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(clique na imagem para ver o documento em formato PDF) O exercício está ao nível do 6º e não do 9º ano, diz a Sociedade Portuguesa de Matemática. “Muito fácil”, acham os franceses |
No exame nacional de Matemática do 9.º ano há questões que podem ser facilmente resolvidas por alunos de 12 anos, exercícios que contêm a resposta e conteúdos essenciais que não são testados.
Se pensa que esta análise à prova deste ano é feita pela Sociedade Portuguesa de Matemática, sempre muito crítica dos testes concebidos pelos serviços do Ministério da Educação, desengane-se.
O comentário é da Associação Francesa de Professores de Matemática do Ensino Público (APMEP), que aceitou o desafio do Expresso de olhar para o enunciado e ajudar a tirar as teimas relativamente à polémica em torno do suposto facilitismo nos exames em Portugal.
Para a APMEP, não há dúvida de que a vida dos alunos portugueses está um pouco mais facilitada do que a dos colegas franceses da mesma idade, sujeitos a testes com menos perguntas de escolha múltipla e exercícios bastante mais abstractos, onde não faltam, ao contrário das provas nacionais, cálculos de álgebra e funções. Mas, em termos globais, o nível de dificuldade nos dois países não é assim tão diferente. Há algumas questões semelhantes e até matérias que em França só são aprendidas um ano mais tarde.
Daniel Duverney, membro da Sociedade Francesa de Matemática (SMF), tem idêntica opinião. "O nível é, efectivamente, baixo. Como é actualmente em França", critica, apontando duas características da prova que considera "chocantes": o facto de serem dadas aos alunos as fórmulas de resolução dos problemas e a não-penalização dos erros nas questões de escolha múltipla.
A verdade é que a questão do facilitismo na educação atravessa fronteiras. "O tema é importante e complexo em Espanha, onde também estamos a discutir ideias e a procurar soluções para melhorar a situação", diz Raquel Mallavibarrena, presidente da Comissão de Educação da Real Sociedade de Matemática Espanhola.
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(clique na imagem para ver o documento em formato PDF) O exercício é elementar. Mas em França também se pede aos alunos a leitura de gráficos igualmente simples, diz a APMEP |
Relativamente ao exame do 9.º ano, a especialista considera que o grau de dificuldade é equivalente ao das provas apresentadas aos alunos espanhóis da mesma idade. A questão, admite, é que não é fácil evitar o nivelamento por baixo devido "à indisciplina, ao número excessivo de alunos por turma e aos constrangimentos sociais e familiares".
As críticas relativamente a uma degradação da qualidade do ensino repetem-se no Reino Unido, onde está também instalada a controvérsia em torno dos exames. A prova de Física deste ano, por exemplo, foi considerada ridiculamente fácil por vários especialistas, que lamentaram que não fosse exigido aos estudantes um único raciocínio mais elaborado.
Mas o problema não é de fácil solução. "O que fazer quando nos apercebemos que a maioria dos alunos não consegue dominar os conhecimentos que se tinham definido como essenciais?", questiona Daniel Duverney. Não é sustentável que uma sociedade aceite uma taxa de insucesso de 50% ou mais no exame final da escolaridade obrigatória, defende.
Por isso, as provas são concebidas para que a percentagem de aprovações seja satisfatória. Em relação ao exame português, o membro da SFM aponta seis questões que considera "muito fáceis" para os alunos que têm um nível razoável em Matemática. "Mas esses exercícios estão certamente adaptados ao nível de uma grande parte dos alunos de 15 anos, os que têm dificuldades na disciplina".
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(clique na imagem para ver o documento em formato PDF) A SPM diz que a pergunta 6 está ao nível do 3º ano. Os alunos franceses fazem exercícios parecidos, mas não têm as soluções |
Em França, a própria legislação dos exames fixa a priori uma taxa ideal de sucesso de 85% e 80% nas provas do básico e secundário, explica. O mesmo acontece em outros países, incluindo Portugal, ainda que de forma mais ou menos assumida, assegura o especialista francês. Os governos preocupam-se mais em controlar as taxas de sucesso, as reprovações e os fluxos de alunos dentro do sistema do que com o nível de formação. Até porque "os chumbos saem caro".
Em Portugal, o Ministério da Educação garante que não existem metas de sucesso previamente estabelecidas para os exames e rejeita qualquer intervenção do poder político no processo. Quanto ao grau de dificuldade das provas, o Gabinete de Avaliação Educacional esclarece que este é definido de forma a que "os alunos com as competências básicas requeridas sejam aprovados".
A questão é saber se esse nível de exigência é suficiente para formar cientistas, engenheiros e técnicos de qualidade. Salientando que a formação de base é a mais importante na Matemática, devido ao carácter piramidal da disciplina, Daniel Duverney deixa o alerta: "É provável que não".
Frases
"É compreensível que a Sociedade Portuguesa de Matemática esteja chocada porque
o nível é baixo"
Daniel Duverney, membro da Société Mathématique de France
"Uma das grandes áreas que ensinamos em França no mesmo ano parece faltar (no exame): cálculo algébrico e funções"
Pascal Pombourcq, Presidente da Association des Professeurs de Mathématiques de L'Enseignement Public
"Os conteúdos correspondem basicamente ao que um aluno espanhol aprende"
Raquel Mallavibarrena, Presidente da Comissão de Educação da Real Sociedad Matemática Española
Melhoria espectacular
Nunca em toda a história dos exames do secundário a média a Matemática foi positiva. Até 2008, quando não só ultrapassou a barreira dos 10 valores como atirou a disciplina para o topo das classificações, entre as provas com mais inscritos. Tanto a Associação de Professores de Matemática como a Sociedade Portuguesa de Matemática fizeram questão de salientar que a subida das notas não reflectia uma melhoria das aprendizagens dos alunos. Os resultados têm vindo sempre a subir desde 2006. Os chumbos à disciplina, que chegaram a atingir um em cada três estudantes, são agora residuais.
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Junho de 2009