23/02/2012 atualizado às 14:24

José Afonso: "Um pouco mais de beleza, um pouco mais de decência" - José Amaro Dionísio

Lisboa, 01 Ago (Lusa) - O escritor José Amaro Dionísio foi aluno de José Afonso em Faro e só 30 anos depois reencontrou o cantautor, que hoje diz representar para si "o que sempre representou: um pouco mais de beleza, um pouco mais de decência".

9:16 Sábado, 1 de agosto de 2009

Lisboa, 01 Ago (Lusa) - O escritor José Amaro Dionísio foi aluno de José Afonso em Faro e só 30 anos depois reencontrou o cantautor, que hoje diz representar para si "o que sempre representou: um pouco mais de beleza, um pouco mais de decência".

"É uma combinação reservada aos melhores de cada geração, que são sempre poucos. Ainda por cima no caso dele deixou testemunho público desse acorde perfeito, podemos ouvi-lo de manhã ao pequeno almoço entre a folhagem do plátano", declarou à Agência Lusa.

Em Junho de 1985, no preâmbulo a uma longa entrevista, Amaro Dionísio descreveu nestes termos o cantor e compositor de "Grândola, Vila Morena": "Terno e agressivo, sarcástico e sensual, cantor de raízes populares e de Edmundo Bettencourt, credor de um trabalho fortemente personalizado mas sempre aberto à criação colectiva, sentimental irónico, andarilho dos grandes espaços, implacável quando confrontado com a hipocrisia, humilde, precário,contraditório e teimoso mas nunca sectário, atrevido frente à doença, José Afonso vive como só os melhores sabem viver: solitário e solidário, intransigente e dialéctico, leal nos ódios e nas paixões".

"Hoje como ontem, aqui como não importa onde - escreveu ainda -, há poucas pessoas assim em cada geração. A sublinhá-lo não deixa de ser curiosa a comédia que, num país socialmente aviltado e politicamente traficado, onde os princípios sofrem sorrateiro escárnio no dicionário do lucro, José Afonso tenha sido uma referência ética para essa geração de esquerda que hoje está no poder, nos vários poderes, para aí cultivar a mistificação intelectual, a desonestidade moral e uma repugnante falta de escrúpulos a troco das migalhas da 'democracia burguesa' que nos tempos áureos do seu esquerdismo tal esquerda acusava o intérprete de Cantigas de Maio de defender".

Hoje, 24 anos volvidos sobre a morte do cantor, o autor de "Bardo" e "Todo o alfabeto dessa alegria" observa, a propósito, que ele "é um tanto misterioso, como o são Callas ou Amália, e tudo o que se fizer - e disser - para popularizar o mistério será apenas uma forma de reafirmá-lo. Como se tem visto".

RMM.

Lusa/fim

Lusa
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