A reação dos mercados da dívida ao segundo pacote de resgate à Grécia foi "mista". Penalizou, claramente, a Grécia e Portugal e, em menor grau, França e Bélgica, e poupou Itália e Espanha.
A probabilidade de incumprimento da dívida grega num horizonte de cinco anos disparou, subindo de 87,82% no fecho de segunda-feira para 91,64% no fecho de terça-feira, segundo dados da CMA DataVision. O preço dos credit default swaps (cds) - seguros contra o incumprimento da dívida - associados à dívida grega voltou a subir acima dos 10.000 pontos, algo que já não ocorria desde 20 de dezembro de 2011. O valor dos "pontos à cabeça" (points upfront) aquando do estabelecimento de um contrato de cds disparou para 71 pontos.
Este conjunto de indicadores aponta, de novo, para uma situação de iminência de default. Apesar de, aparentemente, o acordo apontar para a realização, atempada, no começo de março, de uma troca de títulos de dívida. Troca que acarretará, como se soube nesta decisão do Eurogrupo, uma redução substancial do montante em dívida aos credores privados na ordem dos 74% do valor líquido presente. Troca que poderá evitar uma bancarrota no dia 20 de março, aquando do vencimento da maior fatia de dívida este ano.
Dúvidas sobre a trajetória da dívida grega
Esta subida significativa do risco grego deriva do facto do acordo obtido no Eurogrupo terça-feira de madrugada, depois de 13 horas de discussões, deixar "uma pletora de incógnitas", segundo o balanço realizado pela Markit. Uma das incógnitas mais citadas, entre os analistas, tem a ver com a trajetória da dívida grega. Será que vai descer de 160% do PIB em 2011 para 120,5% (nova meta, ao pormenor decimal, fixada pelo Eurogrupo) em 2020? Um relatório "estritamente confidencial" da troika, elaborado antes da reunião do Eurogrupo, e entretanto divulgado, admite um cenário em que a evolução da divida poderia ir até um pico de 178% do PIB em 2015, regressando, depois, a 160% em 2020, o mesmo nível de 2011.
O contágio propagou-se, de imediato, à divida portuguesa. O nível de incumprimento, que havia descido abaixo dos 60% há uma semana atrás, voltou esta terça-feira a subir acima dos 60%, fechando em 60,54%, acima do valor de fecho de segunda-feira. A Markit voltou a referir o valor dos "pontos à cabeça" para o caso dos cds ligados à dívida soberana portuguesa que subiu para 33 pontos, de qualquer modo, um valor ainda distante do pico de 43 pontos de 30 de janeiro.
A mesma reação de penalização da dívida portuguesa ocorreu no mercado secundário com as yields (juros) das obrigações do Tesouro (OT) a subirem em todas as maturidades, com exceção do prazo a 2 anos, segundo dados da Bloomberg. O prémio de risco da dívida portuguesa em relação à dívida alemã fechou terça-feira, a subir, fixando-se em 10,45 pontos percentuais. Este prémio mede a diferença (spread) entre os juros das OT a 10 anos e os juros dos Bunds, a designação dos títulos alemães, com a mesma maturidade. Os juros dos Bunds servem de referência na zona euro.
Itália e Espanha escapam
O risco de incumprimento da dívida francesa, belga e irlandesa também se agravou esta terça-feira.
Escaparam à desconfiança destes mercados, a Itália e Espanha, cujos prémios de risco baixaram, bem como as yields dos seus títulos, e em particular no caso dos prazos a 10 anos. Neste prazo continuam bem abaixo do limiar crítico dos 7%, tendo fechado esta terça-feira em 5,44% para os títulos italianos e 5,14% para as obrigações espanholas.
A Itália saiu segunda-feira do 10º lugar no TOP 10 da probabilidade de incumprimento ("clube" da bancarrota) e, depois de ter reentrado à tarde na terça-feira, voltou a sair à hora de fecho.
O Tesouro espanhol colocou na manhã de terça-feira dívida de muito curto prazo, a 3 e a 6 meses, num montante de €2,5 mil milhões, com juros abaixo de 1%, o que já não se observava há dois anos.