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Memória, precisa-se

Pior, antes do 25 de Abril, só os mortos.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011

Os portugueses têm memória de passarinho, e dos tontos. Podiam pelo menos ter memória de andorinha, que essas voam para longe mas regressam todas as Primaveras aos beirais, e constroem os seus próprios ninhos, com notável empreendedorismo e competência, chilreando sem lamúrias. Segundo um inquérito realizado no âmbito do Projecto Farol, 46 por cento da população acham que "estamos pior do que antes do 25 de Abril". A coisa refina: para 58 por cento dos portugueses, estamos hoje pior do que antes da entrada na Comunidade Económica Europeia, há 25 anos. Escusado será lembrar a este povo voluntário da desmemória que no fabuloso final da década de 80 do século passado, quando o maná dos fundos europeus caía diária e copiosamente do céu sobre as nossas atarantadas cabecinhas (então lideradas pelo senhor que sozinho consegue ser mais honesto que nós todos renascidos), a Europa era considerada a mais linda das noivas. Sim: grande parte desse caudal foi transformado em betão, cursos de formação da treta e luxos depois abandonados (veja-se o simbólico Pavilhão de Portugal) - mas isso já não é culpa da Europa. Sucede que a culpa à portuguesa é sempre dos outros: em primeiro lugar, do mundo cruel; em segundo, dos governantes ferozes. E assim o povo, acompanhado de alguma populista opinião, continua no seu triste contentamento de se achar sempre pior do que nunca, à revelia dos factos e números.

Basta um ligeiro alumiar das meninges: antes do 25 de Abril, para se ter direito a tratamento hospitalar gratuito era necessário ter-se um documento onde estava escrito "indigente", e hoje o Serviço Nacional de Saúde é uma realidade universal. Antes do 25 Abril, a educação era um privilégio de ricos - o tão gabado ensino de "excelência" não só não era assim tão bom (leiam os jornais desse tempo e avaliem, além dos ruidosos silêncios da censura, os rodriguinhos da ignorância pura e do deslumbramento pacóvio que lhes enchiam as páginas, no lugar da informação) como deixava a maior parte da população de fora. Hoje a escola pública é para todos - e está, infelizmente ainda desde há poucos anos, aberta todo o dia. Poderíamos também enumerar, entre muitos outros dados essenciais, a descida vertiginosa da mortalidade infantil, o aumento da esperança de vida, o decréscimo dessa miséria atávica que é a gravidez na adolescência. Falta cumprir muito? Sem dúvida. Mas pior do que antes do 25 de Abril? Só um esquecimento comatoso de ingratidão poderá afirmá-lo. É curioso, aliás, que os mesmos inquiridos manifestem em simultâneo um desprezo avassalador (chega aos 90 por cento) pela classe política e a convicção de que é à dita classe (isto é, ao Estado) que cabe o dever de assegurar o desenvolvimento e a competitividade do país. Por outro lado, a percentagem da população disponível para a intervenção cívica activa não excede os 31 por cento - e mais de metade dos portugueses manifestam-se indisponíveis para lançar um negócio próprio. A segurança no emprego é central para a grande maioria, e 83 por cento dos inquiridos consideram que a responsabilidade pelo sucesso de uma empresa é do empresário, ou seja, do patrão. Ah, nação valente e imortal!

Antes do 25 de Abril, de facto, a segurança do emprego era melhor (para os que o tinham, e o passavam em testamento), a Justiça era extraordinária (os tribunais plenários eram rápidos e eficientes), a saúde não tinha listas de espera (eram saudavelmente substituídas pela relva dos cemitérios) e quem queria ser empreendedor emigrava, não ficava cá a fazer sombra a ninguém. Acresce que a fome - a fome real, aquela que as crianças analfabetas sentiam de manhã à noite, porque nem tinham uma escola que lhes desse duas refeições por dia - era, por si só, um grande estímulo ao empreendedorismo no exterior.

Os resultados deste inquérito demonstram que o temperamento passivo, timorato e autodesresponsabilizador criado pelas ditaduras demora muito a alterar-se. O paternalismo providencialista é menos uma maldição do que um vício. Portugal continua toxicodependente dos poderes. Também é por isso que eles não funcionam melhor: porque deles se espera tudo, mesmo quando se desespera. Esperar, desesperar são verbos fáceis. Fatais - mas desgraçadamente cómodos. A época do comodismo de olhos fechados acabou de vez. Já acabou há muito tempo, não só em Portugal. A democracia dá mais trabalho do que a ditadura, pois é. Uma chatice.

Nota: Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia.

Texto publicado na revista Única de 29 de janeiro de 2011
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Sentido crítico, precisa-se ( I )
castanhinha (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 20:31 | Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011
Num país pouco desenvolvido como o nosso, a esperança reside na influência das opiniões de alguns seres pensantes com sensibilidade e voz pública, como é o caso de I.P. . Quando a vemos fazer uma análise básica, como a do presente artigo, desancando no povo, essa massa ingrata sem memória que não sabe reconhecer o muito que se deve à democracia e aos seus dirigentes, causa um desânimo profundo ao melhor dos optimistas . Aliás este tipo de crítica já começa a levar atrás de si um grupo de seguidores, que se limitam a replicar o pensamento da moda. E de seguida lá costuma vir a citação do apelo de Kennedy aos americanos …
Perdoe que lhe diga, mas não acha que os resultados se devem exactamente ao contrário, ou seja . ao facto de os portugueses terem boa memória ? É que os portugueses lembram-se que nessa altura tinham algo que hoje não têm , tinham ESPERANÇA !. Poderá haver algum paralaxe em resultado da idade jovem da altura, quando comparada com a idade dos inquiridos hoje, mais dada ao cepticismo. Mas o que impede os portugueses de se sentirem confortáveis não é o facto de terem políticos ridículos que se vendem por dois tostões aos diversos poderes económicos, que os há em maior ou menor escala em muitos países, mesmo nos mais desenvolvidos . O que inquieta os portugueses , tanto os mais atentos, como os que só agora se deram conta, é que as decisões de carácter político/económico acumuladas durante o período democrático foram genericamente um desastre.
 
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    Re: Sentido crítico, precisa-se ( I )    Ver comentário
joa de arievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 23:25 | Sábado, 5 de fevereiro de 2011
    Re: Sentido crítico, precisa-se ( I )    Ver comentário
ocehcap (seguir utilizador), 1 ponto , 14:04 | Terça feira, 8 de fevereiro de 2011
Pois...
Maxx (seguir utilizador), 1 ponto , 16:51 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
...há dias em conversa com uma amiga durante o jantar desabafei sobre alguns problems e obstáculos que estou a viver... e diz ela muita apressada e apreensiva: "mas ainda vives no país do Salazar?"... Não sei se ela reagiu desta forma por ter outra cultura que não a nossa, mas eu fiquei boquiaberto porque não pode haver descrição melhor para a falta de memória, e inteligência dos Portugueses. Às vezes esqueço-me que estou em Portugal...
 
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A aniquilação da memória
dadada (seguir utilizador), 1 ponto , 20:26 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
não é uma estratégia da politica educativa?

A memória não é um peso morto que atrapalha a cidadania tecno?
 
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Memória curta
smaria16 (seguir utilizador), 1 ponto , 22:01 | Quarta feira, 2 de fevereiro de 2011
Concordo com a Inês Pedrosa. De facto, considero que os comentários de cidadãos que afirmam, convictos, que antes do 25 de Abril é que era bom, das duas uma: ou tem memória curta, curtíssima, ou então faziam parte da percentagem ínfima da população que vivia muito bem
 
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Medmória por conveniência....
doctorcj (seguir utilizador), 1 ponto , 19:04 | Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011
Concordo em absoluto co o que diz IP.

Era adolescente em Abril de 74. Das minhas memórias de então, para além da "mania" de querer protestar com os "grandes" da universidade e desatar a correr feito louco pela escadaria abaixo da Universidade do Porto e rumar a Cedofeita fugindo dos fardados cinzentos policiais, bufos, Pides e correlativos apenas porque a malta não concordava com a guerra, não quueria a escola com uns tipos de ar duvidos a andarem lá por dentro, gostav de ter outro ensino e no fundo andar um pouco mais à vontade, mandar umas "bocas à maneira", sei lá.

Também lembro que os pais de amigos, vizinhos lá da rua, desapareceram numa noite, madrugada alta, rumo ao Prado de Repouso pois um pai de outro amigo vizinho, primo de um DGS e bufo nas horas vagas tinha decidido mostrar serviço à conta de "amigos" vizinhos. E sei que uns voltaram dias depois, marcados na mente e no corpo mas dois deles, "emigraram" para a terra do nunca, crê-se que mesmo ao lado, levados através de passagem adequada que aquela "oficina" tinha paredes meis com o Cemitério do Prado de Repouso.
E como podia esquecer os irmãos mais velhos desses amigos que foram de viagem até África e de lá voltaram com um corpo disforme, ou num saco preto ou com stress pós-tramáutico (esta perturbação ignorada pelo estado português) a que simplesmente apelidaram de "pancada".
Memórias de um "puto" que ainda hoje estão bem vivas e que para outras, talvez por conveniência, são esquecidas.
Obrigado IP
 
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Sentido crítico, precisa-se ( II )
castanhinha (seguir utilizador), 1 ponto , 20:33 | Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011
Após um período prolongado de crise , quase dez anos, os portugueses tomaram consciência de que, para além do estado crítico a que chegaram, ainda tinham em cima de si a responsabilidade de terem hipotecado o futuro dos seus filhos e netos, fruto dos “investimentos” em árvores que não crescem nem dão frutos, realizados ao longo destes últimos 30 anos pelos donos da democracia , e que resultaram num país com baixa produtividade e a mais elevada discrepância de rendimentos entre classes, quando comparada com os parceiros europeus.
Já agora, no que respeita às comparações, se quisermos reduzir a cinzas o período áureo dos descobrimentos, basta seguirmos a técnica comparativa utilizada por I.P. e compararmos as condições de vida actuais com as dessa época…que os ilusionistas da política utilizem esta falácia, entende-se, agora …
  Então não são como as andorinhas os milhões de portugueses que emigraram em diversas vagas , e que contribuíram com as remessas resultantes das suas economias para a nossa balança de pagamentos , e que voltam para as suas terras para construir a sua casa e ali viverem a velhice ?
 
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Sentido crítico, precisa-se ( III )
castanhinha (seguir utilizador), 1 ponto , 20:34 | Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011
Eu, tal como 83 % dos portugueses, também acho que o responsável pelo sucesso de uma empresa é o empresário. Existe um princípio de gestão que diz “ a responsabilidade nunca se delega “. Sendo o empresário o elemento que está no topo da pirâmide, é lógico que seja ele o responsável pelo sucesso da empresa Com o contributo dos seus colaboradores? É óbvio que sim, mas não era esse o objecto da tal pergunta.
Pois é , isto de ter de se escrever todas as semanas um artiguito , quando às vezes nem apetece, e ainda levar em cima com comentadores chatos, tem que se lhe diga …
 
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Democracia
Jorge Duque (seguir utilizador), 1 ponto , 16:10 | Sábado, 5 de fevereiro de 2011
Ícone da defesa da democracia, IP mostra neste texto que a vontade e inteligência do povo só são respeitáveis quando defendem o que lhe interessa.

Se assim não for, são umas alminhas tontas.

Eu compreendo o seu temor quando vê verdades insofismáveis serem desacreditadas por estudos destes.

Não é a democracia que o nosso sábio povo põe em causa, mas a democracia que os nosso governantes nos impuseram, pelos vistos, pior que a ditadura.

Vai ter de encaixar esta, cara Inês.

     
 
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joa de arievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 1:05 | Domingo, 6 de fevereiro de 2011
o culpado disto tudo ainda é o Salazar
joa de arievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:39 | Domingo, 6 de fevereiro de 2011
«… chilreando sem lamúrias» e você o que está a fazer? Não é um chilreio de lamúrias?

«"estamos pior do que antes do 25 de Abril".» Também me sinto pior que antes do 25 de Abril. As revoluções nunca foram, nunca serão para todos. Os oportunistas, esses, não há revolução ou contra revolução que os não beneficie. Estamos atulhados deles, essa é a nossa desgraça.

Venha passear a sua liberdade democrática aqui pela Amadora, Serra da Mira... Venha, traga aquela saia justa a mostrar como somos um país farto, bem nutrido.

Quantas aldeias ficaram sem escola, sem crianças, terem de ir nascer a Espanha?, quantas são mortas nos ventres das mães para você e outros poderem usufruir de tamanho bem-estar? Naqueles tempos ainda nos reproduzíamos.
 
Tomara muitas crianças ricas que andam por aí perdidas, cheias de pregos e drogas, sem perceberem se são homens ou mulheres, necessitando de um curso para darem uma queca mal dada, vivendo de créditos malparados, terem vivido uma infância em liberdade e de felicidade como eu tive e muitas crianças desse tempo.

E a liberdade de expressão? Não é só coisa só dos meninos de grupos VIP? Não são sempre os mesmos escrevendo para jornais e revistas à borla para existirem?
...
 
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    Re: o culpado disto tudo ainda é o Salazar (...)    Ver comentário
joa de arievilo (seguir utilizador), 1 ponto , 0:52 | Domingo, 6 de fevereiro de 2011
Falso (Parte I)
ViraLatasNaEuropa (seguir utilizador), 1 ponto , 17:13 | Segunda feira, 7 de fevereiro de 2011
Memória precisa-se? Nem por isso, no que me toca! A Crónica Feminina já existia no meu tempo e era uma revista que a minha mãe lia nas horas vagas. Com mais de 60 anos bem vividos, em todas as áreas da sociedade tuga, conheci prostitutas, chulos, panascas, vip's (na altura chamava-se pessoal da "alta"), convivi com todos esses seres humanos desde as tascas do Intendente e do Cais do Sodré, até aos salões das Embaixadas, casas de adidos estrangeiros, hotéis de 5*, casinos, etc. E tenho a memória bem vivinha da Silva, graças a Deus! E digo-lhe que eu vivia melhor antes do 25 de Abril do que vivo hoje! E digo-lhe que nunca tive problemas com a PIDE, com os Postos da Caixa de Previdência, com o emprego (até ao 25'Abr'74 estive num durante 10 anos e comecei noutro com 14 anos - de 70 a 84). Não fui revolucionário (graças a Deus, porque os revolucionários que apareceram por aí vindos do "exílio" foi a trampa que nos caiu em cima e que levou o País ao estado em que se encontra), nunca tive qualquer tipo de simpatia pelo regime do Estado Novo, sou um ex-combatente da guerra colonial, ferido 4 vezes em combate e deixei mulher e uma filha com 2 anos de idade na "Metrópole". Cumpri com a minha "obrigação" cívica e não desertei como muitos "democratas revolucionários" que hoje estão podres de ricos às nossas custas. Eu não sendo pobre, na acepção da palavra, estou teso que nem carapau fumado, apesar de ter trabalhado mais de 40 anos! (Cont.)
 
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    Re: Falso (Parte II)    Ver comentário
ViraLatasNaEuropa (seguir utilizador), 1 ponto , 17:14 | Segunda feira, 7 de fevereiro de 2011
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