23/05/2012 atualizado às 7:38
Página Inicial » Atualidade » Museu de Arte Popular já custou mais de €3 milhões

Museu de Arte Popular já custou mais de €3 milhões

É uma das bandeiras da ministra da Cultura. Vai abrir este ano mas ainda não tem programa definido. Já custou €3,3 milhões em obras de reabilitação e ninguém sabe dizer quanto será ainda preciso para o pôr a funcionar. O que é e para que serve o Museu de Arte Popular?

Alexandra Carita (www.expresso.pt)
17:33 Segunda feira, 25 de janeiro de 2010
Vários objectos do núcleo de cerâmica e vidros do Museu de Arte Popular
Vários objectos do núcleo de cerâmica e vidros do Museu de Arte Popular
José Ventura

São 13 mil objectos. Foram recentemente inventariados por uma equipa do Museu Nacional de Etnologia, em cujas reservas estão albergados desde há dois anos. Constituídos em núcleos que correspondem a uma multiplicidade de actividades artesanais - da cerâmica à olaria, do pastoreio à agricultura ou às pescas, passando pelos têxteis, mobiliário, transportes, brinquedos, cestaria, latoaria, ferragens e pela expressividade popular associada ao religioso.

Fruto de uma recolha iniciada uma dúzia de anos antes da inauguração do Museu, em 1948 (oito anos depois da realização da Exposição do Mundo Português para a qual o edifício foi construído), e com o intuito de dar a conhecer a diversidade de um país organizado por cinco grandes regiões, esta monumental colecção foi sendo alargada ao longo dos anos, sempre carente, no entanto, de uma contextualização ou interpretação.

Cada objecto vale por si, sendo que na sua maioria, se destaca apenas o seu valor estético e decorativo em detrimento da sua funcionalidade. Muitas são as peças feitas por encomenda, em série, e trabalhadas a partir de modelos pré-existentes. O objectivo era exibir o Portugal de então através de um discurso propagandista. Era essa, de resto, a função do SNI (Secretariado Nacional de Informação) que se ocupava do Turismo e da Arte Popular durante o Estado Novo.

Esse contexto político e ideológico é uma das vertentes que o novo Museu de Arte Popular (MAP) quer explorar, dele mantendo um memória tornada viva através de uma análise mais aprofundada das suas implicações históricas e artísticas. A ideia é de Andreia Galvão, a nova directora do MAP nomeada para o cargo pelo Instituto de Museus e Conservação há um mês. "Essa síntese de Portugal criada no período de 40 tem que estar aqui. É necessário que se interprete esse período político detentor de uma ideologia forte e de um espírito de propaganda ímpar que defendia o Portugal idílico e pastoril, o homem e o herói rural e que o comunicava de forma fantástica. Comunicar é uma das obrigações maiores dos museus. Este tem que contar essa história."

A cestaria do MAP
A cestaria do MAP
José Ventura

Conceito à moda do Antigo Regime


É por isso que se vai manter o conceito de arte popular criado por António Ferro (director do SNI à época) e que se resume a um retorno à essência, numa ligação naïf entre a forma e a funcionalidade, avançando ao mesmo tempo algumas pressupostos do modernismo muito apoiados no trabalho cenográfico de nomes como Carlos Ramos, Jorge Segurado, e do trabalho de artistas como Tom ou Barradas.

Mas será possível aliar arte popular (arts and crafts après la letre) e arte contemporânea, outro dos reptos de Andreia Galvão? A directora acredita que sim. Basta "aliar o sentido romântico e etnográfico da colecção a uma visão mais moderna da arte popular". No fundo é juntar o pitoresco e a modernidade e difundi-lo, "no sentido democrático da cultura". Significa isto atrair ao MAP várias faixas etárias e sociais, "sem transformar o museu num disney world", mas equipando-o das mais avançadas tecnologias multimédia, a funcionarem de igual para igual com a "memória do edifício" preservada pelos frescos, murais, ditos escritos nas paredes, vitrinas e armários de 40.

A história do edifício e a sua memória


Confuso? Muito. Mas atenção, trata-se de um "work in progress" que ainda só tem bases teóricas. É preciso experimentar, primeiro. O edifício é a primeira preocupação de Andreia Galvão, ou não fosse ela arquitecta. "A minha missão agora é criar condições para que esta casa possa vir a albergar o acervo. Em primeiro lugar, quero torná-lo apetecível, para que as pessoas venham, gostem e voltem. Quero que seja um espaço confortável.

É urgente um projecto arquitectónico que resolva o projecto museológico. Mas confesso que ainda não tenho o programa do museu. De momento o que tenho são paredes. A colecção está toda por estudar. Mas congratulo-me pelo edifício estar salvo. Acudiu-se às coberturas e ao pavimento e o espaço que nasceu efémero tornou-se permanente, teimou em ficar como memória da primeira grande exposição que se fez em Lisboa e que teve um impacto tão grande ou maior do que a Expo 98."

As peças encontram-se inventariadas nas reservas do Museu Nacional de Etnologia
As peças encontram-se inventariadas nas reservas do Museu Nacional de Etnologia
José Ventura

Três milhões não chegam


Gastaram-se mais de três milhões de euros, financiados em 50% pelo POC, dinheiros comunitários. Há agora a garantia, avança Andreia Galvão, de que a tutela (Ministério da Cultura) fará a dotação necessária para que as obras se concluam e o museu abra condignamente as portas. Será faseadamente. "A partir do momento que estejam reunidas as condições de segurança e de receptividade do público, a comunidade poderá entrar", diz.

A ideia é a da "obra de arte total" (explorada pela escola alemã Bauhaus no início do século XX). Poderá haver visitas guiadas ao edifício enquanto se restauram os frescos e muitas outras actividades, incluindo performances de várias disciplinas artísticas. A filmagem das intervenções é outro projecto associado à criação de um site que as transmita em tempo real.

Uma casa de Turismo


Para mais tarde fica a vontade de adjudicar ao MAP um carácter turístico forte, à imagem, mais uma vez, do SNI. "Gostava que o museu pudesse ser uma embaixada do país. As parcerias com as regiões de turismo são interessantes para poder ter aqui e mostrar o melhor que se faz no país, sem cair na feira!". Um espaço gourmet, porque "a gastronomia também é cultura" está também em cima da mesa. Como também se pensa em parcerias com universidades e com outros museus portugueses e internacionais. Será para quando o serviço educativo já estiver a funcionar.

Problemas por resolver


Ideias em catadupa! Para discutir, ir discutindo e testando. Porque para resolver estão problemas muito sérios. O edifício não contempla um espaço de reservas, não tem áreas de restauro, nem de investigação, nem de interpretação, onde colocar o equipamento multimédia que porá os pontos nos i sobre a história daquele território.

Só ainda ninguém pensou que o acervo que voltará ao MAP é exactamente da mesma natureza do acervo do Museu de Etnologia. Ninguém parou para olhar as colecções e perceber a sua duplicação, a sua complementaridade também. Uma tarefa talvez complexa para os especialistas, mas perceptível ao olho comum numa única visita aos objectos alinhados lado a lado nas reservas de Etnologia.

Serão mesmo precisos dois museus? Quem tomou a decisão mais precipitada, Isabel Pires de Lima ao mandar encerrar o MAP, ou Gabriela Canavilhas ao decidir reabri-lo?

Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 1   
ordenar por:
mais votados ▼
´POpular
Caldeiradas (seguir utilizador), 2 pontos , 18:43 | Segunda feira, 25 de janeiro de 2010
É por ter custado 3 milhões aos contribuintes que ele é popular. Todos o populámos com os nossos impostos.
Já o Museu de Arte Moderna, por exemplo, não é popular, é do Berardo, embora esteja no Centro de Belém, esse sim, popular e bem - ainda nós, os populares, o estamos a pagar.
A Feiro Popular também era muito popular. Talvez fosse boa ideia passar as populares sardinhas e os populares divertimentos para o museu de arte Popular, atendendo a que nunca mais a Feira será popular.
Eu acho é que 3 milhões para arte popular, isto é, loiça das Caldas, barros de Bisalhães e passas do Algarve é muito dinheiro...
 
 Regras da comunidade
Parabéns a Portugal e à nova ministra!
Portuguez (seguir utilizador), 2 pontos (Interessante), 20:33 | Segunda feira, 25 de janeiro de 2010
Caro tem é custado ao País o longo abandono e desprezo, por tacanho preconceito ideológico de Esquerda reaccionária, de um dos seus museus mais importantes, e mais reveladores do amor ao Povo que foram os nossos avós, antes da urbanização acelerada que quase tudo destruiu dessas nossas raizes fundamentais.
O Museu de Arte Popular, desde que mantido no seu local original, tem aliás capacidade para voltar a ser não só um dos nossos mais ricos museus em acervo e em sentido, mas também um dos melhores fornecedores de receitas líquidas em superavit à tutela da Cultura. Está na altura de aos portugueses voltar a ser ensinada a riqueza do seu grande e diverso país, com os seus cinco climas diferentes, e a sua única e extraordinária diversidade cultural existente de forma complementar entre todas as suas províncias, continentais e insulares, que se deve procurar impedir a todo o custo que sejam normalizadas pelo betão de uma única, feia e anódina maneira, banal e auto-destrutiva da nossa identidade regional, e nacional.
É de lamentar nesta boa notícia apenas o pretensiosismo deslocado do mau estilo em que é redigida, inclusivè na confusão final, tendenciosa, entre Arte Popular e Etnologia, coisas totalmente distintas. O Museu de Etnologia foi aliás criado para espelhar a riqueza etnográfica das antigas colónias, e não tanto a arte popular portuguesa, excepto naquilo que de mais arcaico nela possa persistir, isoladamente, como algumas máscaras transmontanas, etc.
 
 Regras da comunidade
Cultura Popular
Miranda07 (seguir utilizador), 2 pontos , 8:52 | Terça feira, 26 de janeiro de 2010
O conceito de "Cultura Popular" necessita de clarificação. Mas a verdade é que a "cultura do Povo" existe. Aliás, não fosse o Povo e nem sequer de cultura se poderia falar, seja ela popular ou não. Pessoalmente, concordo que exista um Museu (mas a sério!) dedicado às expressões mais populares da cultura de Portugal. E quando digo "cultura" refiro-me a todos os modos e variações da mesma: cultura material; cultura literária (não se percam os Contos e Histórias Populares do nosso País!); cultura agrícola; cultura industrial; cultura alimentar; cultura folklórica, teatral e musical, e quantas mais outras culturas identificadas forem ou possam ser. O que eu acho, porém, imprescindível, é que em nome da Cultura Popular não se esbanjem recursos de forma irresponsável; se percam oportunidades de desenvolvimento sustentável; se esqueça que ainda mais importante do que a cultura são as pessoas que a fazem, que a sustentam, que a mantêm. De resto, ainda não sei onde se localiza o tal Museu; mas um dia gostaria de o visitar. Claro, espero que não me desiluda!
 
 Regras da comunidade
3 Milhões
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 21:42 | Segunda feira, 25 de janeiro de 2010
Dava para dar de comer a muita gente? mas como o dinheiro não sai do bolso deles?
 
 Regras da comunidade
Venham à Lousã
felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 5:31 | Terça feira, 26 de janeiro de 2010
Venham visitar o Museu Louzã Henriques, na Lousã. Foi feito com o dinheiro de um homem que não precisou de subsideos. Vale a pena. Nada como as obras dos nossos Homens Portugueses!
 
 Regras da comunidade
O Povo é que paga as tábuas.
águiadois (seguir utilizador), 1 ponto , 10:21 | Terça feira, 26 de janeiro de 2010
Muda o ministro,muda a politica.paga o Povo.
 
 Regras da comunidade
MEP ou MAP
ABrissos (seguir utilizador), 1 ponto , 10:52 | Terça feira, 26 de janeiro de 2010
Na realidade são museus que se complementam por isso o MAP deveria ser integrado no MEP e manter o edificio junto ao tejo como extensão para as exposições de arte popular e manter-se-ia as reservas e o restauro junto do MEP.
 
 Regras da comunidade
Era no tempo em que ...
FernandoMaria (seguir utilizador), 1 ponto , 20:55 | Terça feira, 26 de janeiro de 2010
Era belo e de requintado bom gosto e autenticidade.
Os edifícios, ainda permanecem lindos.
Foi no tempo de Salazar que gostava de afirmar:
«Para nada fazer, convoca-se uma comissão. Para realizar alguma coisa, escolhe-se um Homem»
E a obra nascia.

Bem, a nossa ministra já tem, à partida, o capital mais avultado. As instalações, o plano da experiência anterior e talvez algum recheio que se não tenha perdido. Que nada lhe custaram.
Obras de limpeza, reparações e restauro, uma ou outra adaptação ... não são assim tão caros.
E os artefactos regionais, temos aí aos trambolhões.
Nada justifica esse orçamento milionário.
 
 Regras da comunidade
Museus e concentrações
Kar (seguir utilizador), 1 ponto , 17:06 | Quarta feira, 27 de janeiro de 2010
A cultura portuguesa tem um potencial gigantesco, particularmente a cultura histórica, pena que o poder politico não tenha sabido aproveitar.
Contudo, sobre museus gostaria de perguntar a razão pela qual todos os grandes museus nacionais se concentram em Lisboa? Será que só dá Lisboa na cultura? O resto do país é paisagem!! Bem, deveriam aproveitar a cultura para fortificar a coesão nacional e o conhecimento do país no estrangeiro, mas infelizmente, a cultura tem servido para alguns poderosos fazerem lobie e guardarem tachos para os amigos
 
 Regras da comunidade
Testemunho de uma realidade
Zé Guita (seguir utilizador), 1 ponto , 10:23 | Segunda feira, 22 de março de 2010
Bons e maus pessoas, factos e momentos, tudo é História e constitui herança social, seja cultura popular seja cultura superior.
Parece que é tempo de assumir tal realidade, pôr de lado as obcecações ideológicas, salvar, valorizar e rentabilizar o património.
 
 Regras da comunidade
mudança de ramo
artZcor (seguir utilizador), 1 ponto , 15:31 | Quarta feira, 15 de dezembro de 2010
se calhar ficava melhor ali um restaurante com comida portuguesa, onde toda a decoração eram as obras de arte deste povo. Juntava-se o util ao agradavel com uma hipotese de recuperar o dinheiro investido.
 
 Regras da comunidade
Re: Museu de Arte Popular já custou mais de €
panthouf (seguir utilizador), 1 ponto , 10:41 | Sexta feira, 27 de janeiro
Como é que nos dias que correm é possível um responsável de um museu afirmar que "É urgente um projecto arquitectónico que resolva o projecto museológico" fazendo questão de frisar que "ainda não tem o programa do museu"? Depois de 3 milhões gastos não houve tempo? dinheiro? para elaborar um projecto museológico sólido? Pelos vistos não ... primeiro o betão, depois logo se vê! Como é que o projecto arquitectónico vai resolver o projecto museológico se este último não existe? é uma pena que os responsáveis continuem a ser tão inovadores e criativos a esbanjar dinheiro e recursos!

 
 Regras da comunidade
Página 1 de 1   
PUB
 
Email
O Expresso no
PUB




Indonésia inspira Portugal, diz Cavaco
22:55 Terça feira, 22 de maio de 2012, 6
Governo de transição na Guiné-Bissau já está criado
22:38 Terça feira, 22 de maio de 2012, 2
Surto de sarna na CERCI de Oeiras "está controlado"
20:14 Terça feira, 22 de maio de 2012, 3
Freeport: Sócrates ameaça processar quem invocar o seu nome
19:23 Terça feira, 22 de maio de 2012, 36
Madeirenses vão começar a pagar taxas nas urgências
19:00 Terça feira, 22 de maio de 2012, 10
Ativista chinês preocupado com perseguição a sobrinho
18:13 Terça feira, 22 de maio de 2012, 2
Avião de Paris para os EUA desviado da rota
17:37 Terça feira, 22 de maio de 2012, 9
"Não pode ficar nenhuma dúvida sobre Relvas", exige Seguro
17:20 Terça feira, 22 de maio de 2012, 27
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
IAB