Desde que identificados, os advogados não têm de passar pelo detector de metais. É o que está escrito num aviso, à entrada do tribunal de Cascais. "Estou tramado." É a primeira expressão que me passa pela cabeça. Só tenho uma toga preta debaixo do braço, uma mala de couro e algum paleio de improvisação memorizado, caso a experiência dê para o torto. Estive tentado a voltar para trás. Respiro fundo e avanço. Assim que o segurança vê a farda manda-me passar. Surpresa das surpresas, não tenho de mostrar qualquer documento. Ainda atrapalhado com tanta rapidez, acabo por passar à mesma debaixo da máquina, que se farta de apitar. Ruborizo mas nem assim sou incomodado. "Passe, não faz mal", diz-me o funcionário, antes de seguir em paz até às salas de audiência. Percebo que da teoria à prática a distância é respeitável naquele tribunal.
Na manhã seguinte, faço uma variante à experiência. Decido meter a toga dentro da mala de couro para perceber se as regras de segurança seriam, ou não, mais apertadas sobre o anónimo cidadão. "Ponha o telemóvel e as chaves neste cesto, indicou-me o mesmo segurança do dia anterior, antes de fazer menção para eu passar pela máquina. Pede-me também para abrir a mala. É então que decido improvisar: 'Aí dentro trago a minha toga'." A reacção não podia ser mais amistosa: "Ah! É advogado! Não precisa de ir pelo detector de metais." Nem sequer tenho de abrir o fecho da mala.
Na sala de audiências
 |
| Ao fim de pouco tempo já tratavam o funcionário judicial pelo primeiro nome |
|
A manhã não é das mais animadas. O primeiro andar está deserto. Só no rés-do-chão, na vara criminal, é que se pode falar em algo parecido com agitação. Uns poucos advogados fazem conversa de circunstância com os clientes enquanto aguardam pela chamada do oficial de justiça. Ao ver a minha toga enrolada, Manuel aproveita para se queixar da justiça: i.e., o atraso do seu julgamento e a balda da advogada: "Disse-me que o carro avariou." O seu caso não será muito diferente do de milhares que ocupam a maioria do tempo de juízes, advogados e procuradores do Ministério Público deste país. Manuel e o sobrinho são acusados pelo falecido irmão, vítima de uma doença prolongada, de o terem agredido. O ex-emigrante nega tudo e diz que o irmão foi manipulado por um casal que quis ficar com os seus cheques do Rendimento Social de Inserção. E que terá assistido à discussão. A história tem os condimentos de uma novela mexicana e, na sala de audiências, a juíza tapa o rosto para esconder um sorriso quando Manuel define o falecido irmão como "fraquinho da cabeça".
Os episódios a raiar o non-sense sucedem-se. A advogada do sobrinho de Manuel pede à juíza para ouvir três testemunhas abonatórias. Mas elas tinham assistido aos depoimentos desde o início. "A doutora não sabe que só poderia chamá-las se elas tivessem ficado lá fora? Se fossem depor, iriam dizer o mesmo que o Manuel e o Carlos", ironiza a juíza. Atrapalhada, a advogada desculpa-se que estava de costas e não se apercebera da presença das pessoas na sala.
Antes de terminar, a juíza anuncia que terá de haver uma próxima sessão no final do mês, porque o tribunal "se esqueceu" de convocar as duas testemunhas da acusação. A declaração causa alvoroço entre os dois homens, que protestam contra aquele "erro" do tribunal. "Já lhes pedi desculpas. Os senhores nunca cometem erros no trabalho? Exijo mais respeito pois estão num tribunal", diz a juíza sem esconder a irritação.
O julgamento acaba num clima de tensão que se estende para fora da sala. Os dois homens estão inconsoláveis. Quando se vão embora, dirijo-me ao oficial de justiça que me confunde com um estudante de Direito (a toga estava dentro da pasta). "Apercebeu-se da gaffe da advogada? Se ela tivesse pedido à juíza para ouvir as testemunhas na próxima sessão tudo teria corrido bem. Provavelmente a juíza não saberia que elas já teriam assistido ao julgamento". Quanto ao "esquecimento" do tribunal em avisar as outras testemunhas, ele não se escuda em argumentos rebuscados: "Falta gente por aqui. Só há dois juízes e dois procuradores".
O à-vontade com que falam comigo nos serviços administrativos destoa do dia para a noite com a rigidez de muitos funcionários durante outras reportagens, feitas sem camuflagem e com o cartão de jornalista à vista. No final da manhã, já tratava o simpático funcionário judicial pelo primeiro nome. Imagino que mais uns dias passados em Cascais e estaríamos a combinar uma bica no restaurante da esquina.
Na pele de um médico
 |
| A maioria dos estudantes de medicina não usa qualquer cartão de identificação nem batas |
|
À tarde, troco a toga preta pela bata branca. Mas os primeiros minutos nos corredores do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, são de pânico. A farda, vestida à pressa na casa de banho, não me deu um acesso de superconfiança. Fico com a impressão que todos os médicos com quem me cruzo olham fixamente para a minha lapela. E não trago cartão de identificação. Uma enfermeira faz uma expressão estranha depois de eu meter o estetoscópio ao pescoço. Terei colocado o instrumento ao contrário? Se me auscultassem o coração, qualquer especialista me prescreveria uns comprimidos para a tensão. Coloco as mãos transpiradas nos bolsos das calças e tento avançar com um passo mais decidido entre os pacientes do piso 2. Não por muito tempo.
"O doutor sabe dizer-me onde é a medicina II?" Estremeço com a pergunta, aparentemente naif, de um simpático idoso. Gaguejo qualquer coisa como: "Sou novo aqui... ainda não conheço os cantos à casa... deve ser ali ao fundo." Tinha decorado uma resposta-tipo para estas situações e espalhara-me ao comprido ao primeiro teste. Acompanho-o até ao final do corredor, mas depressa percebo que as minhas informações estão erradas. Peço-lhe desculpa e precipito-me até ao primeiro lance de escadas.
A experiência não estava a começar bem. Decido ir beber um café para aclarar as ideias. Na fila da cafetaria, um jovem casal faz menção para eu lhes passar à frente. "Deve estar com mais pressa do que nós." Digo que não ao simpático gesto e começo a aperceber-me do poder que a bata branca - comprada por 11 euros no Rei das Fardas - exerce sobre os pacientes. No elevador, duas mulheres debitam a ladainha dos atrasos. "Estou cá desde as oito. Tenho de ir para Benfica e ainda falta tanto para ser chamada. Estes médicos..." Com uma cotovelada brusca, a amiga chama a atenção para a minha presença. Esboçam um sorriso reverente e emudecem durante o resto da curta viagem.
Ao contrário dos médicos e enfermeiras, a maioria dos estudantes de medicina não traz qualquer cartão de identificação nem usa batas com o logótipo do hospital. Posso camuflar-me entre eles. Até porque tinha feito a barba. A confiança sobe uns pontos. É a altura de tentar a sorte e entrar em áreas reservadas. Era este, afinal, o principal objectivo desta experiência jornalística.
Depois de umas voltas de reconhecimento, abro a porta de um dos mais concorridos serviços do hospital onde é impossível não ler a frase 'proibida a entrada a pessoas estranhas'. Lá dentro, os médicos estão atarefados e nem olham duas vezes para mim, um estranho no serviço. Entro num dos quartos onde os pacientes, a maioria de idade avançada, estão internados. Dormitam, indiferentes à azáfama. Não me demoro, não vá alguém reparar num 'médico' sem credenciais e com um estetoscópio (descobri mais tarde) que não é o da marca mais usada pela classe. Um conselho politicamente incorrecto: se alguém quiser visitar um familiar internado e o horário de visitas for restrito, experimente usar uma bata branca.
A segurança é bem mais apertada noutros serviços mais recentes e modernos, onde os médicos só entram depois de digitarem um código secreto. Mantive-me afastado deles.
Durante as cinco horas no Santa Maria só estive perto de ser desmascarado quando, ao tentar repetir a façanha anterior, fui abordado por uma enfermeira. "O que procura?", pergunta-me, em modo de piloto automático, quando me preparava para entrar no acesso restrito de um outro concorrido serviço. Podia ter dado qualquer desculpa mas só me ocorreu fingir que não a tinha ouvido. Infantilmente, viro costas e, em passo apressado, misturo-me de novo entre as centenas de pessoas. Deixei o tempo correr. Dois. Cinco. Dez minutos. Não tenho seguranças à perna. Tomo a decisão mais sensata da manhã. Saio pela porta das consultas externas, desabotoo a bata, arrumo o estetoscópio no bolso e vou à minha vida.
(Texto publicado na Revista Única do Expresso de 16 de Janeiro de 2010)