VI. (continuando
). Ora, já existe o elemento que consagra o acordo constitucional entre o pólo mais forte (alemães) e os pólos mais fracos (nós, os outros europeus). Esse elemento constitucional chama-se Moeda Única e o respectivo PEC. As pessoas têm memória curta, e por isso já se esqueceram do seguinte encadeamento histórico: a reunificação da Alemanha (1990) causou uma onda de pânico na Europa; Thatcher e Mitterrand quiseram bloquear a reunificação alemã; a consumação da Moeda Única é filha desse medo provocado por uma Alemanha reunificada. Portanto, no meio do atual ruído técnico e económico, não podemos esquecer que o Euro é o resultado de um trade-off constitucional entre Berlim e a Europa: a Alemanha abdicou do Marco, e, em troca, o resto da UE aceitou cumprir um conjunto de regras germânicas (PEC). Este é o acordo político que rege a vida da UE. Neste sentido, as novas exigências alemães (ex.: limites constitucionais à dívida) devem ser entendidas como um aprofundamento da ordem constitucional já existente entre Berlim e as restantes capitais. Na relação entre Alemanha e Europa, estamos a assistir a uma mudança de grau e não de natureza. Um pormenor pormaior.
VII. Esta dimensão política da nova "questão alemã" é ainda reforçada por um dado que fica sempre esquecido: o emancipado eleitorado alemão. No passado, o eleitor alemão calava-se, e passava o cheque. Hoje, o eleitor alemão ainda passa o cheque, mas exige condições. E ainda bem. Em 2011, a Europa não podia continuar a ser construída em cima do fantasma de Hitler. A Europa de 2011 não podia ser edificada no desrespeito pela democracia da Alemanha. Quando impõe condições aos outros Estados, Merkel está a gerir - precisamente - a democracia alemã, isto é, está a gerir as percepções dos cidadãos germânicos, que começam a ficar irritados com o Euro e com a UE (um perigo). Ou seja, Merkel está a tentar construir um cenário que torne impossível o regresso da Alemanha ao Marco (um perigo mortal).
VIII. Em Portugal, muitos dizem que o nosso país estaria melhor fora do Euro. Pois, de facto, o acordo político em redor do Euro dizia respeito à Europa central, dizia respeito à Alemanha e aos suas vítimas clássicas, sobretudo França e Benelux. Sim, Portugal podia ter evitado a entrada no Euro. Mas agora é tarde. Depois, muitos pensam que a Europa - no seu todo - estaria melhor sem o Euro. Na resposta, voltamos a frisar um ponto: agora é tarde. Além disso, uma UE sem o Euro seria mais violenta para os países pequenos. O Euro institucionaliza o poder da Alemanha. Uma Alemanha com o Marco seria mais poderosa do que esta Alemanha do Euro. Sem o Euro, Berlim projectaria o seu poder de forma mais imprevisível. O Euro obriga a Alemanha a lutar com luvas no ringue da UE. Se Berlim tirasse as luvas, a coisa ficaria - literalmente - mais negra e caminharíamos para um futuro imprevisível e para o qual não teríamos bússola. Nós, europeus, precisamos desta ordem constitucional dentro da Europa.
VIII. E também necessitamos deste envelope institucional fora da Europa.
A Alemanha é demasiado grande para a Europa, mas é demasiado pequena para um mundo com a China, a Índia e os EUA. Portanto, a Alemanha devia saber que precisa dos restantes Estados europeus. E o resto da Europa devia saber que necessita da Alemanha para enfrentar
este mundo pós-europeu inaugurado em 1956.