O Ministério da Saúde espanhol garante ao Expresso que "foi por coincidência" que o anúncio da campanha de distribuição de um milhão de preservativos em África surgiu durante a viagem do Papa àquele continente. O representante do ministro Bernat Soria não esconde, porém, o desacordo com as palavras de Bento XVI, ontem proferidas nos Camarões.
O Papa afirmou que o preservativo não serve para combater a sida. "Pelo contrário, a sua utilização agrava o problema", disse. O porta-voz do Ministério espanhol é claro: "Estas afirmações vão contra o que deve ser uma política de prevenção e de saúde pública. Não só a do Governo espanhol como as de todo o mundo", afirma ao Expresso. Autoridades de saúde de todo o mundo criticaram as afirmações do líder máximo da Igreja Católica.
O secretário de Estado espanhol, José Martínez Olmos, considera que Bento XVI está "muito mal aconselhado", pois difunde "mensagens contrárias às provas científicas". Na nota de imprensa em que anuncia o envio de um milhão de preservativos para África, o ministério sublinha a "eficácia demonstrada" do preservativo no combate à sida.
O porta-voz do ministro Bernat Soria recorda que "o ministério tem promovido acções deste tipo em vários países". A distribuição dos preservativos em África será levada a cabo com a ONG Médicos do Mundo, que tem participado na política de colaboração internacional do Governo espanhol.
Na Tanzânia, o ministério espanhol e esta organização aliaram-se para lançar um programa de controlo da propagação do VIH, fornecendo Nevirapina (medicamento usado para prevenir a transmissão mãe-filho) às grávidas e ajudando a tratar doenças sexualmente transmitidas.
Os preservativos serão distribuídos, após um concurso público, por organizações humanitárias que trabalham nos países mais afectados pela epidemia, entre eles Angola, Senegal, Namíbia, Tanzânia, Quénia e Burkina Faso.
O Ministério da Saúde espanhol realça que a prevenção é tanto mais importante quanto os medicamentos antirretrovirais não chegam a mais de 40% dos doentes. A epidemia alastra 2,5 vezes mais depressa do que cresce a disponibilidade de recursos sanitários.
De 33 milhões de seropositivos que há no mundo (estimativa das Nações Unidas), dois terços vivem na África subsariana. Esta região regista 72% do total de mortes por sida e 90% das vítimas menores de 15 anos, que foram 270 mil em 2007.