11/02/2012 atualizado às 23:42
Página Inicial » Atualidade » O médico que pôs fim a 23 anos de 'coma'

O médico que pôs fim a 23 anos de 'coma'

Rom Houben, 46 anos, vivia preso no próprio corpo. Técnicas inovadoras libertaram-no.

Daniel do Rosário, correspondente em Bruxelas (www.expresso.pt)
21:00 Segunda feira, 30 de novembro de 2009
Pioneiro. O centro dirigido pelo neurologista belga Steven Laureys, 40 anos, é uma referência mundial no estudo do coma. Doentes de toda a Europa são ali examinados à procura do diagnóstico o mais exacto possível. Os exames demoram uma semana e incluem técnicas inacessíveis aos hospitais comuns. Actualmente, há uma lista de espera de quatro meses
Pioneiro. O centro dirigido pelo neurologista belga Steven Laureys, 40 anos, é uma referência mundial no estudo do coma. Doentes de toda a Europa são ali examinados à procura do diagnóstico o mais exacto possível. Os exames demoram uma semana e incluem técnicas inacessíveis aos hospitais comuns. Actualmente, há uma lista de espera de quatro meses
Ezequiel Scagnetti

Frustração" foi a palavra com que Rom Houben, agora com 46 anos, descreveu o 'cativeiro' de mais de duas décadas no interior do seu próprio corpo, incapaz de comunicar com o exterior, onde os médicos declararam que a sua consciência tinha-se extinguido.

Depois de semanas em coma, na sequência de um acidente de viação - em 1983, que provocou a morte das duas pessoas que o acompanhavam - o então estudante de engenharia, com 20 anos, foi incluído na lista dos doentes em estado vegetativo, ou seja, sem consciência, insensível à dor, incapaz de comunicar. Agora, Houben é capaz de partilhar aquilo por que passou e também os seus planos para o futuro. Faz um relato sufocante do período em que viveu com o rótulo de 'vegetal' e garante que esteve sempre consciente, mas os médicos que o ajudaram afirmam ser "impossível" de confirmar cientificamente.

Neste caso, como em outros semelhantes, a família nunca se conformou com o diagnóstico inicial, embora exames posteriores na Bélgica e nos Estados Unidos tenham confirmado a avaliação inicial. Indiferente a tudo isso, Fina, a mãe, manteve-o em casa até 1997, altura em que o internou num centro de reabilitação, onde continuou a seguir várias terapias e regressando a casa com regularidade. Durante esse tempo, tudo fez para que a família nunca deixasse de ser um elemento importante na vida do filho, com Rom a marcar presença no casamento da irmã e nas férias na praia, no Sul de França.

Até que, no Outono de 2006, tudo muda radicalmente e pela razão mais improvável. Fina Houben entra em litígio com a companhia de seguros que estabelece as condições contratuais em função do diagnóstico médico existente e que recusa reconhecer a apresentação de sinais de consciência no doente. A mãe de Rom decide avançar para tribunal e, para defender a sua posição, recorre ao Coma Science Group, o grupo de investigação da Universidade de Liège criado e dirigido pelo neurologista belga Steven Laureys, considerado uma referência mundial na matéria.

Movimento de uma perna alertou médicos


"Assim que ele cá chegou percebemos que não estava em estado vegetativo", recorda Laureys ao Expresso no seu exíguo gabinete, com um amontoado de papéis e livros a forrarem a secretária. Marie-Aurélie Bruno, uma neuropsicóloga do Coma Science Group, conta que se aperceberam de um movimento de uma perna "que não era meramente reflexo, que denotava intencionalidade".

Em vez das habituais técnicas de diagnóstico, Laureys, 40 anos, promove o uso da Coma Recovery Scale-Revised (CRS-R), desenvolvida nos EUA e optimizada em 2004. A escala foi utilizada num estudo publicado em Julho deste ano com 103 doentes e que concluiu que 41% dos diagnósticos de estado vegetativo são errados: os pacientes em causa estão, afinal, em estado de consciência mínima - conceito desenvolvido pelo Coma Science Group em 2002. A distinção (ver caixa) tem implicações profundas no prognóstico e nas decisões terapêuticas.

O melhor que o dinheiro pode comprar


Resistência. Rom Houben, agora com 46 anos, entrou em coma em 1983 na sequência de um acidente de carro, que matou os outros dois ocupantes. Um litígio com a companhia de seguros levou a mãe a pedir ajuda aos médicos de Liège e, assim, à descoberta do estado de consciência de Houben. O resistente descreve os 23 anos de ‘cativeiro’ como “frustração”
Resistência. Rom Houben, agora com 46 anos, entrou em coma em 1983 na sequência de um acidente de carro, que matou os outros dois ocupantes. Um litígio com a companhia de seguros levou a mãe a pedir ajuda aos médicos de Liège e, assim, à descoberta do estado de consciência de Houben. O resistente descreve os 23 anos de ‘cativeiro’ como “frustração”
Ezequiel Scagnetti

A aplicação da CRS-R provou que Rom fazia parte dos referidos 41%. A seguir, foi a vez de recorrer à tecnologia que equipa o centro e que, segundo o próprio Laureys, é "o melhor que o dinheiro pode comprar". Inclui aparelhos de ressonância magnética funcional, estimulação profunda do cérebro e tomografia por emissão de positrões (PET), entre outros. Foi o PET que permitiu diagnosticar ao doente a síndroma locked-in, ou seja, um cérebro a funcionar, mas encarcerado num corpo em que apenas algumas partes obedecem e com dificuldade. Rom "estava lá dentro" e começou por ser capaz de responder "sim/não" com um movimento do pé.

No centro de reabilitação em Zolden, a 80 quilómetros de Bruxelas, Rom continuou sujeito a uma intensa terapia sensorial, ao mesmo tempo que se desenvolviam e aperfeiçoavam tecnologias que agora lhe permitem comunicar com o exterior através de um ecrã táctil e de uma terapeuta. É aí que Marie-Aurélie Bruno o tem visitado regularmente ao longo dos últimos três anos e onde Houben partilhou com ela "a cólera" que sentiu quando foi erradamente diagnosticado depois de ter saído do coma e como "queria chorar, mas não conseguia" após a mãe e a irmã o terem informado da morte do pai.

Se dúvidas houvesse sobre o novo diagnóstico, foi o próprio Rom a dissipá-las em algumas das primeiras mensagens que fez chegar a Laureys: "Não me trate como se eu fosse idiota", recorda o médico, divertido, que viu ainda algumas perguntas que fez - "para ter a certeza de que ele estava verdadeiramente a comunicar" - serem classificadas pelo doente como "estúpidas". Sem ressentimentos. Laureys considera esta reacção "típica" de quem sofre da síndroma locked-in, pessoas com um cérebro perfeitamente capaz, mas que, devido à sua incapacidade de comunicar normalmente e a um elevado grau de dependência dos outros, "têm tendência para infantilizar.

Outra prova de que as capacidades mentais e aptidões adquiridas por Rom antes do acidente permaneceram intactas é a forma como comunica actualmente. Às perguntas que lhe são feitas em francês responde em holandês, a única língua em que se exprime a terapeuta que o acompanha e ajuda a digitar as mensagens. E a possibilidade de a referida terapeuta poder condicionar as respostas de Rom, ou até responder por ele, foi igualmente testada. Em determinada ocasião, com a terapeuta ausente, a equipa de Liège mostrou um conjunto de objectos ao doente. Depois, já com a ajuda desta, pediram-lhe que identificasse os objectos que lhe tinham sido apresentados. As respostas bateram todas certo.

Não criar falsas esperanças


O centro dirigido por Steven Laureys recebe doentes com lesões cerebrais de toda a Europa em busca de um diagnóstico o mais exacto possível (obtido ao fim de uma semana de testes intensos), que possa dar orientações terapêuticas eficazes. Neste momento, a espera é de quatro meses. Consciente das falsas esperanças que podem ser criadas pela atenção mediática gerada, o clínico belga faz questão de sublinhar que, embora dê "um rosto e uma história" a uma situação que "não é excepcional" - que é a existência de erros de diagnóstico - , a situação de Rom Houben "é excepcional", pois "a maior parte" dos doentes erradamente diagnosticados em estado vegetativo estão, na realidade, minimamente conscientes, ou seja, "não estarão plenamente conscientes".

Quanto à disputa em tribunal entre a seguradora e a família de Rom Houben, o caso promete dar que falar: "Infelizmente essa batalha ainda não terminou, pois às seguradoras sai mais barato manter o rótulo de estado vegetativo", diz Steven Laureys.


Anestesista sobrevive a falso coma por mexer os dedos

O professor J.S. Robinson dirigia o Serviço de Anestesiologia e Cuidados Intensivos de um hospital inglês quando um acidente de carro o deixou em coma, ainda nos anos 80. Hospitalizado na unidade de que era responsável e tratado pela sua equipa médica, Robinson foi ligado a um ventilador e medicado com relaxantes musculares (para bloquear a dor) sem ninguém notar que estava consciente.

O anestesista ouvia tudo à sua volta, mas os relaxantes prendiam-no ao seu corpo inerte. O erro manteve-se até ao dia em que Robinson ouviu os médicos afirmarem que o tratamento seria interrompido por falta de melhoras significativas. Em pânico, o professor mexeu os dedos, alertando os clínicos.

A medicação foi alterada e sobreviveu. O médico viajou pelo mundo para contar a história - até esteve em Portugal, em 1995 no Hospital de Santa Maria - e usou a lição para fazer mudanças na sua unidade. Pediu para ser instalado um relógio, destapou as janelas e despediu uma auxiliar. A funcionária transportava tabuleiros com remédios e, como tinha as mãos ocupadas, abria a porta com um pontapé.

Mas, o chefe descobriu.


Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009

Relacionados
30 novembro 2009

Médicos portugueses falam em caso único e ...

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
Bravo, Dr.!
Miranda07 (seguir utilizador), 3 pontos (Interessante), 21:20 | Segunda feira, 30 de novembro de 2009
A neurologia é uma das especialidades médicas mais fascinantes. Também difíceis, certamente. Este é um caso de sucesso; uma história comovedora que nos alerta seja para o poder seja também para os limites da medicina, mesmo da mais avançada. Evidentemente, este caso na Bélgica não é o único. Daí a importância deste tipo de notícias: tornar-nos a todos mais sensíveis para a delicadeza dos chamados estados de coma quando se trata de tomar decisões de natureza irreversível. E a lição a aprender, uma delas pelo menos, devia ser: nunca assumir que os médicos sabem tudo; nunca desistir do que os médicos com critério possam fazer; pensar sempre que, para além do túnel em que se possa estar, uma saída existirá sempre. E, de facto, existe. Mas há que passar por ela, acima de tudo, com o máximo respeito pela dignidade que nos foi dada.
 
 Regras da comunidade
Não à paga
caprylm56 (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 21:21 | Segunda feira, 30 de novembro de 2009
Que pague os serviços destes homens, que servem em prol da humanidade.
 
 Regras da comunidade
Milagres de São Mirangrunho
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 22:54 | Segunda feira, 30 de novembro de 2009

Milagre! Milagre! Milagre! Milagre! Milagre! Milagre!

Desta vez não foi um anjo da guarda! Milagre!

Também não foi um santo! Milagre!

Estará São Mirangrunho a perder a fé nos santinhos e nos anjinhos da guarda?

Milagre! Desta vez não foi capaz de informar a comunidade que um anjo da guarda, situado à esquerda do médico, e um santinho, colocado à direita do médico, deram um empurrãozinho para que este salvasse o paciente.

Milagre! Desta vez não foi obra de Deus!

Só faltou o maior de todos os milagres: se São Mirangrunho tivesse perdido um pouco do seu tempo para nos explicar por onde andaram os anjinhos da guarda e os santinhos durante 725.328.000 segundos da vida deste homem.

Sim, faltou o verdadeiro milagre: faltou a explicação de São Mirangrunho quanto à total ausência, durante setecentos e vinte e cinco milhões e trezentos e vinte e oito mil segundos da vida deste pobre coitado, dos anjinhos da guarda e dos santinhos que fazem milagres.

Dizem que Deus pode tudo (que é omnipotente)!

Dizem que sabe tudo (que é omnisciente)!

E, como se não chegasse, também dizem que está em todos os lugares do Universo (que é omnipresente)!

Mas, um Deus que está em todos os sítios, que sabe tudo e que pode tudo e que deixa um desgraçado a sofrer durante 23 longos anos (ou antes, mais de 725 milhões de segundos), o que é que é senão um bastardo, um sádico e uma besta?
 
 Regras da comunidade
    Re: Milagres de São Mirangrunho    Ver comentário
golf (seguir utilizador), 2 pontos , 1:50 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
    Re: Milagres de São Mirangrunho    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 15:40 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
    Re: Milagres de São Mirangrunho    Ver comentário
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 10:59 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
    Re: Milagres de São Mirangrunho    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 15:31 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
    Faça a sua pergunta ao João Cesar das Neves    Ver comentário
Péricles Pinto (seguir utilizador), 1 ponto , 17:40 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
    Re: Milagres de São Mirangrunho    Ver comentário
teixeiranet (seguir utilizador), 1 ponto , 21:23 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
    Re: Milagres de São Mirangrunho    Ver comentário
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 22:58 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
Medicina e Teologia
Misukin (seguir utilizador), 1 ponto , 18:08 | Terça feira, 1 de dezembro de 2009
O ser humano é uma unidade biopsicosocial e espiritual. Nos processos saúde/ doença existe um lugar reconhecido à influência dos factores dito espirituais de cada um. Não obstante, importante conceber que esta esfera espiritual individual é distinta de pessoa para pessoa, do mesmo modo que somos todos seres singulares e irreptíveis.

A componente espiritual não se esgota na fé, englobando, igualmente, todo o sistema de valores e crenças pessoais. Estes últimos, por sua vez, vão beber à cultura que nos é mediada pela crítica da nossa família aquando da socialização primária e pela que desenvolvemos durante a socialização secundária. Milagre é, então, um termo que figura no nosso vocabulário com uma semântica sociocultural imbuída nas nossas tradições judaico-cristãs.

A medicina, pela personalidade dos seus profissionais, revela-se, por vezes, arrogante. Se admitirmos que não podemos conceber o desconhecido por não termos sobre ele representações mentais, assumiremos sempre a fragilidade do nosso campo perceptual. Transpondo este princípio categórico da epistemologia do conhecimento à realidade socioprofissional dos médicos, ressalta a necessidade da actualização permanentemente dos seus conhecimentos. A real necessidade desta competência, no domínio da formação permanente, não se resume a conhecimentos técnico-científicos mas sim à forma como estes se integram num conjunto de factores que se influenciam mutuamente e as suas inter-relações.

Cumprimentos
 
 Regras da comunidade
Humanidades
Anthos (seguir utilizador), 1 ponto , 18:33 | Quarta feira, 2 de dezembro de 2009
Em geral eu sou contrário ao encarniçamento terapêutico quando já não houver nada a fazer e quando um corpo humano viver num estado vegetativo.
Deixemos o lugar a Mãe Natureza.
Todos os comportamentos agressivos são só fina maldade.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Frio: 620 mortos na Europa
23:40 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
PCP inconformado com silêncio de Passos
22:55 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 1
Jardim convida Merkel a visitar a Madeira
22:40 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 9
Louçã diz que Terreiro do Paço é "momento de viragem"
19:44 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 3
CGTP exige aumento do salário mínimo
19:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 11
CGTP: 300 mil manifestaram-se em Lisboa contra pobreza
17:50 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 57
CGTP: milhares protestam contra a pobreza
17:04 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 4
CPLP não convida Parlamento para inauguração de sede
16:27 Sábado, 11 de fevereiro de 2012, 2
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP