é consumo. Como o estimular? Aumentando o poder de compra das pessoas. É o que tem de ser feito e de resto está a sê-lo noutros países (EUA, Alemanha, França, etc.).

3. Reivindicações irrealistas. Numa altura em que muitos não podem consumir o básico (recordemos que estamos numa crise de falta de consumo) é imprescindível reivindicar uma melhor distribuição da riqueza. Isso não é irrealista, é antes indispensável para sairmos da crise.

Concordo que um imposto elevado sobre os bónus dos gestores de empresas é exemplo a seguir em Portugal.

Fica a sugestão, crie-se um imposto de 80%, menos do que os 90% dos EUA, sobre os bónus pagos em 2009 a detentores de cargos nos órgãos sociais de sociedades anónimas (administradores e outros). Espero que NS subscreva.
 
 Regras da comunidade
Basta fazer contas de merceeiro
omeumilhao.blogspot (seguir utilizador), 1 ponto , 14:42 | Segunda feira, 23 de março de 2009
E eis que ao fim de 20 anos a lê-lo por masoquismo você conseguiu me surpreender e escrever uma crónica que pensa mais do que a simples espuma dos dias. Vê afinal não é assim tão difícil. Basta fazer contas de merceeiro. Se um executivo só tem 24 h por dia como é que pode ganhar tantas vezes mais do que o cliente que está por baixo da pirâmide?!? Isso é sustentável? Como com ganhos de produtividade?!? Alguém alguma vez reparou que os trabalhadores das empresas, costumam ser as mesmas pessoas que são consumidoras das empresas… Ou os trabalhadores são de Marte e os Consumidores de Vénus?
Há várias medidas que têm de ser tomadas e não confie no bom sendo pois o Sr Greenspan confiou e deu-se mal. Tem que haver lei mas principalmente têm de haver um sistema que aplique as leis. Pois Nós por exemplo leis temos mas que eu saiba não são aplicadas…
Algumas leis:
Os executivos só poderiam ganhar 30X o salário mínimo da sua organização. Sejam empresas privadas, sejam publicas, e quem se pagar com mais do que isso deve ser taxado com uma taxa simbólica de 90%.
Os estados têm de ser muito mais sociais para garantir os mesmos direitos aos que não conseguirem lugar nas sociedades futuras. Ex: a saúde e a educação têm de ser garantidas pelos estados e com qualidade.
Muito mais havia para dizer mas infelizmente não tenho tempo.
 
 Regras da comunidade
    Na minha opinião    Ver comentário
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 15:08 | Segunda feira, 23 de março de 2009
Achas? Pensa lá bem!
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 22:10 | Segunda feira, 23 de março de 2009
Na parte do “mundo que aí vem” o primeiro grande erro de raciocínio é apenas o não recordar o mundo no final dos anos 70.
O que hoje se põem em cima da mesa já se pôs nos EUA em 78 que teve resolução com a revolução informática dos anos 80 em diante, a meu ver a solução será uma revolução energética. No momento em que pusermos os automóveis que temos na porta de casa a andar outra coisa que não petróleo vamos ter uma revolução energética e um novo boom económico e a única pergunta não “se” mas “quando”. E depois isto será mais uma crise vista como a maior crise desde a grande depressão e é só!

Sonae contra o seu DNA é um novo erro! A Sonae é uma super mercearia e os merceeiros são apenas intermediários que tiram onde podem, na mercearia da esquina é do descuido de quem se esqueceu de algo na super mercearia, na super mercearia o único elo fraco é o “recurso humano” quer seja accionista minoritário quer seja empregado. O pensares na mudança de DNA é um erro porque um leopardo não muda as manchas o que faz é fugir para algum lado quando o Leão (neste caso o leão é o governo com quem eles bem tem tentado brincar desde OPA da PT) se chateia e o único sito para onde fugir de momento é a falsa partilha ou falsa concertação de que antes nunca foram capazes!
 
 Regras da comunidade
Achas? Pensa lá bem! Parte dois
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 22:14 | Segunda feira, 23 de março de 2009
Se soubesses como se trabalha na Sonae não chamavas a isso “bom exemplo”, mas sim “exemplo possível “. Eu estive mês e meio na NOVIS e quando vi o que eles queriam e o que davam em troca, a começar pelo part-time das 10 ás12 e das 14 às 16 com reuniões que quando eles se lembravam eram às 8 da manhã para vender um produto que apenas era competitivo se o cliente estivesse distraído (eles tinham um produto a 67€ mês que a cabo visão comercializava por 47€ e ainda acrescentava 45 canais de televisão) claro que pus todo o meu empenhamento a treinar no ginásio e a ver quanto tempo é eles demoravam a dar por isso; como se veio a demonstrar demoraram um mês e meio!

Quanto ao “mau exemplo” … só deste pela falta de democracia em Angola quando recusaram o visto da Cândida?
És mesmo um caso de umbigo pródigo e é por estas e outras que eu acho que a lei do pluralismo da comunicação social é o único meio de evitar a sua “Berlusconização”
   
 
 Regras da comunidade
    Intimidade ou má educação?    Ver comentário
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 0:38 | Terça feira, 24 de março de 2009
    Re: Intimidade ou má educação?    Ver comentário
lord byron (seguir utilizador), 1 ponto , 1:08 | Terça feira, 24 de março de 2009
    Eu não dizia? Agora é a minha vez.    Ver comentário
Professor.com.muita. (seguir utilizador), 1 ponto , 15:31 | Terça feira, 24 de março de 2009
SONAE GRUPO DE SUCESSO!
sintomebem (seguir utilizador), 1 ponto , 13:59 | Terça feira, 24 de março de 2009
A quantidade de ordenados mínimos que a SONAE paga com os lucros que tem expressa exactamente a política que tem de ser mudada para que tudo não continue exactamente na mesma.
 
 Regras da comunidade
Lei mosaica
BLRiopaiva (seguir utilizador), 1 ponto , 0:51 | Segunda feira, 30 de março de 2009

  .
Jesus Cristo. Presidente do partido cristianismo legal, Maomé; presidente do partido maometismo legal e Adão, fundador da primeira democracia que deu inicio ás encrencas, que travam a ação social; eles não queriam a divisão da renda . Adão não gostou do cargo de primeiro ministro de Deus. Achou que a lei fundamental que recebeu como ordem do Grande Chefe era simples demais por não lhe dar status de realeza, visto que constava de direitos e deveres; Adão só queria direitos Amar o Presidente e considerá-lo superior a tudo, não seria demais e, talvez tenha achado uma boa medida para que seus descendentes não pensassem que os chefes de governo estavam sozinhos, mas respeitá-los como a si mesmo, não achou legal e começou a legislar conforme lhe convinha.
  Assim foi até Moisés e continuou sem alterações porque Moisés não entendeu ou não gostou da lei do dízimo. Então quebrou a primeira tábua que continha a lei e subiu novamente a montanha para fazer alterações. Dei um mergulho na eternidade e verifiquei que Deus escreveu na tábua o seguinte: Se ganhares, com teu trabalho ,mais do que precisas, podes tirar 10% do excedente como comissão do teu esforço, mas os restantes 90% coloca-os no seguro social para que nada falte aos incapacitados e idosos, doentes, desempregados nem a ti . O erro continua e ninguém quer correr o risco de consultar o povo que pode exigir a correção do erro (lei do dízimo.)

 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Já não é carga fiscal, mas um roubo aos cidadãos
0:00 Sábado, 19 de maio de 2012,
Isto não está a resultar, dr. Gaspar
0:00 Sábado, 12 de maio de 2012,
Se não é compromisso, serve para quê?
0:00 Sábado, 5 de maio de 2012,
Portugal, a dívida e o que temos de fazer
0:00 Sábado, 28 de abril de 2012,
Nas mãos de 18.000 empresas
0:00 Sábado, 21 de abril de 2012,
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB