Jorge Drexler dá hoje o seu primeiro concerto em Portugal, no Cinema São Jorge (21h30), em Lisboa. Mais conhecido pelo Óscar para a melhor canção conquistado com "Al Otro Lado Del Rio" - do filme "Diários de Che Guevara" -, o compositor uruguaio conta já com nove discos e muita fama no continente sul-americano.
Nascido em Montevideo, Drexler estudou Medicina, tendo-se especializado em otorrinolaringologia. Contudo, aos 30 anos deixou a carreira de médico para abraçar um novo desafio como cantor e compositor. "Comecei a estudar Música aos cinco anos e Medicina aos 18. Durante 12 anos fiz as duas coisas, mas depois fiquei só com a música", diz com uma simplicidade desarmante.
Apesar de ter sangue latino-americano, já viveu em Israel e Espanha e fala fluentemente inglês, hebreu e português. "O Uruguai é um país com forte influência brasileira, em tudo: na cultura, na política, na economia... Eu nunca morei no Brasil e nunca tive aulas de português, mas falo português nem sei bem como", confessa.
"Cresci com a ditadura"
E é na língua de Camões que faz questão de se expressar na entrevista ao Expresso. Conta que o seu processo de composição se desencadeia de forma muito simples, fala sobre o primeiro Óscar conquistado por uma canção cantada em espanhol (a 'sua' "Al Otro Lado Del Rio") e ainda analisa a situação política e social do continente sul-americano.
"Cresci com a ditadura e vivi com ela até aos 20 anos", refere. Essa situação levou a sua família a mudar-se para Israel, onde viveu durante um ano. Drexler regressa ao Uruguai e mais tarde acaba por se casar com uma espanhola e mudar-se para a Península Ibérica.
Todas estas mudanças tiveram influência no seu processo de crescimento, mas o cantor nega que os locais por onde passa sejam importantes quando escreve música. "A inspiração é um processo interno, não depende do lugar onde estou. É algo que a pessoa leva consigo. Procuro [a inspiração] dentro, não procuro fora", assegura. Para compor precisa "apenas de uma mesa, uma cadeira, um lápis e a viola".
Drexler apresenta hoje em Lisboa "Cara B", o seu último disco, que por debaixo de uma aparente simplicidade, esconde um talento inato para escrever canções.
Apesar do emaranhado de diferentes culturas na sua vida, Drexler continua a sentir-se uruguaio e sul-americano. "Há uma frase muito boa que algumas pessoas se referem: 'Somos uruguaios porque falhámos em ser latino-americanos'. Houve uma vontade muito grande de não fazer um grande Estado Federal na América Latina. Acho que deveria ter sido a solução mais lógica para países tão familiares como por exemplo a Argentina, o Uruguai e o Paraguai", revela sobre a situação actual do 'seu' continente.