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Médicos portugueses falam em caso único e pouco científico

Técnicas usadas pela equipa belga são experimentais e inacessíveis. Para já, não vão ser usadas nos doentes internados nos hospitais.

Vera Lúcia Arreigoso (www.expresso.pt)
21:00 Segunda feira, 30 de novembro de 2009

Se for verdade, acordar de um estado vegetativo ao fim de 23 anos é um episódio extraordinário sem precedente na Medicina, garantiram ao Expresso vários especialistas portugueses. Os clínicos dizem conhecer as técnicas que terão sido usadas pela equipa belga para 'acordar' Rom Houben, mas alertam que são métodos apenas disponíveis para investigação. Na sua opinião, sem a descrição clínica do caso numa revista científica não há prova de veracidade e nada mudará na forma como os doentes são tratados nos hospitais, em todo o mundo.

"Este grupo de Liège tem sido muito importante e já contribuiu para revelar a existência de subgrupos dentro do estado vegetativo (ver caixa abaixo), mas usa técnicas de estimulação profunda porque é um centro de investigação. São abordagens que ainda não podemos generalizar nos serviços de saúde", explica o porta-voz do Colégio de Neurologia da Ordem dos Médicos, José Barros. Um desses métodos - que terá sido utilizado com Rom Houben (ver texto relacionado) - é "submeter o doente a estímulos profundos e fazer uma ressonância magnética funcional para ver se a respectiva área do cérebro é activada, provando que há consciência", acrescenta o neurologista do Porto.

Especialista em doentes neurocríticos - em coma, estado vegetativo e com outros problemas neurológicos muito graves - , Celeste Dias afirma "que técnicas como a ressonância magnética funcional só começaram a surgir agora. Também estão a ser feitas investigações com fármacos para estimular neurónios que podem estar adormecidos para que, assim, recuperem a sua função".

Está, agora, por provar se Rom Houben é o primeiro rosto dessas experiências inovadoras. "Não se percebe este caso porque ainda não há informação científica. Além disso, há investigadores que têm agendas escondidas", critica o professor de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina de Lisboa, João Lobo Antunes.

A hipótese de erro médico na avaliação feita a Rom Houben é igualmente posta de parte. "Há 23 anos os meios de diagnóstico não eram tão bons, mas ao longo desse tempo o doente foi visto por vários médicos e foram-lhe feitos muitos exames. Num país com uma prática médica como a Bélgica um erro destes não teria subsistido até hoje", diz o director dos Cuidados Intensivos dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Jorge Pimentel. "Os doentes com traumas crânio-encefálicos são, desde logo, bombardeados com exames e a avaliação do doente é feita várias vezes ao dia", acrescenta.

Para actualizar o diagnóstico, as equipas médicas falam com os familiares, submetem os doentes a estímulos de dor e de música, por exemplo, e a várias técnicas auxiliares de diagnóstico como a TAC. Contudo, há limites. "O desenvolvimento tecnológico tem permitido sabermos mais sobre o cérebro humano e os seus mecanismos, mas mesmo com os exames actuais ainda é muito difícil fazer a avaliação e a diferenciação das alterações na estrutura e nas funções cerebrais", salienta a neurologista Celeste Dias.

A incerteza no diagnóstico continua, assim, a estar presente e histórias como a deste homem belga podem ter consequências negativas: "Levanta sérias dúvidas entre os familiares dos doentes, que começam a questionar se a prática médica está a ser bem aplicada e esta é uma questão extremamente complicada", reconhece o médico Jorge Pimentel. O director dos Cuidados Intensivos do Hospital de Santa Maria, Carlos França, tem outra interpretação. "A medicina tem o lado bom de admitir sempre que há excepções e que cada pessoa é um caso, com reacções próprias e muito diferentes de doente para doente".

E como é que se consegue resistir 23 anos preso no próprio corpo? "Alguém sentir-se vivo é um grande benefício", explica o presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, Vaz Serra. "Conheço vários casos de pessoas que estiveram em coma e conseguiram recuperar, mesmo com muitas limitações. A princípio surge o medo da incapacidade, mas aos poucos começa a sentir-se o desejo pela vida e a apreciar coisas a que não se prestava atenção". Mais cauteloso, o psiquiatra Carlos Saraiva, dos Hospitais da Universidade de Coimbra, salienta que "este caso é excepcional. Tudo o que se diga será sempre especulação".


Níveis de consciência

1- Coma

Há perda total dos sentidos e da consciência e a vida é mantida artificialmente. O doente está num sono permanente, com os olhos sempre fechados, e é incapaz de executar ordens como mexer os dedos - apesar de poderem existir reflexos não intencionais. O coma tem vários graus, o mais grave é semelhante a estar-se sob anestesia geral, e um limite de quatro semanas. Pode evoluir para a morte, estado vegetativo ou para a recuperação

2 - Vegetativo

O doente não tem consciência de si nem do meio, mas consegue manter-se vivo, por exemplo respirando naturalmente, porque o tronco cerebral funciona. O sono tem momentos de vigília, em que os olhos abrem, mas não há nenhuma reacção a estímulos, mesmos dolorosos

3 - Consciência mínima

Existe alguma autoconsciência e interacção. O doente é capaz de reagir com sim/não, riso/choro, fixar ou seguir luzes com os olhos e segurar ou usar objectos ntencionalmente. Pode sentir-se dor, fome e sede

4 - Mutismo acinético

É uma síndroma rara. A consciência está intacta, mas não há movimentos corporais. O doente pode fazer perseguições visuais sustentadas, embora o discurso seja quase nulo

5 - "Locked-in"

A consciência e cognição são mantidas. Lesões no tronco cerebral provocam a paralisia quase total e limitam a comunicação aos movimentos dos olhos


Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009

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