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Presidenciais Egípcias. Uma dúzia de candidatos.

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
2:38 Quarta feira, 23 de maio de 2012

Actual Parlamento Egípcio. A azul o Partido Liberdade e Justiça (Irm. Muç.) e a vermelho o Partido Al-Noor (salafista). O desafio nestas eleições presidenciais é não se colocarrem todos os ovos no mesmo cesto e eleger-se um candidato que contraponha o peso deste Parlamento, começando pela redacção da próxima Constituição, que definirá os poderes daquele que será agora eleito Presidente.
Actual Parlamento Egípcio. A azul o Partido Liberdade e Justiça (Irm. Muç.) e a vermelho o Partido Al-Noor (salafista). O desafio nestas eleições presidenciais é não se colocarrem todos os ovos no mesmo cesto e eleger-se um candidato que contraponha o peso deste Parlamento, começando pela redacção da próxima Constituição, que definirá os poderes daquele que será agora eleito Presidente.
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Após um processo selectivo, no qual foram eliminadas algumas candidaturas (ver artigo de 09.04), eis que se chega aos dias das primeiras eleições presidenciais do pós-regime Mubarak, 23 e 24 de Maio.

Da dúzia de candidatos, convém reter-se sobretudo os seguintes nomes:

Abdel Moneim Aboul Fotouh, candidato independente, médico, Secretário-Geral da União Médica Árabe, ex-membro do Gabinete d'Orientação da Irmandade Muçulmana (IM), tem como mote da sua campanha a educação e o facto de reservar 40% do orçamento egípcio para esta rúbrica. Pugna por um Islão moderado, tendo um discurso que tenta atingir o mainsteam egípcio e a verdade é que entre os 100.000 voluntários que tem a trabalharem na sua campanha, tem desde salafistas a laicos, passando por cristãos coptas, membros activos da IM e outros sectores da sociedade egípcia.

As razões pelas quais cindiu com a IM, devem-se sobretudo a dois factores. Defende que a Irmandade não deve ter um braço político, devendo dedicar-se em exclusivo à obra social. Por outro lado, também defende que a IM deverá legalizar-se e marcar assim uma ruptura com o passado e tornar-se uma organização tranparente, sobretudo relativamente a quem é quem dentro da organização, bem como à gestão dos dinheiros.

Mohamed Morsy, Secretário-Geral do Partido Justiça e Liberdade, o braço político da Irmandade Muçulmana, é o candidato desta "confraria", da qual também já foi membro do Gabinete d'Orientação. Surge em substituição do Vice-Guia Supremo da Irmandade, Mohamed Khairat Saad El-Shater, aparentemente saneado desta eleição por não ter o cadastro limpo. Sujou-o nos tempos de Mubarak e certamente que muitos dos que o meteram na cadeia desde 2007 até Março de 2011, serão os mesmos que o impediram agora de se candidatar.

O mote da campanha de Morsy traduz-se por Ennahda, Renascimento, um conceito muito caro a todos aqueles que apelam a um regresso às raizes, para depois desabrocharem numa fonte de rejuvenescimento colectivo. Esta ideia da correcção, do processo de reacertar a mira, é muito querido a qualquer islamista, consciente da imperfeição do Homem e da necessidade da passagem por este processo, no caminho da "perfeição" e de uma maior proximidade entre a Criatura e o Criador.

Amr Mussa, candidato independente, ex-Secretário Geral da Liga Árabe de Junho de 2001 a Junho de 2011, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros de Hosni Mubarak de 1991 a 2001 e o homem que a 28 de Janeiro do ano passado, a Sexta-feira da Raiva, enfiou Mohamed El Baradei num chinelo, ao misturar-se com a multidão na Praça Tahrir, enquanto este falava às grandes cadeias televisivas internacionais, do conforto do jardim de sua casa, sobre as suas intenções em se candidatar a Presidente do Egipto. Baradei não chegou se quer a ser candidato.

É precisamente no ponto da experiência e prestigio internacionais, que acenta o mote da campanha de Mussa, o qual também diz que conseguirá reduzir drasticamente o desemprego.

Ahmed Shafik, candidato independente, Comandante da Força Aérea Egípcia e o último Primeiro-Ministro de Hosni Mubarak. Este candidato é claramente apoiado por figuras ligadas ao regime do "Último Faraó", o que levanta fortes resistências e desconfianças na população. O mote da sua campanha, neste momento de escatologia primaveril em que tudo se pode dizer, é um prático "Acções e Não Palavras!"

O próximo Presidente da República Árabe do Egipto, tem que garantir três coisas aos militares do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA). Que a paz com os israelitas não será denunciada (Acordos de Camp David), em segundo garantir aos militares que hipotéticas futuras privatizações em vários sectores da economia não farão demasiadas interferências com os seus interesses pessoais e corporativos, já que os militares controlam cerca de 40% da economia do país. Por último, que o dossiê Processo de Paz Israelo-Palestiniano continurá a ser gerido pelo Serviço Geral de Inteligência do Egipto (SGIE).

O CSFA, por via das dúvidas, mantém a seguinte carta na manga. O Egipto, de momento, vive sem Constituição, pelo que aquele que virá em breve a ser eleito (2ª volta a 16 e 17 de Junho) Presidente, não faz ainda ideia de quais serão os seus poderes, nem qual será o sistema de governo, sendo que começa a ser consensual que o país rejeitará à partida um Presidencialismo rigido, como o que teve desde o Golpe d'Estado dos Oficiais Livres. Por outro lado, a Comissão da Constituinte, será constituida por 100 deputados no sentido proporcional ao peso de cada partido com assento parlamentar. Ora o Partido Justiça e Liberdade da IM e o Partido salafista Al-Noor, representam 70% da Assembleia. O que o CSFA quer evitar a todo o custo, é uma situação em que todos os ovos sejam colocados no mesmo cesto, pelo que o próximo Presidente egípcio terá de sair de um acordo entre votos, militares e o próprio candidato.

Pessoalmente, aposto numa segunda volta entre Abdel Moneim Aboul Fotouh e Amr Moussa, o que também garantirá logo à partida uma outra condição fundamental para a ruptura com uma prática já consuetudinária neste país. A de o próximo Presidente ser, pela primeira vez desde 1952, civil e não militar.

Restantes candidatos:

- Hamdeen Sabahi , Independente;

- Mohammad Salim Al-Awa , Independente;

- Khaled Ali , Independente;

- Hisham Bastawisy , Partido Unionista Nacional Progressivo (Tagammu);

- Abu Al-Izz Al-Hariri , Partido da Aliança Popular Socialista;

- Abdulla Alashaal , Partido Autenticidade;

- Mahmoud Houssam , Independente;

- Houssam Khairallah , Partido da Paz Democrática.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

N.B. Para aceder à Versão em Árabe, clique no título em português e depois desça até ao fim da nova página que entretanto abriu. Em "Relacionados" encontrará PDF Click to see Arabic Version (Versão Árabe).

A Argélia Pós-Eleitoral

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
17:42 Sábado, 19 de maio de 2012

Talvez esta imagem ilustre melhor a proximidade, a importância e a dependência que temos dos recursos energéticos argelinos. A não esquecer, sobretudo a cada duche com água quente!
Talvez esta imagem ilustre melhor a proximidade, a importância e a dependência que temos dos recursos energéticos argelinos. A não esquecer, sobretudo a cada duche com água quente!
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Uma semana após as eleições legislativas do dia 10, o debate na Argélia faz-se em torno da transparência das mesmas e respectivos resultados.

Pessoalmente, não me espanta que a Frente de Libertação Nacional (FLN), do Presidente Abdelaziz Bouteflika, tenha tido a votação expressiva que teve, já que estas eleições permitiram, sobretudo, julgar a gestão que o regime efectuou da "Primavera Árabe".

E se as coisas ao nivel internacional correram mal para a Argélia, fruto do apoio incondicional dado à Líbia de Kadhafi, enquanto este resistia às investidas da NATO, ao nivel interno, as coisas correram bastante bem a Bouteflika e ao seu regime.

Não conseguiu evitar demonstrações violentas do descontentamento popular, mas conseguiu evitar que essas imagens passassem para o exterior. Há 2 meses, um Chefe de Polícia referia que durante o último ano foram contabilizadas 9.410 manifestações violentas em todo o território, das quais resultaram mortos e feridos (números desconhecidos). Não se pode dizer que a situação seja totalmente calma e tranquila.

No entanto, logo após as quedas de Ben Ali e de Hosni Mubarak, Bouteflika aumentou os ordenados dos funcionários públicos em cerca de 10% (voltou a fazê-lo em Janeiro deste ano), bem como garantiu e aumentou as subvenções aos bens de primeira necessidade, acrescentado o açucar e o óleo vegetal à lista já existente e que continha o leite, o pão e demais legumes secos. De tal forma, que o Banco Central argelino teve que criar uma nova nota de 2.000 Dinares (a mais alta que tinha era de Mil) para poder responder aos novos compromissos assumidos.

Por outro lado, a Argélia tem vindo a negociar com os Clubes de Paris e Londres, desde 2005, o pagamento da sua dívida externa, a qual é praticamente residual de momento (será inferior a 500 milhões de dolares). Em paralelo, tem optado por não recorrer aos empréstimos externos, livrando-se assim cada vez mais da tutela e controlo de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), incentivando ao mesmo tempo o investimento nacional, de argelinos na Argélia.

Do ponto de vista pessoal, o cancro no estômago de que o Presidente Bouteflika padece, tem regredido substancialmente, não se prevendo alteração de data para as presidenciais de 2014.

Estes factores, juntamente com o facto de ser a face visivel da guerra contra os islamistas (1992/2002) e, da respectiva paz, colocam-no, de facto, num pico de popularidade sem precedente perante os seus.

Do outro lado, sobretudo da visão e da opinião de quem se encontra no exílio, a Argélia é gerida pelo "Gabinete Negro", encabeçado pelo General Mohamed Mediène, mais conhecido por Taoufiq, o Director do Département du Renseignement et de la Securité (DRS), desde 1990, os Serviços Secretos Militares. Segundo a oposição, quer laica, quer islamista, é este Gabinete que nunca esteve sujeito ao escrutínio público, que tudo controla no país, sobretudo as decisões tomadas pelo Presidente, quer aos niveis político, quer económico.

As razões apontadas por estes criticos de que um "Tsunami Popular" está prestes a acontecer na Argélia, consubstanciam-se no número de manifestações violentas contabilizadas em 2011, 9.410, no número de auto-imolações também contabilizadas o ano passado, 130, na taxa de desemprego dos jovens, a qual ultrapassa os 40%. Dois terços de uma população de mais de 37 milhões de argelinos, tem menos de 35 anos e será este o futuro de um país que há muito aguarda por uma mudança geracional e que vem sendo gerido por aquilo que se tem vindo a transformar numa gerontocracia. Abdelaziz Bouteflika, por exemplo, foi Ministro da Juventude e do Desporto em 1962. 50 anos depois, ainda mexe, tendo atingido o topo da carreira, sendo estes mesmos militares que ocupam as direcções gerais das empresas públicas, que por sua vez consomem, ou fornecem, empresas privadas criadas pelos filhos e netos.

Quanto aos resultados eleitorais, de referir a escassa taxa de participação, a qual rondou os 43%, o que reforça o que ficou implicito anteriormente. Ou seja, os argelinos sabem que quem verdadeiramente governa o país é o Gabinete Negro e que os resultados eleitorais pouco importam nos planos traçados por estes para o país.

Dos 462 deputados a eleger, a Frente de Libertação Nacional (FLN) conquistou 221 (mais 85 que em 2007), o Rassemblement National Démocratique (RND), elegeu 70 (mais 9 que em 2007) e a Aliança Argélia Verde (AAV), uma coligação islamista composta pelo Mouvement de la Société pour la Paix (MSP), pelo El Islah (a Reforma) e pelo Ennahda (Renascença), elegeu 47 deputados, menos 13 que o conjunto destas formações em 2007, as quais não estavam coligadas. De referir que o MSP fez parte desde 2007 até Janeiro deste ano, da chamada Aliança Presidencial, a qual constitui Governo nos últimos 5 anos e que foi formado pelo FLN, RND e MSP.

O facto do MSP ter feito parte da Aliança Presidencial e ser de momento um dos grandes criticos dos resultados eleitorais, significa que se tratam de islamistas  integrados no jogo político e que muito terão a perder, caso mobilizem a rua. Ou talvez não, no cenário de exclusão social descrito anteriormente, talvez seja sedutora a ideia de uma fuga para uma frente de subversão, a qual abarcará transversalmente árabes, berbéres, urbanos, rurais, pobres, remediados, mas também endinheirados, mais uma classe de inimigos criada por estes regimes, por via de constantes prejuizos nos seus negócios, pela clique de militares que comanda a economia do país. Na verdade, a grande frustração desta nova classe d'inimigos, não é o dinheiro que perdem, mas sim o que não os deixam ganhar.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

N.B. Para aceder à Versão em Árabe, clique no título em português e depois desça até ao fim da nova página que entretanto abriu. Em "Relacionados" encontrará PDF Click to see Arabic Version (Versão Árabe).

 

ENGLISH VERSION

 

Post-Electoral Algeria

One week after the legislative elections on the 10th, the debate in Algeria goes around its transparency, plus results.

Personally, I don't see a big surprise in President's Abdelaziz Bouteflika National Liberation Front (FLN) expressive victory, since these elections judged the way the regime managed the "Arab Spring".

And if things didn't go well internationally to Algeria, in result of its unconditional support to Kadhafi's Libya, internally things went quite well to Bouteflika and his regime.

It was impossible to avoid a violent popular uprising, but it was possible to control the footage which was leaving the country. Two months ago, a Police Chief referred that during the last year, 9.410 violent demonstrations were registered in the whole territory, with dead and injured (unknown numbers). Somehow, it's impossible to consider that the situation is completely calm and under control.

However, right after the falls of Ben Ali and Hosni Mubarak, Bouteflika raised public servants wages around 10% (he did it again on January this year), as well as guarantied and raised subventions to staple goods, adding sugar and vegetable oil to the already existing list containing milk, bread and other dry vegetables. This had such an impact, that the Central Bank had to came up with a new 2.000 Dinars bill (the highest was 1.000 Dinars) to face its news obligations.  

On the other hand, Algeria has been negotiating with Paris and London Clubs, since 2005, the payment of its external debt, which is basically residual (might be less than 500 million dollars). It also opted to avoid external loans, keeping away the control of institutions like the International Monetary Fund (IMF) plus, encouraging national investment of Algerians, in Algeria.

From the personal point of view, President's Bouteflika stomach cancer has been regressing substantially, making possible, so far, to maintain the next Presidential election date to 2014.  

All these facts, together with being the most visible face of the war against islamists (1992/2002) and subsequent peace, places the President in an unprecedented popularity peak at the eyes of algerians.

From another perspective, mainly the vision and opinion of those in exile, Algeria is managed by the "Black Cabinet", headed by General Mohamed Mediène, alias Taoufiq, the Director of the Département du Renseignement et de la Securité (DRS), since 1990, the Military Secret Services. According with opposition, whether secular or islamist, this cabinet, never subjected to public scrutiny, is the one which really controls the country, mainly the decisions taken by the President, whether political or economical.

The reasons pointed by these critics, on a possibility of a "Popular Tsunami" to happen in the next days, is based on last year's violent demonstrations, 9.410, on last year's self-immolations, 130, in the unemployment rate amongst the youth, more than 40%. Two thirds of a 37 million population is less than 35 years old. The future of the country awaits for a generational change, being ruled for what became a gerontocracy. Abdelaziz Bouteflika, for instance, was Minister of Youth and Sports in 1962. 50 years later, stills moving and the same happens with other military who head public companies, which consume, or furnish private companies, created by their own sons and grandsons.

Concerning the electoral results, to highlight the weak voting rate, which rounded 43%, reemphasizing what was said before. In other words, algerians know that who runs their country is the Black Cabinet and that electoral results won't matter much towards national policies.    

Of all the 462 MPs to be elected, the National Liberation Front (FLN) conquered 221 seats (85 more than in 2007), the National Democratic Rally (RND), elected 70 candidates (9 more than in 2007) and the Green Algeria Alliance (AAV), an islamist coalition between the Movement of Society for Peace (MSP), El Islah (The Reform) and Ennahda (Renaissance), elected 47 candidates, 13 less than the sum of these 3 parties in the 2007 results, which were not allied. Important to point out, that the MSP was part of the Presidential Alliance since 2007, until January this year, the Government for the last 5 years, which included FLN, RND and MSP.

The fact that the MSP was part of the Presidential Alliance plus, being for the moment one of the main critics of the electoral results, means these islamists are integrated in the local political game and have a lot to lose in case they decide to mobilize the street. Or maybe not. In the described scenario of social exclusion, insisting on a subversive front might became highly seductive, especially knowing that it will gain transversally arabs, berbers, urbans, rurals, poor, middle class, but also "moneyed" people, another class of enemies created by these regimes, caused by the constant losses in business, in an economy ruled by the military. To be more accurate, the big frustration amongst this new class of enemies is not the money they lose, but the money the system doesn't allows them to win.  

 

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O Sudão de Cima e o Sudão de Baixo

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
3:43 Quarta feira, 25 de abril de 2012

A dependência de um Sul rico em petróleo, face às infra estruturas do Norte, é bem patente na imagem. A solução "pipeline" via Quénia, levará pelo menos 3 anos a ser construido.
A dependência de um Sul rico em petróleo, face às infra estruturas do Norte, é bem patente na imagem. A solução "pipeline" via Quénia, levará pelo menos 3 anos a ser construido.
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Nove meses após a independência do Sudão do Sul, o inevitável aconteceu. O Norte islâmico, de Omar Al-Bashir, declarou guerra ao secessionista Sul cristão, de Salva Kiir. A equação é simples, tem petróleo, sendo também, de certa forma, mais uma das consequências da queda do regime de Muammar Kadhafi.

Quanto ao petróleo, a maioria das reservas encontra-se no actual território do Sudão do Sul, mas o escoamento para os mercados está dependente dos pipelines e das refinarias do norte, que ligam esta região Sul ao Mar Vermelho.

Quanto à queda do regime de Kadhafi, fez com que rebeldes do Movimento pela Justiça e Igualdade (MJI), um dos muitos grupos de mercenários a soldo do regime do Coronel, regressasse ao Sudão, país d'origem, carregados d'armas, experiência de combate e de caixas de dinheiro, onde são membros da Frente Revolucionária do Sudão (FRS), a qual federa todos os grupos (lista completa no final*) que combatem o governo central de Cartum, no Darfur e, a sua milícia Janjaweed. A FRS, para além do Darfur, também actua na região do Kordofão do Sul (no Sudão "do Norte"), rica em petróleo, na linha de fronteira entre os dois países, sendo aliada do Exército do Sudão do Sul.

Foi aliás esta a razão invocada por Omar Al-Bashir, para Cartum declarar guerra a Juba. O Sul anda a fomentar e a apoiar grupos rebeldes no Norte, hostis a Cartum, disse.

Do ponto de vista da geopolítica, a China aparece como o principal player regional, já que 60% do petróleo sudanês (antes da secessão) é comprado por este Estado, sendo que 90% da antiga produção total está no actual Sudão do Sul e, 75% desta na região fronteiriça de Heglig, agora em disputa e que o Sul diz pertencer ao Estado de Warrap e o Norte, ao Estado do Kordofão do Sul.

Salva Kiir, em visita à China de 24 a 28 de Abril (entretanto interrompida a 25, devido ao agravar da situação), tenta convencer um aliado do Sudão de Omar Al-Bashir, há mais de 20 anos, a mudar a agulha, o que deverá ser uma tarefa quase impossível, apesar das reservas no Sudão do Sul. A China trata-se do primeiro parceiro económico do Sudão "do Norte", do país que equipou militarmente Cartum na 2ª guerra civil (1983/2005) contra o Exército Popular de Libertação do Sudão (EPLS), que lutava pela secessão do Sul e, a China, também não permitiu o isolamento diplomático do "Norte", aquando da acusação, em 2009, de genocídio no Darfur (ao Presidente Omar Al-Bashir) pelo Tribunal Penal Internacional.

O argumento, certamente apresentado por Kiir, que se baseia no acordo com o Quénia, de construção de um pipeline que desaguará no porto de Lamu, no Índico, não deverá convencer, já que levará no mínimo uns 3 anos a construir, para além de actualmente o orçamento do Sul se encontrar 98% dependente da venda de petróleo.

Apesar de tudo isto, a China, sem dúvida que se apresenta como o Estado com maior influência para pressionar um entendimento entre ambos os Estados, para que também possa continuar a beneficiar dos fluxos do petróleo do Sul, que entretanto deixaram de chegar a Porto Sudão, no Mar Vermelho, desde Janeiro. O Sudão do Sul fechou a torneira por via de um desentendimento com o "Norte", a propósito de pagamentos, sendo que este deixou de fornecer víveres ao Sul, dos quais depende em 70%.

Do lado oposto, o Sudão "do Norte", tem os apoios políticos e financeiros da Arábia Saudita e do Qatar, sendo que esta situação de casus belli certamente terá repercursões noutros cenários também recentemente criados pela queda do regime de Kadhafi e não só, como por exemplo "nos nortes" da Nigéria, do Niger, do Mali, da Costa do Marfim, mas também na Somália.

*A FRENTE REVOLUCIONÁRIA DO SUDÃO (FRS), é uma coligação de grupos rebeldes nas províncias/estados do Darfur, Kordofão do Sul e Nilo Azul:

- Movimento pela Justiça e Igualdade (MJI);

- Movimento de Libertação do Sudão (MLS);

- Movimento de Libertação do Povo do Sudão, Sector Norte (MLPS-N).

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

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ENGLISH VERSION

 

Upper Sudan and Low Sudan

Nine months after South Sudan's independence, the inevitable happened. Omar Al-Bashir's islamic north declared war to christian secessionist south, of President Salva Kiir. The equation is simple, has oil, being also, in a way, another consequence to add to the fall of the Muammar Kadhafi's regime.

Concerning oil, most part of the reserves is in the territory of South Sudan, but to flow it out to the markets, it's dependent on the north's pipelines and refineries, which link the south to the Red Sea.

Concerning the fall of the Kadhafi regime, it made the Justice and Equality Movement (JEM) rebels, one of the many Colonel's mercenaries groups, to return to Sudan, their country of origin, where they're members of the Sudan Revolutionary Front (SRF), which federates all the groups (complete listing at the end*) fighting Khartoum's central government, in Darfur and, its Janjaweed militia. The SRF, besides Darfur, also fights in the South Kordofan (in "Northern" Sudan), rich in oil, on the border line between the two countries, being an ally to South Sudan's Army.

In fact, this was the reason invoked by President Omar Al-Bashir, for Khartoum to declare war on Juba. The south is promoting and supporting rebel groups in the north, hostiles to Khartoum, he said.

From the geopolitics perspective, China appears as the main regional player. 60% of the sudanese oil (before the secession) is bought by this State, being 90% of the total prior production in current South Sudan and 75% of it in the Heglig border region, now in dispute and which the South says it belongs to the State of Warrap and the North says it belongs to South Kordofan.

Salva Kiir, in visit to China from April 24th until the 28th (cut short to the 25th, due to the increasing crisis), is trying to convince an Omar Al-Bashir ally for more than 20 years, to change attitude, which might be an almost impossible task, although most of the oil is in South Sudan. China is Sudan's main economical partner, is the country which equipped militarily Khartoum in the 2nd civil war (1983/2005) against Sudan People's Liberation Army (SPLA), fighting for the south's secession and, it's also China who doesn't allow the "North's" diplomatic isolation when President Al-Bashir is accused of genocide in Darfur, by the International Criminal Court, in 2009.

The argument, certainly used by Kiir, based on an agreement with Kenya, for the construction of a pipeline which will flow its oil to Lamu's port, in the Indian Ocean, won't probably convince the chinese, because the construction will take at least 3 years and the South's public budget is also 98% dependent on oil revenues.

Besides all that, China presents itself as the State with bigger weight to pressure an agreement between the two countries, so it can keep on benefiting from the flux of oil coming from the South, which stopped flowing since January, to Port Sudan in the Red Sea. South Sudan, closed the tap on a disagreement about fees and the "North", stopped supplying food, which the South depends on 70%.  

On the opposite side, "North" Sudan has the political and financial support from Saudi Arabia and Qatar. This state of war between the two sudans, will certainly have repercussions in different scenarios recently created by the fall of the Kadhafi's regime and others, such as the norths of Nigeria, Niger, Mali, Ivory Coast and also Somalia.

*SUDAN REVOLUTIONARY FRONT (SRF) is a coalition of rebel groups in the provinces/states of Darfur, South Kordofan and Blue Nile:

- Justice and Equality Movement (JEM);

- Sudan Liberation Movement (SLM);

- Sudan People's Liberation Movement-Northern Sector (SPLM-NS).

 

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A Nova Tunísia

Júlio de Magalhães, em Lisboa (www.expresso.pt
12:38 Domingo, 15 de abril de 2012

Christian Giudicelli
Christian Giudicelli
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O romancista, dramaturgo e crítico literário francês Christian Giudicelli (Prémio Renaudot 1986), acabou de publicar um interessante livro sobre a Tunísia, Tunisie, saison nouvelle, onde regista as impressões da sua mais recente visita àquele país, em Junho último, a primeira depois da queda do regime de Ben Ali.

Conhece bem o autor a Tunísia, que frequenta com assiduidade desde há duas décadas, e sobre a qual já escreveu um outro livro, Fragments tunisiens, editado em 1998. Por isso, a sua opinião sobre as mudanças ocorridas e a actual situação no país merece o maior interesse. O balanço de Giudicelli é prudente, não deixando de evidenciar o clima de liberdade que agora se respira, derrubada que foi a ditadura, mas acautelando-nos quanto às tentações do partido islâmico Ennahda, que viria a ganhar as eleições em Outubro do ano passado.

Como tive oportunidade de escrever, em ocasião anterior, sendo a Tunísia um país muçulmano, não deixa de ser, por isso, um estado mais ou menos laico, o mais laico dos países árabes, se me é permitida esta expressão. O modelo tunisino decorre do pensamento e da acção do seu primeiro presidente da República (1957) e pai fundador, Habib Bourguiba, que, em 1956, como primeiro-ministro do Bey, obteve a independência do país, até então um protectorado francês.

Conheceu a Tunísia um desenvolvimento progressivo (social, económico e cultural), no tempo de Bourguiba, que viria a ser afastado do poder, pelo seu primeiro-ministro Ben Ali, em 7 de Novembro de 1987, por alegada incapacidade mental. Este golpe de Estado palaciano, que ficou conhecido pelos tunisinos como changement, levaria imediatamente Ben Ali à presidência, por imperativos constitucionais, dado ser o chefe do Governo, e depois à sua eleição e sucessivas re-eleições como presidente, até à fuga para a Arábia Saudita, em 14 de Janeiro de 2011, na sequência da revolução no país.

Importa dizer que, apesar da supressão das liberdades políticas e da repressão de todas as manifestações consideradas contrárias ao regime, a Tunísia conheceu um progresso económico sob o consulado de Ben Ali, devido em larga medida ao incentivo ao turismo, que tornou o país num dos mais apetecíveis destinos do norte de África. Registou-se também um notável desenvolvimento na área do ensino e mantiveram-se, e até aumentaram (1993), os direitos das mulheres consagrados por Bourguiba no Code du Statut Personnel (1957), que instaurou em numerosos domínios a igualdade entre o homem e a mulher. Também no campo cultural se registaram importantes eventos e se adoptaram medidas de protecção ao património, apesar da manutenção de uma rigorosa censura aos órgãos de comunicação social.

A situação na Tunísia começou, todavia, a degradar-se após o segundo casamento de Ben Ali, em 1992, com Leila Trabelsi, tendo-se instalado um crescente clima de corrupção. A numerosa família de Leila Trabelsi apoderou-se de lugares chave da economia e, com a cumplicidade do presidente, começou a governar discricionariamente o país, permitindo-se todos os abusos e sobrepondo-se mesmo à acção do próprio governo. O descontentamento foi alastrando e a imolação pelo fogo, em 17 de Dezembro de 2010, do jovem Mohamed Bouazizi, constituiu o rastilho para o eclodir da revolta.

Tendo o exército recusado reprimir os manifestantes, com a consequente fuga do presidente, registaram-se várias peripécias a nível da governação, acabando por ser eleita, em 23 de Outubro passado, uma assembleia constituinte. A esperada vitória do partido Ennahda (Renascimento), embora por uma margem superior à prevista, tem provocado alguns receios na população urbana (a mais ocidentalizada), uma vez que, como todos os partidos islâmicos, seja orientação do Ennahda a introdução da religião na vida pública.

Em conferência recente na Universidade Católica, em Lisboa (15 de Fevereiro passado), o novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Rafik Abdessalem, procurou convencer a assistência que seriam garantidas todas as liberdades no país. Preconizou um caminho moderado, dando como maus exemplos a laicização forçada de Kemal Atatürk, na Turquia ou a islamização forçada, na actual República do Irão. É evidente que o Governo do primeiro-ministro Hammadi Jebali se esforçará por tranquilizar o Ocidente quanto a qualquer atitude hostil ao mesmo. E assegurada que seja uma posição política pró-ocidental, como parece ser o caso, e mantido o sistema de economia de mercado herdado do anterior regime, não serão as medidas "moralizadoras" que incomodarão especialmente a Europa e os Estados Unidos. Elas poderão incomodar, sim, se forem adoptadas, uma parte da população tunisina, já habituada a costumes mais livres, e eventualmente os turistas que voltem a deslocar-se à Tunísia, dado que urge ao actual governo recuperar a actividade turística, uma das principais fontes de receita do país e hoje, por motivos óbvios, em franca decadência.

Tem o líder do Ennahda, Rachid Ghannouchi, reafirmado estar fora de causa a introdução da sharia na nova Constituição da Tunísia. Mas as declarações e as atitudes de alguns ministros não deixam de provocar apreensão. Há pouco mais de duas semanas foram presos três jornalistas do jornal Attounisia, por este periódico ter publicado na primeira página a fotografia do jogador alemão de origem tunisina Sami Khedira a abraçar a namorada nua, ainda que a parte visível do corpo nada exiba de minimamente chocante. Também o ministro dos Direitos do Homem, Samir Dilou, considerou que "a homossexualidade é uma perversão" que deve "ser tratada medicamente", acrescentando na televisão, em 4 de Fevereiro passado que "eles (a comunidade LGBT) vivem como cidadãos mas devem respeitar as linhas vermelhas fixadas pela nossa religião, a nossa herança e a nossa civilização".

Existem também pressões para que as mulheres passem a usar véu, um hábito praticamente inexistente na Tunísia urbana, tendo-se já verificado incidentes nas universidades entre estudantes laicos e islamistas. Igualmente, estão previstas mais restrições à venda de bebidas alcoólicas, que já eram anteriormente proibidas em quase todos os locais, à excepção dos especificamente destinados a turistas.

Uma outra declaração que causou mal-estar, reportada pela revista francesa Le Nouvel Observateur (nº 2465), foi a do ministro do Ensino Superior, Moncef Ben Salem, de que o já referido Statut Personnel fora promulgado por Bourguiba por este ser judeu, e ter agido segundo as instruções do então primeiro-ministro francês, Pierre Mendès-France (esse realmente judeu), a pedido das forças sionistas.

Nas últimas semanas voltou a ser ventilada a possibilidade da alteração do artigo I da Constituição de 1959, que estabelece que "a Tunísia é um estado livre, independente e soberano, que a sua religião é o islão (...) e o seu regime a República". Os salafistas têm insistido na referência à sharia na lei fundamental, mas Rachid Ghannouchi reiterou, no passado dia 26 de Março, que "a Ennahda pensa que a redacção do artigo merece o consenso geral de todas as componentes da sociedade tunisina" e que "preserva a identidade islâmica e árabe do Estado". Milhares de pessoas tinham-se manifestado antes, no dia 20 (Festa Nacional da Tunísia), nas principais cidades, em defesa da manutenção do citado artigo e a favor de um estado laico.

Na primeira semana de Abril, os ciber-militantes tunisinos, pertencentes ao movimento dos "Anónimos", piratearam as caixas de correio electrónico do primeiro-ministro Hamadi Jebali e de outros ministros e informaram, através da divulgação de um vídeo, que tinham guardado uma parte das informações nelas contidas, mas que as tornariam públicas se o Governo não renunciasse à censura sobre a Internet e não respeitasse os direitos do homem e a liberdade de expressão.

Esperamos e desejamos que as declarações e atitudes que referimos constituam episódios isolados e não configurem uma deriva islamizante, que faria recuar a Tunísia - território onde floresceram civilizações notáveis - ao período pré-independência. É que a adopção de comportamentos "religiosos" não se faz apenas por imposição legal mas também por pressão social e seria incompreensível para todos os tunisinos que se bateram pela conquista das liberdades fundamentais, e por todos os estrangeiros que de alguma forma os apoiaram, assistirem à implantação de qualquer tipo de ditadura religiosa em substituição de uma ditadura laica.

 

Júlio de Magalhães escreve de acordo com a antiga ortografia

 

1

Síria, 12 de Abril, 6.00 a.m.

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
5:13 Quinta feira, 12 de abril de 2012

Este também é um Momento Annan
Este também é um Momento Annan
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A partir das 06h sírias é impreterível que as hostilidades cessem de ambas as partes, para que o programa de 6 pontos de Kofi Annan seja implementado no terreno. No caso do regime sírio, terá também que fazer recolher os militares e os carros de combate aos quarteis.

O que tem acontecido nos últimos dias, é que o regime tem insistido que é necessário que os "rebeldes" também cessem as hostilidades, exigindo garantias destes, para que por seu lado, possam proceder à retirada dos militares das ruas.

Muito provavelmente, o que acontecerá é o regime sírio cumprir com a sua palavra numa primeira fase e depois sob uma qualquer desculpa, ou muito provavelmente após uma qualquer indisciplina "rebelde", ganhar de novo razão para voltar a investir.

De momento, o regime sírio encontra-se numa fase bastante confortável. Já se percebeu que russos e chineses não vão deixar passar as propostas anti-Síria no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o próprio programa de 6 pontos não inclui a saída de Bashar Al-Assad da presidência, o Irão continua firme a financiar o regime, a resistência de Homs foi completamente abafada, não se tendo criado aí uma zona livre do restante território, nem se percebendo bem a quem entregar armas, caso se queira armar a oposição. Por outro lado, no passado dia 10, o regime efectuou um verdadeiro teste à Turquia e à NATO, ao ter disparado do seu lado da fronteira para um campo de refugiados sírios em território turco. Resultado, 2 mortos e 15 feridos, naquilo que poderia ter sido interpretado como um acto de guerra e accionado o artigo 5º da Aliança Atlântica. Poderia, mas naturalmente não foi.

E não o foi porque o actual status quo é francamente conveniente a toda a gente, com a excepção dos sírios. Posições extremadas como as da Arábia Saudita e do Qatar, os "Amigos da Síria", que defendem o armamento da oposição ao regime de Assad, são muito convenientes em público, mas na prática não interessam aos próprios que a defendem. Numa situação de conflito generalizado na região e consequente sectarização do mesmo, a Arábia Saudita estaria a braços com um leste xíita secessionista, como já está com o sul da província do Hijaz, xíita, que alinha com os hutís do norte do Iémen, há muito em guerra com o poder central de Saana. Num cenário destes, em que o Irão tudo faria para controlar ambas as margens do Golfo Pérsico, o pequeno Qatar seria também engolido neste estrangulamento sunita/xíita, deitando a perder a luta que o seu Emir encabeça neste momento por uma liderança e prestígio regional, bem como sobrevivência interna, entre problemas renais e irmãos e filhos enquanto príncipes herdeiros e ambições à sucessão.

Para já, os sírios são capazes de respirar por uns dias, mas em breve tudo voltará à normalidade do último ano e, por muito que custe a todos aqueles que acompanham a situação e com ela se preocupam, a verdade é que este continuará a ser considerado um conflito de baixa intensidade, apesar das imagens, apesar dos mais de 10 mil mortos contabilizados até ao momento.

PROGRAMA DE 6 PONTOS DE KOFI ANNAN

1) Compromisso do Regime em trabalhar com enviado da ONU, no sentido de se entender quais as aspirações e preocupações do povo sírio e respectiva nomeação de um interlocutor que trabalhará em conjunto com um grupo de trabalho exclusivamente sírio, inclusivo de todas as partes;

2) Compromisso de cessação de fogo e de urgente e efectiva supervisão da ONU na cessação de toda a forma de violência, de todas as partes, no intuito da protecção de civis e da estabilização do país;

3) Garantir um período diário de assistência humanitária de duas horas, a todo o território afectado;

4) Intensificar o ritmo e o grau da libertação de indivíduos arbitrariamente detidos, incluindo especialmente categorias de pessoas mais vulneráveis, bem como aqueles envolvidos em actividades políticas pacíficas;

5) Garantir a liberdade de movimentos por todo o país a jornalistas, bem como uma política de Vistos de entrada no país não discriminatória;

6) Respeito pela liberdade de associação e pelo direito a manifestações pacíficas, conforme a lei.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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Presidenciais egipcias: Na rota do Golpe Militar

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
15:38 Segunda feira, 9 de abril de 2012

Egipto, um país estratégico na encruzilhada Militar/Civil, Religioso/Secular
Egipto, um país estratégico na encruzilhada Militar/Civil, Religioso/Secular
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As 14h egipcias do domingo de Páscoa, marcaram o limite para a apresentação das candidaturas à respectiva eleição presidencial, que decorrerá a 23 e 24 de Maio, com uma provável segunda volta calendarizada para 16 e 17 de Junho.

As regras para a apresentação de candidaturas foram as seguintes: Os/as candidatos/as têm que ser egipcios/as, não podem ter dupla nacionalidade nem serem casados/as com um/a estrangeiro/a. A validação da candidatura também teve obrigatóriamente que ter o apoio de um número mínimo de 30 parlamentares, ou de 30 mil cidadãos eleitores egipcios.

Entre outros, os nomes mais sonantes e as principais polémicas, são as seguintes:

A Irmandade Muçulmana, que se tinha comprometido, aquando da sua arrebatadora vitória nas legislativas de Novembro/Dezembro, que não apresentaria nenhum candidato presidencial, acabou por apresentar a 31 de Março o nome do Vice-Guia Supremo da Irmandade, Mohamed Khairat Saad El-Shater. Muito provavelmente será desqualificado, sob a justificação de que não possui o cadastro limpo. Curiosamente, o mesmo foi sujo por ter sido detido pelo regime de Mubarak, tendo amargado na prisão desde 2007 até há um ano atrás, aquando da libertação em Março de 2011, pelo Conselho Superior das Forças Armadas (CSFA), herdeiro do regime que o deteve. A Irmandade, já veio a terreiro dizer que se El-Shater for desqualificado, tem outro candidato que o poderá substituir, não revelando ainda o nome.

Esta atitude da Irmandade, ao apresentar um candidato uma semana antes do final do prazo das candidaturas, deverá estar directamente relacionada com o facto de o CSFA também ter apresentado o seu candidato, o General Omar Suleiman, Vice-Presidente de Hosni Mubarak, por apenas 13 dias, os últimos do regime. Suleiman, figura de referência dos Serviços Secretos egipcios desde 1986, sendo a partir de 1993 o Chefe do Serviço Geral de Inteligência do Egipto (SGIE), liderou também nos últimos 10 anos o dossiê do Processo de Paz Israelo-Palestiniano. Ora este dossiê e a manutenção dos Acordos de Camp David, que garantem a paz entre o Egipto e Israel, são os assuntos charneira desta eleição, bem como do futuro da "revolução", neste país árabe. Neste sentido, Omar Suleiman é o candidato dos israelitas e, da mesma forma que a Irmandade apresentou um candidato presidencial após ter dito que não o fazia, também poderá denunciar Camp David, após já ter dito que não o fará. Nada nem ninguém garantem que não o faça.

Os salafistas do Partido Al-Noor, por seu turno, apresentaram Hazem Salah Abu Ismail, figura muito popular entre a população por se tratar de uma figura televisiva, com o seu próprio programa, onde veicula ideias como a necessidade de, precisamente, denunciar Camp David, baixar a idade do casamento para a puberdade, impôr a obrigatoriedade do véu nas mulheres, bem como separá-las dos homens nos locais de trabalho. Deverá ser desqualificado, pois é descendente de uma americana. Já o desmentiu, dizendo que a sua mãe apenas era possuidora de um Green Card (Cartão de Residente), mas a 05 de Abril, o Ministério do Interior confirmou a cidadania americana de sua mãe.

O laico Ayman Nour, fundador do Partido Ghad El-Thawra, "Revolução do Amanhã", foi desqualificado por já ter sido condenado nos tribunais num caso de falsificação de assinaturas, que remonta a 2005, quando era lider do Partido El-Ghad, "Partido do Amanhã", ano de eleições presidenciais. Um caso nunca esclarecido, que o levou à prisão e também Condoleeza Rice a adiar uma visita oficial ao Egipto, de um dia para o outro. Nour, literalmente "aura", "brilho", carrega nos ombros o prestígio de ter sido o oponente ao Presidente Hosni Mubarak nas presidenciais de 2005.

Amr Mussa, ex-Secretário Geral da Liga Árabe de Junho de 2001 a Junho de 2011, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros de Hosni Mubarak de 1991 a 2001 e o homem que a 28 de Janeiro do ano passado, a Sexta-feira da Raiva, enfiou Mohamed El Baradei num chinelo, ao misturar-se com a multidão na Praça Tahrir, enquanto este falava às grandes cadeias televisivas internacionais, do conforto do jardim de sua casa, sobre as suas intenções em se candidatar a Presidente do Egipto. Não chegou se quer a ser candidato.

O Egipto, no actual momento de dicotomia CSFA versus Parlamento islamista, necessita claramente de um Presidente civil e laico, capaz de naturais compromissos, sobretudo com os militares. Em primeiro lugar, garantir que a paz com os israelitas não será denunciada, em segundo garantir aos militares que hipotéticas futuras privatizações em vários sectores da economia não fará demasiadas interferências com os seus interesses pessoais e corporativos. Por último, que o dossiê Processo de Paz Israelo-Palestiniano continurá a ser gerido pelo SGIE.

Aos islamistas e aos coptas, terá que garantir a liberdade de culto e a harmonia entre ambas as comunidades, bem como  demonstrar uma natural humildade em reconhecer que o sistema de apoio social da Irmandade Muçulmana colmata um vazio proporcionado pelo Estado às populações mais desfavorecidas. Nesse sentido, deverá promover uma cada vez maior aproximação entre este sistema de apoio privado e coorporativo, com o sistema de apoio público, complementando-o e beneficiando do mesmo em todos os aspectos, sobretudo na extensão do seu alcance social e geográfico. Quem ganha, são as populações, independentemente do credo e/ou se são do centro, ou da periferia.

No entanto, tudo dependerá do interesse e respectiva gestão que o Ministério do Interior fará perante as candidaturas agora apresentadas. O panorama, para já, continua a não ser animador.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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ENGLISH VERSION

 

Egyptian Presidential Election: On the Military Coup Route

At egyptian 14h last Eastern Sunday, the candidacy bid for the May 23rd and 24th presidential election was over. The probable second leg is scheduled for June 16th and 17th.  

The rules for the bid were as follows: The candidates must be egyptians, not holding double nationality nor being married with a foreign. The candidacies' validation also needed to be endorsed by a minimum of 30 MP's, or by 30 thousand egyptian citizens, over 18 years old.  

Amongst others, the most prominent names and the main polemics are as follows:

The Muslim Brotherhood, which have said, after the ravaging Parliament elections victory of November/December, that wouldn't present a presidential candidate, ended by presenting on March 31st the Brotherhood's Deputy Supreme Guide, Mohamed Khairat Saad El-Shater. Most probably will be disqualified, under the charge of having been in jail before, from 2007 until March 2011. Curiously the ones who arrested him, where the ones who freed him, now under the name of the Supreme Council of the Armed Forces (SCAF). The Brotherhood already said if El-Shater will be disqualified, they'll present another candidate to replace him, not revealing its name yet.

The Brotherhood's attitude in presenting a candidate during the bid's last week, is most probably connected with the fact that the SCAF also presented its candidate, General Omar Suleiman, Hosni Mubarak's Vice-President during the last 13 days of the regime. Suleiman is also an intelligence reference figure in Egypt since 1986, being since 1993 the Chief of the Egyptian General Intelligence Service (EGIS). Personally also lead during the regime's last 10 years the Israel-Palestine Peace Process folder. This issue, plus keeping the Camp David Accords intact, which guaranty the peace between Egypt and Israel are the main issues of this election, as well as the future of the "revolution". In this sense, Omar Suleiman is the "israeli candidate" and the same way the Brotherhood presented a candidate after having said that was not going to do it, can also denounce Camp David after having said that won't do it. Nothing or no one can guaranty their future behavior and decisions.

The Al-Noor Party salafists, on their hand, presented Hazem Salah Abu Ismail, a very popular figure amongst the population, with its own TV show, where he promotes ideas as, precisely, the need to denounce Camp David, lower the marriage age to puberty, imposing the veil on women and gender segregation at work. Most probably will be disqualified because of his mother's nationality. She's american! Abu Ismail already denied it, saying that his mother only held a Green Card, but on April the 05th the Interior Ministry confirmed his mother's american citizenship.

The secular Ayman Nour, founder of Ghad El-Thawra Party, "Tomorrow's Revolution", was already disqualified for being condemned in court in a signatures forgery case which goes back to 2005 when he was the leader of the El-Ghad Party, "Tomorrow's Party", a year of presidential election. This case was never well clarified, but took him to prison and also took Condoleeza Rice to postpone an official visit to Egypt over night. Nour, literally "aura", "glow", carries the prestige of being Mubarak's opponent on the 2005 presidential election.

Amr Mussa, former Arab League Secretary-General from June 2001 and June 2011, former Hosni Mubarak's Foreign Affairs Minister from 1991 to 2001 and the man who on last year's January 28th, the Friday of Rage, overshadowed Mohamed El Baradei by joining the crowd on Tahrir Square, while the latter spoke to the international media in the comfort of its home garden, saying he had intentions to run for President. Didn't even became a candidate.

Egypt, with the current SCAF versus islamist Parliament dichotomy moment, clearly needs a civil and secular President, capable of natural compromises, especially with the military. Firstly, to guaranty that the peace with the israelis won't be denounced. Secondly, to guaranty to the military that hypothetical future privatizations won't interfere too much with their personal and corporative interests. Lastly, that the Israel-Palestine Peace Process folder, will be kept under the EGIS wing.

To islamists and copts, must guaranty liberty of cult and harmony between both communities, as well as showing a natural humility in recognizing that the Muslim's Brotherhood social support and work amongst the poorest population fills a void that the state could never reach. It would be highly intelligent to promote a closer relation between this private and corporative social system, with the public one, complementing it when possible and benefiting from it in all aspects, especially through its social and geographical reach. Who wins are the populations, independently of their creed and/or if they're from the center, or from the country side.

However, it will all depend on the interests and management that the Interior Ministry will have over the list of candidates. For now, the panorama continues not to be encouraging.

 

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1

Azawad, a "Tuaregolândia" Independente

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
20:09 Sexta feira, 6 de abril de 2012

Azawad, a "Tuaregolândia" Independente, são cerca de 3/4 do território do Mali.
Azawad, a "Tuaregolândia" Independente, são cerca de 3/4 do território do Mali.
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O dia 06 de Abril de 2012 ficará nos anais da História do Povo Kel Tamashek, literalmente "Os Livres", como preferem ser chamados, já que Tuaregue significa "Abandonados pelos Deuses", sendo um termo também popularizado e vulgarizado pelo colonizador francês.

Foi este o dia em que o Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA), declarou unilateralmente a independência do novo Estado de Azawad, vulgo norte do Mali, mas que na verdade são cerca de ¾ da totalidade do território.

Apesar da comunidade internacional já ter dito que não reconhece esta declaração de autodeterminação, há razões para acreditar que a mesma terá consequências que levarão no mínimo a uma autonomia alargada desta zona do território maliano.

Em primeiro lugar O MNLA conseguiu federar a esmagadora maioria das tendências tuaregues, aquando da sua formação em Junho de 2011, antecipando já a inevitável queda do regime do Coronel Muammar Kadhafi. Por outro lado, estas várias tendências, de forma organizada, já tiveram 6 rondas de negociações desde o final dos anos 80, até à data, com o Mali, a propósito da independência/autonomia de Azawad, sob mediação argelina. Todas falharam. É normal que de momento tenham tomado a decisão do "agora é que é" e que estejam dispostos a tudo para tal.

Em segundo lugar, é do interesse de estados como a Argélia, o Níger, a Líbia e o Burkina Faso, que as ambições territoriais dos tuaregues se fique por Azawad, já que a "Grande Tuaregolândia" iria reclamar partes consideráveis dos territórios destes países, sobretudo da Argélia, a qual a prazo se verá a braços com uma natural revanche berbére actualmente em lume brando na Líbia. O Níger não deverá querer ver as suas reservas de urânio juntarem-se às que aparentemente foram recentemente descobertas no norte do Mali.

Em terceiro lugar, o domínio sobre a maior parte do território do Mali, demonstra bem o quão armados e organizados está este grupo, o que certamente será uma vantagem negocial. Mais em jeito de afirmação e de tranquilização, do que de bluff, já vieram dizer que não têm intenções de descer sobre a capital Bamako, dando um sinal claro de que se quisessem, o fariam nas calmas.

Em quarto lugar, o MNLA, é laico e nada quer ter a ver com o Islão redentor e prosélito de um outro grupo de tuaregues, manietado pela Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI), o Ansar Edine, liderado por Iyad ag Ghaly, que chegou a ser guarda pessoal do Coronel Kadhafi e que em 1994 após uma passagem pela Arábia Saudita, se transformou em pio muçulmano. Foi precisamente o laico MNLA que se assumiu no dia anterior à declaração de independência, como único grupo credivel e capaz de combater o AQMI nesta zona porosa do Sahel, pelo que a comunidade internacional terá provavelmente muito mais a ganhar em estar ao lado destes tuaregues legitimos, matriarcais e sincréticos, do que em combatê-los.

Naturalmente que o outro lado da moeda, a preocupação da comunidade internacional, apresenta o levantar de um precedente para a região, a qual há um ano atrás se debatia com uma Costa do Marfim quase a partir-se ao meio na ressaca da eleição de Alassana Ouattara como Presidente, actualmente com um norte da Nigéria dominado por um Boko Haram com ambições a Califado, um Sahara Ocidental quase consensualmente integrado no restante Marrocos mas que a qualquer momento se poderá rebelar de novo, já para não falar novamente na questão amazigh/berbére, que dará certamente que falar ainda este ano, na tão discreta Argélia.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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ENGLISH VERSION

 

 

Azawad, the Independent "Tuaregoland"

April the 06th 2012 will stay on the History annals of the Kel Tamashek People, literally "The Free Ones", as they prefer to be called instead of Tuareg, which means "Abandoned by the Gods", a terminology popularized and vulgarized by the french colonizer.

On this day, the National Movement for the Liberation of Azawad (NMLA), unilaterally declared the independence of the new State of Azawad, usually referred as the north of Mali, but in reality it's about ¾ of the totality of the territory.  

The international community already rejected this auto determination declaration, but there are some reasons to believe that the most probable way will point towards a considerably large autonomy to this area of the malian territory.

Firstly, the NMLA was able to federate practically all the tuareg tendencies back in June 2011, anticipating the inevitable fall of Colonel Muammar Kadhafi's regime. On the other hand, this several tendencies already had 6 rounds of negotiations since the late eighties up to now, with Mali, about Azawad's independence/autonomy, under algerian mediation. They all failed, so it's normal that they embodied at this very moment the decision "it's now or never" and made themselves ready for whatever might come.

Secondly, it's the interest of states like Algeria, Niger, Libya and Burkina Faso, that these tuareg territorial ambitions stayed focus on Azawad, since the "Greater Tuaregoland" would reclaim considerable land from these countries, mainly Algeria, which in the future will most probably has to deal with a berber revenge brewing in Libya for the moment. Niger would not want to share its uranium reserves with apparently recently discovered in northern Mali.

Thirdly, the control over most part of malian territory, shows how well armed and organized this group is, which certainly will be an advantage on the negotiation table. A day before declaring independence, the NMLA declared that it wouldn't march south towards the capital Bamako. More than a potential bluff, these declarations must be understood as a mix of affirmation and tranquilization attitude towards the population and also the international community. Most probably the NMLA could go down south and take control of events in the capital city, very easily given how well equipped it is, plus the combat experience it has.

Fourthly, the NMLA is secular and has nothing to do with the redeemer and proselyte Islam defended by another smaller tuareg group, manipulated by the Al-Qaeda in Islamic Maghreb (AQIM), like the Ansar Edine, lead by Iyad ag Ghaly, who was one of Kadhafi's personal body guard and who in 1994, after a passage through Saudi Arabia, became a pious muslim. It was precisely the secular NMLA who assumed itself, also the day before declaring the independence of Azawad, as the only credible and capable group to fight the AQIM in this porous Sahel region, whereby the international community has probably a lot more to win supporting these legitimate, matriarchal and syncretic tuaregs, than fighting them back.

Naturally the other side of the coin, the international's community worry, is the precedent that this situation will project in the region. One year ago Ivory Coast was almost broke in two, after the election of President Alassana Ouattara. Presently, the north of Nigeria is dominated by Boko Haram with Caliphate ambitions. The Western Sahara is almost consensually integrated in Morocco, but can also rebel itself again at any moment, plus, I insist once again, the amazigh/berber problematic, which certainly will have its own agenda still this year, mainly in the discreet Algeria.

 

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4

Boko Haram e o novo Califado

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
2:34 Sexta feira, 30 de março de 2012

O Sahel
O Sahel
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Na sequência do texto anterior sobre o Golpe d'Estado no Mali, o qual começa a correr verdadeiramente mal, sobretudo para a legitimidade inicial dos militares que o levaram a cabo, é também necessário mencionar a lógica existente entre o eixo AQMI/Boko Haram/Al-Shabaab.

Se por um lado, a Comissão Militar Conjunta da Região do Sahel (CEMOC)/Força de Contraterrorismo do Sahel empurram os jihadistas do AQMI para o Centro/Sul do Continente, a partir precisamente do norte do Mali, nos antípodas, as forças militares do Quénia, da Etiópia, do Governo Federal de Transição da Somália (TFG) e da Missão da União Africana na Somália (AMISOM), fazem exactamente o mesmo aos jihadistas  da Al-Shabaab, no sentido inverso, mas também Centro/Sul. O ponto de convergência tem sido o norte da Nigéria, onde o Boko Haram nunca brilhou tanto como nos últimos dias, desde a sua formação em 2002.

Ambos estes factores conjugados com o facto de os Taliban até há pouco tempo terem estabelecido negociações com os governos afegão e americano com os  intuito de abrirem uma Secção de Interesses no Qatar, significa um reconhecimento mútuo e uma entrada dos primeiros no circuito cocktail da diplomacia internacional. Por outro lado, também significa que o projecto de constituição do Califado no Afeganistão, deixou de fazer sentido.

As acções indiscriminadas do Boko Haram, sobretudo desde o natal passado, numa lógica de guerra psicológica, com a exigência de uma fuga massiva dos Káfires (descrentes em Allah), neste caso os cristãos, leva a crer que este desejo de purificação do território norte da Nigéria, faz do próprio o mais recente eleito para a instalação do novo Califado.

Por outro lado, este facto dá imenso jeito a quem os combate, já que o pior cenário é o de uma pulverização territorial, como a que tem vindo a acontecer até aqui no poroso Sahel, de Nouakchott a Mogadiscio.

 

A jornalista Cristina Peres assina este sábado um trabalho sobre o evoluir da situação no Mali, na versão impressa do jornal Expresso.

Audio/Expresso a propósito da Cimeira da Liga Árabe de Bagdade, realizada a 29 de Março.

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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ENGLISH VERSION

 

Boko Haram and the new Caliphate

Following the prior text about the Coup d'Etat in Mali, which starts to go really wrong, especially for the initial legitimacy which motivated it, we also need to mention and explain the existing logics in the axe AQIM/Boko Haram/Al-Shabaab.

If in one hand the Joint Military Staff Committee of the Sahel Region (CEMOC)/Sahel Counter-Terrorism Force pushes the AQIM jihadists towards the Continent's Center/South, precisely from the north of Mali, in the antipodes, military forces from Kenya, Ethiopia, Somalia's Transitional Federal Government (TFG) and African Union Mission in Somalia (AMISOM), do exactly the same to Al-Shabaab jihadists in the opposite sense, but also towards the Center/South. The convergence point has been the north of Nigeria, where Boko Haram never shined so brightly just like in the later days, since its beginning in 2002.

Both this factors combined with the fact that the Taliban just recently kept negotiations with the afghan and american governments, with the goal of opening an "Embassy" in Qatar, means a mutual recognition and a Taliban debut on the diplomatic cocktail circuit. On the other hand, it also means that the project to create the Caliphate in Afghanistan just doesn't make sense anymore.

The Boko Haram's indiscriminated actions, especially since last Christmas, following a psychological war logics, demanding a kafir's (unbelievers in Allah) massive run from the north of the country, makes us think that this desire of territorial purification, makes it the most recent elected place for the constitution of the new Caliphate.   

On the other hand, this fact makes life easyer for those who fight these jihadists, since the worst scenario is the one of a territorial spaying, as it has been happening so far in porous Sahel, from Nouakchott to Mogadishu.  

 

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Mali: um golpe benévolo

Raúl M. Braga Pires, em Rabat (www.expresso.pt)
4:38 Segunda feira, 26 de março de 2012

A "Tuaregolândia"
A "Tuaregolândia"
Google Imagens

O Golpe de Estado em curso no Mali está intimamente ligado ao fim do regime de Muammar Kadhafi e ao regresso dos mercenários tuaregues às suas terras de origem, fortemente armados, com uma experiência de combate de 20/30 anos e com ambições separatistas para a região de Azawagh, a Tuaregolândia, a qual inclui parte do norte do Mali, do norte do Niger e do sul da Argélia.

Desde Janeiro que são registados confrontos na região de Tombuctu, entre estes ex-mercenários e o exército maliano, pelo que este Golpe de Estado para além de ser uma espécie de atestado de incompetência passado aos políticos locais perante a emergência dos eventos a norte, tem que ser ainda entendido sob duas outras perspectivas.

A primeira é a de que a região do Sahel está a ser patrulhada pela Força de Contraterrorismo do Sahel, a qual agrupa tropas dos exércitos do Mali, Argélia, Niger e Mauritânia, tendo como missão principal a caça ao AQMI, a Al-Qaeda no Magrebe Islâmico. O Marrocos, também foi naturalmente convidado a participar, mas decidiu não o fazer por não querer misturar as suas fardas com as dos argelinos, os quais lideram as operações no terreno a partir da Comissão Militar Conjunta da Região do Sahel (CEMOC), com sede em Argel. O patrulhamento efectuado por esta força conjunta tem empurrado cada vez mais os jihadistas para o sul/centro d'África, pelo que certamente elementos do AQMI se envolveram nos confrontos lado-a-lado com a causa tuaregue, bem como militares d'outras nacionalidades (além do Mali) terão combatido estes últimos em território maliano.

A segunda, é que a montante do CEMOC está o AFRICOM, o Comando Militar Americano para África, o qual existe, mas que ainda não encontrou um território consensual para se instalar neste continente.

Numa primeira análise, pode considerar-se que o móbil que levou estes jovens oficiais (sobretudo capitães) a sublevarem-se no Mali é benévola, tentando manter a integridade territorial do seu país, bem como combater o terrorismo jihadista dos radicais islâmicos.

Numa segunda análise pode sempre adicionar-se o duplo interesse dos americanos, no combate ao AQMI e na promoção de uma mudança geracional nas fileiras militares malianas, que lhes possa eventualmente proporcionar a criação de um ambiente confortavel e consensual para a instalação de uma base militar de alcance continental. 

 

Raúl M. Braga Pires escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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ENGLISH VERSION

 

Mali: A Benevolent Coup

The ongoing Coup d'Etat in Mali is intimately connected with the fall of the Kadhafi regime and the return of its tuareg mercenaries to their homeland, highly armed, with a 20/30 years fighting experience and with separatist ambitions for the Azawagh region, the Tuaregland, which includes northern Mali, northern Niger and the south of Algeria.

Clashes have been registered since January in the Tombuctu region, between this former mercenaries and the Mali Army, whereby this Coup d'Etat besides being a kind of certificate of incompetence given to local politicians towards the emergency of the situation in the north, must also be read under two other perspectives.

The first is that the Sahel region is being patrolled by the Sahel Counter-Terrorism Force, which includes militaries from the Mali, Algeria, Niger and Mauritania armies, having as main mission hunting AQIM operatives, the Al-Qaeda in the Islamic Maghreb. Morocco was also naturally invited to join this force, but decided not to do it because just doesn't wants its uniforms to mix with the algerian ones, whom leads operations on the ground from Algiers through the Joint Military Staff Committee of the Sahel Region (CEMOC). The patrol this joint force has been doing has pushed jihadists further to Africa's south/center, fact which certainly enabled AQIM members to get involved side by side with the tuareg cause, as well as militaries from other nationalities (besides Mali) to fight this ones on malian soil.

The second is that on top of CEMOC is AFRICOM, the American Military Command for Africa, which exists, but didn't find yet a consensual territory in this continent to settle its base.

In a first analysis, we can consider that the reason which moved these young officers (mostly captains) to up heave in Mali is benevolent, trying to keep its country's territorial integrity, as well as fighting the jihadist terrorism of islamic radicals.

In a second analysis, we can always add a double american interest, fighting AQIM and promoting a generational change in the malian military ranks, which eventually might create a comfortable and consensual environment to settle an american military base with continental range.

 

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Primavera Árabe: Quo Vadis?

Raúl M. Braga Pires, em Lisboa (www.expresso.pt)
17:14 Sábado, 17 de março de 2012

Centro de Estudos do Curso de Relações Internacionais
Universidade do Minho
Centro de Estudos do Curso de Relações Internacionais Universidade do Minho
CECRI

O CECRI, Centro de Estudos do Curso de Relações Internacionais da Universidade do Minho, organiza nos próximos dias 20 e 21 de Março o XXXIII Colóquio de Relações Internacionais, sob o título "Primavera Árabe: Quo Vadis?"

Organizado por um grupo de alunos do Curso de Relações Internacionais, liderados por Gustavo Silva e Susana Afonso, lançam como mote para a discussão durante estes 2 dias as seguintes questões:

Que papel deverá desempenhar a comunidade internacional face aos acontecimentos no Magrebe? Será que esta onda de renovação político-social trará finalmente mais justiça e igualdade em termos de direitos humanos às populações árabes? Ou irá o extremismo islâmico tomar de assalto os frágeis territórios revolucionados? Como serão as relações com o mundo ocidental no futuro? Primavera Árabe: quo vadis?

PROGRAMA

20 de Março
9h00
- Cerimónia de Abertura
António M. Cunha, reitor da UMinho
Manuela Franco, diretora do Instituto Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros
Manuel Rocha Armada, presidente da Escola de Economia e Gestão
Maria do Céu Pinto, diretora da licenciatura e mestrado em Relações Internacionais
Carlos Alberto Videira, presidente da direção do CECRI

10h00 - Painel "A Religião e o Estado: Liberdade Religiosa e Actores Religiosos no Pós-Revolução"
Armando Borlido, vice presidente da direção da Amnistia Internacional/Portugal
Isabel Varanda, teóloga e professora da Universidade Católica Portuguesa
Jorge Bacelar Gouveia, constitucionalista e professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa
Mostafa Zekri, especialista em "Assuntos Islâmicos" e professor da Universidade do Algarve
Moderador: Isabel Estrada Carvalhais, professora da Universidade do Minho

14h30 - Painel "Internet e Redes Sociais: As novas armas do povo"
Armando Marques Guedes, professor da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa
Cândida Pinto, jornalista da SIC
Inês Amaral, investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade
José Manuel Rosendo, jornalista da Antena 1
Moderador: Anabela Carvalho, professora da UMinho

21 de Março
9h30 - Painel "Uma nova ordem política no Magrebe e Médio Oriente: Novos tempos, novos desafios"
Ângelo Correia, presidente do Conselho de Administração da CCIAP
Bernardo Pires de Lima, investigador do IPRI
Maria do Céu Pinto, especialista em "Assuntos do Médio Oriente" e professora da UMinho
Raul Braga Pires, professor da Universidade de Rabat
Moderador: José António Palmeira, professor da UMinho

14h30 - Painel "Responsabilidade de Proteger: o dilema da intervenção externa na Primavera Árabe"
A. Azevedo dos Santos, tenente coronel do Joint Air Power Competence Center da NATO
Francisco Pereira Coutinho, professor na Universidade Técnica de Lisboa
José Manuel Pureza, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Pedro Bacelar de Vasconcelos, constitucionalista e professor da UMinho
Moderador: Ana Paula Brandão, professora da UMinho

17h00 - Cerimónia de Encerramento
Fernando Alexandre, presidente do Conselho Pedagógico da EEG
Maria do Céu Pinto, directora da licenciatura e mestrado em Relações Internacionais
Hélder Castro, presidente da Associação Académica da UMinho
Gustavo Silva e Susana Afonso, representantes do Núcleo de Colóquios do CECRI

Contactos

Universidade do Minho
Escola de Economia e Gestão
Campus de Gualtar, 4710 - 057 Braga
Tel.: 253604510; 253604528
Fax: 00 351 253601380
E-mail: presidencia@eeg.uminho.pt
Site: http://www.eeg.uminho.pt

Para mais informações:
Carlos Alberto Videira (Presidente da Direcção) - 967838171
Gustavo Silva & Susana Afonso (Núcleo de Colóquios) - 917621838; 919767704
E-mail: cecri.uminho@hotmail.com

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