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Meter água

Portugal promovido como uma Atlântida com campos de golfe.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 9 de fevereiro de 2011

Portugal é, basicamente, uma extensão de mar, rios e lagos pontuada por algumas aldeias de outrora, um cavalinho de passagem, um ou outro monumento rendilhado, um prato de bacalhau nouvelle cuisine, campos de golfe, apontamentos de modernidade - um auditório estiloso, um museu de design, um oceanário - e varandas boas para namorar por cima das vastas águas. Parece pouco? Falta acrescentar à paisagem as escadarias de uma bela livraria, uma fatia de calçada portuguesa e uma menina de minivestido branco a cantar, debaixo de uma árvore, com um guitarrista de cada lado. Os estrangeiros aos quais se destina esta visão de Portugal poderão concluir, por conseguinte, que o fado é uma música rural e a minissaia branca o seu traje habitual. Mulheres de saia curta debaixo das árvores foram uma das mais infelizes e prolongadas imagens de Portugal - aí está uma tradição já anterior ao 25 de Abril, para os saudosistas. Mas não me parece que valorize o fado que, ainda por cima, está candidato a Património Cultural da Humanidade. O que acabo de descrever é o novo filme de promoção turística de Portugal no exterior - um filme de três minutos e meio, sem palavras, o que poderia ser vantajosamente aproveitado para destacar essa música que comove multidões, do Japão ao Brasil. Mas a música de fundo deste vídeo parece ter sido criada para um elevador de hotel - é indistinta, até nos vagos acordes de guitarra. No fim, quando a mulher entra na água ao sol poente (começáramos com um homem a sair da água ao sol nascente) lê-se: "Portugal: the beauty of simplicity". Entre as coisas simples que o bom povo português faz conta-se o lançamento de balões iluminados nas noites festivas.

Não há nada neste Portugal de exportação que não exista também na Irlanda, por exemplo (excepto os balões saídos de algum festejo oriental, a calçada portuguesa e o bacalhau anoréctico, com duas batatas em tuberculose galopante e umas ervilhas do pós-guerra a acompanhar). Ou em Espanha. Ou em vários outros países.

O turismo, como quase tudo no mundo actual, é uma área cada vez mais especializada - e rentável. Portugal tem todas as condições para se tornar um dos mais desejados destinos turísticos internacionais, e não é só nem especialmente por ter muita água (para fazer surf, regar campos de golfe ou criar cenários românticos). O que Portugal tem de único para vender é cultura: os monumentos, sim - muito mais variados do que os hiperpublicitados Palácio da Pena, Mosteiros dos Jerónimos e da Batalha mostrados neste filme. Mas também a arquitectura contemporânea - Siza Vieira é uma referência mundial, e é português. E a literatura - desse ícone incontestado que é Fernando Pessoa ao Nobel José Saramago. E a pintura - dos painéis de Nuno Gonçalves no fascinante Museu de Arte Antiga à Casa das Histórias de Paula Rego, às obras de Júlio Pomar ou Graça Morais. E a música - o fado, precisamente. Uma campanha que mostrasse o que só em Portugal se pode ver e sentir atrairia ao país um novo e mais lucrativo tipo de turista. O turismo do sol e da praia nunca poderá beneficiar grandemente o país - mares mais quentes, até a Espanha tem. A verdade é que o nosso turismo de areal se esgota nos pubs e nos campos de golfe do popular Allgarve, sem criar grandes receitas nem animar o resto do país. Porque é que o Minho ou Trás-os-Montes nunca aparecem na propaganda externa? Porque é que a cultura de um país internacionalmente popular por causa do fado e de Fernando Pessoa - além das Descobertas - se resume à síntese mais evidente do tricô manuelino ou dos vinhedos do Douro? Porque é que o bacalhau de exportação há-de ter uma cara mais infeliz do que a da Kate Moss nos seus bons tempos? Porque é que de uma gastronomia mais rica do que a Arábia Saudita só se promove a posta do peixe seco?

A resposta estará provavelmente na descrença que temos em nós mesmos, nas dúvidas constantes que nos assombram, vá-se lá saber porquê, sobre a identidade deste país antiquíssimo, e a sua capacidade de atrair estrangeiros. Sugiro aos responsáveis destas campanhas que ouçam os muitos estrangeiros que se naturalizaram portugueses. Eles saberão explicar-lhes o que tem Portugal de diferente e singular. E depois filmem essa diferença, de Norte a Sul - não em voo planado e abstracto, mas no concreto íntimo das cidades, dos museus, das ruas, das personagens inesquecíveis e das suas obras. Portugal não é simples, não; é muito mais belo e específico do que isso.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na revista Única de 5 de fevereiro de 2011
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O nosso fado
CãodaRosa (seguir utilizador), 2 pontos , 15:39 | Terça feira, 15 de fevereiro de 2011
Não saber promover a nossa beleza natural, a cultura, o imenso património é o nosso fado. Não conheço o filme promocional, mas atrevo-me a dizer, correndo o sério risco de me estender ao comprido, que os seus criadores devem ter sido contratados por ajuste direto, à nossa maneira deixando de parte quem poderia fazer melhor mas está sózinho.
 
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Maxx (seguir utilizador), 1 ponto , 16:29 | Quinta feira, 10 de fevereiro de 2011
Faço parte de um grupo de pessoas que todos os anos recebe em Portugal uma prova Mundial, entre esse grupo de pessoas, recebemos Espanhóis, Holandeses, Ingleses, Americanos, Turcos, Alemães, etc. O que mais me custa a ouvir de alguns é que Portugal tem tanto potêncial pela sua riqueza cultural e intelectual, mas não a usamos. Só entendem quando lhes explico que quem vota e elege quem nos governa têm extrema falta de riqueza cultural e intelectual. "Ahhhh..." é a reacção habitual.
 
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