I. Neste PS, tudo é instrumental. Não se pode acreditar em nada daquilo que sai da boca de Sócrates, Sócrates II (Silva Pereira), Augusto Santos Silva & cia., porque as suas declarações têm apenas um sentido táctico, no sentido de ganharem uns pontinhos na conjuntura. Um exemplo: durante a campanha eleitoral, Manuela Ferreira Leite afirmou que o TGV servia os interesses espanhóis. Em resposta, Sócrates criticou o impulso anti-Espanha da líder do PSD: "a questão é saber se no debate político podemos invocar o sentimento serôdio anti-espanhol" (ver último Expresso, p. 17). Agora, numa reviravolta engraçada, o sentimento serôdio anti-Espanha passou a ser o alfa e o ómega de Sócrates e do PS. Agora, para tentar fugir à queda nas sondagens, o nacionalismo serôdio já parece uma coisa aceitável lá para os lados do Rato.
II. "A digressão espanhola do líder do PSD foi uma vergonha"; "Num momento em que o governo está a defender os interesses de Portugal, o líder do PSD foi a Espanha dar razão à Telefónica e fazer campanha contra o uso da golden share. Isto é inqualificável e ultrapassa todos os limites". Estas declarações de Silva Pereira são absolutamente ridículas. Silva Pereira é que está a ultrapassar os limites, os limites da decência política dentro do quadro das relações entre parceiros europeus. Estamos em 2010, estamos dentro da UE, mas o PS está a acusar o PSD de traição nacional, como se estivéssemos em 1950 ou 1900. Este nacionalismo está completamente deslocado no tempo, e viola a ética que deve presidir a uma relação entre dois países da UE. Ainda por cima, Passos Coelho tem razão sobre a golden share: este instrumento deve ser anulado. Por duas razões: é um elemento que causa promiscuidade entre política e negócios
(ou toda a gente já se esqueceu da trapalhada TVI/PT?), e é ilegal no quadro jurídico europeu.
III. Em queda livre nas sondagens, o PS viu nesta - fictícia - Aljubarrota económica a sua tábua de salvação. José Sócrates acaba, assim, por protagonizar uma reviravolta patética: o menino do Tratado de Lisboa enveredou pela via do populismo nacionalista mais básico.