Manuel Alegre já começou a arrumar a papelada para deixar o Parlamento. "Não tenho condições para rever a minha posição e não serei candidato a deputado pelo PS", afirmou ao Expresso.
Isto apesar de José Sócrates ainda não ter desistido de o convencer - na semana passada esteve para haver mais um almoço entre ambos - e de o próprio Manuel Alegre reconhecer que as eleições europeias mudaram muita coisa e que "as próximas eleições serão marcadas por uma ofensiva ideológica de direita".
Entre a direita e o PS, Manuel Alegre apoia o seu partido de sempre - "não quero a vitória do PSD e se puder fazer algo para o evitar, farei.
Porque entre o PS e a direita, apesar de tudo sou pelo PS", diz - mas é indisfarçável que não se sente motivado a dar o corpo ao manifesto além do obrigatório. O PS é o seu partido. Mas José Sócrates não é o seu líder.
Ir a um comício, fazer uma declaração pública, dar uma entrevista - há várias fórmulas possíveis para Manuel Alegre cumprir os mínimos antes do campeonato de Setembro. E é certo que o fará.
A menos que "algo de anormal aconteça", o poeta sabe que tem que ser leal (ainda que crítico) com o partido onde decidiu permanecer. Porque só assim poderá sonhar com uma candidatura presidencial em nome (e com o apoio) de toda a esquerda; e só assim manterá o poder de influência dentro do PS, que muitos consideravam ser um mito mas que a actual legislatura provou ser real.
O seu apoio ao Partido Socialista pressupõe, no entanto, o cumprimento de alguns pressupostos. A começar pela inclusão nas listas de deputados de alguns dos seus apoiantes.
Sucessão de José Sócrates já é tema
Qualquer que seja o resultado das legislativas, Manuel Alegre já tem a cabeça a trabalhar no day-after. Se José Sócrates perder, tentará condicionar os cenários da sucessão (que começaram a ser pensados no PS na noite da derrota nas europeias); e se Sócrates ganhar, não sendo crível uma maioria absoluta, Alegre quererá influenciar as soluções de Governo.
"Posso ajudar a forçar o diálogo à esquerda, nem que sejam acordos pontuais", assume o poeta. Que sobe de tom só de pensar que o líder do seu partido poderá ceder a entendimentos com o CDS ou o PSD. "Farei pressão com todas as minhas forças para evitar isso. Porque se isso acontecer há uma ruptura no PS", afirmou ao Expresso.
Este aviso pré-anuncia reboliço interno se os socialistas ganharem por pouco as eleições de 27 de Setembro. Manuel Alegre não esconde que, se assim for, "alguma coisa vai ter que mudar". E o título do artigo que decidiu publicar esta semana no Expresso diz isso mesmo: 'É preciso acordar'.
À primeira vista, Manuel Alegre fala para o momento actual. Mas quando confessa já "não ter ilusões" sobre o "sobressalto" que na sua opinião se exigiria à esquerda para as próximas legislativas, o poeta está a falar sobretudo para o novo ciclo que se abre a 28 de Setembro.
Mesmo que seja com José Sócrates, ele sabe que o "animal feroz" não será o mesmo. E espreita, indisfarçavelmente, a oportunidade. Um (previsível) governo de maioria relativa reforçará a sua margem de manobra, bem como a de Cavaco Silva, com quem poderá medir forças em 2011.
Entre os fiéis de Sócrates, as presidenciais dão argumentos para tentar condicionar Manuel Alegre. A lógica é simples: se quiser avançar para Belém em condições de federar a esquerda, o poeta não pode brincar com o PS. E por vontade dos homens das distritais, Sócrates nem teria tanta paciência com o poeta.
"Se quer continuar no partido, Manuel Alegre tem obrigação de fazer connosco o combate das legislativas", assume José Junqueiro, presidente da distrital de Viseu e dirigente do grupo parlamentar. Em declarações ao Expresso, Junqueiro avisa que "não podemos ser guardiães dos princípios e depois não assumirmos as nossas responsabilidades".
Num tom mais diplomático, Augusto Santos Silva, dirigente de primeira linha do partido, diz acreditar que a decisão de Manuel Alegre "não é irreversível". E acrescenta: "O natural é que qualquer pessoa que seja convidada para as nossas listas dê a sua resposta em função do que nos propomos fazer nos próximos quatro anos. E o nosso programa eleitoral não será uma repetição do passado porque, no essencial, as reformas que provocaram feridas estão feitas".
José Sócrates tentou dizer o mesmo num jantar com deputados: que a sua grande aposta são agora as políticas sociais e que, essas sim, farão a diferença com o PSD. O pior é que Sócrates também disse que parte para as eleições "para defender as reformas feitas nesta legislatura" (Código do Trabalho incluído).
E é aqui que o caldo continua entornado. Manuel Alegre não entende, aliás, "como é que alguém de esquerda se aconselha com o Júdice, o Mexia ou o Carrapatoso". Por estas e por outras, ele não se admiraria nada se "um país maioritariamente de esquerda" acabasse "uma vez mais, governado pela direita".
Um imbróglio fora de horas
A decisão de José Sócrates de proibir os candidatos a presidente de Câmara de se candidatarem às legislativas foi um balde de água fria no grupo parlamentar do PS. A proibição de duplas candidaturas foi comunicada aos líderes das federações distritais, como consequência da polémica levantada nas europeias pelos casos de Ana Gomes e Elisa Ferreira - mas não se aplica nem a uma nem a outra.
Os presidentes das federações foram apanhados de surpresa e, embora nenhum discorde do princípio, vários contestaram a mudança de regras a meio do jogo - em particular aqueles que convenceram deputados a candidatarem-se, no pressuposto de que também seriam candidatos ao Parlamento. Renato Sampaio, Mota Andrade, Joaquim Raposo e José Junqueiro discordaram do timing da decisão, que, segundo soube o Expresso, também apanhou de surpresa o líder parlamentar, Alberto Martins.
Quinze deputados são apanhados pela mudança de regras e esta semana foi notório o mal-estar na bancada pela "falta de lealdade" de José Sócrates, nas palavras de um deles. Publicamente, dividiram-se entre o silêncio e as críticas ao modo como tudo aconteceu. Sónia Sanfona (Alpiarça) e Leonor Coutinho (Cascais) foram as primeiras a contestar aquilo que Vítor Pereira (Covilhã) classifica como "decisão extemporânea". Helena Terra (Oliveira de Azeméis) considera o timing "pouco curial" e Miguel Ginestal (Viseu) nota que "teria sido preferível esta regra ter ficado definida no congresso, para haver regras iguais em todas as eleições" - opinião partilhada por muitos.
Segundo o Expresso apurou, Miranda Calha, coordenador autárquico, ajudou a convencer alguns candidatos a Câmaras difíceis com o pressuposto de que poderiam continuar em São Bento em caso de derrota. Questionado pelo Expresso, Calha rejeita essa responsabilidade: "Tratei das listas autárquicas, não das listas às legislativas ou às europeias."
Filipe Santos Costa
Actualização de texto publicado na edição do Expresso de 11 de Julho de 2009