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Inês Pedrosa

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 6 de Fev de 2010

Onde acaba a protecção e começa o desrespeito?

Onde começa o abuso e termina o amor? Onde começa o amor e termina o abuso? Quem define o que é o amor e o abuso? Estas perguntas ocorreram-me por causa de "Blackbird", acutilante peça de teatro de David Harrower, agora em cena no Teatro Nacional, com encenação de Tiago Guedes. Miguel Guilherme interpreta - magistralmente, como sempre - Ray, um homem de 55 anos que recebe, no seu local de trabalho, a visita inesperada de Una, uma rapariga com quem vivera uma relação apaixonada 15 anos antes. Una - prodigiosamente interpretada por Isabel Abreu - tem agora 27 anos, o que significa que tinha apenas 12 quando se envolveu com Ray, que na época se chamava Peter. Percebemos rapidamente que Peter foi preso e depois foi obrigado de mudar de cidade, de vida e de identidade. Este reencontro provocado pela rapariga é um duelo de acusações e mágoas - mas no choque das raivas cruzadas começa a brilhar a antiga chama. Ela acusa-o de a ter transformado num "fantasma" ("as pessoas falavam de mim como se eu não estivesse presente. Não me deixavam falar".). Ela diz: "Eu não sei nada de ti a não ser que tu abusaste de mim". Mas também diz "Tu deixaste-me apaixonada". Ele acusa-a de o ter seduzido, e até de ser mais "forte" do que ele. Mas também diz que ela era uma menina quase "abandonada" pela família e que nunca devia ter feito o que fez - embora o fizesse por se ter apaixonado, de facto, por ela. Repete que nunca tinha tido nem voltou a ter relações com menores, que nunca olhou para ela como uma menor. Quase no final da peça, entra em cena, por breves minutos, uma menina de 12 anos. A aparição da menina serve para nos recordar que era isso que Una era quando Peter a seduziu - e que, por conseguinte, esta não é uma história de amor, mas um crime de abuso. A realidade nunca é a preto e branco: abusada ou não, esta Una adulta quer reconquistar Peter. Porque o abuso marca? Certamente. Mas uma menina de 12 anos que se tivesse apaixonado violentamente por um rapaz de 15 não poderia ficar refém daquele amor - traumatizada ou abusada por ele - para o resto da vida? Foi abusado, aquele rapaz de 14 anos que se envolveu com a professora de 35 anos, nos Estados Unidos? A professora teve um filho dele, foi presa, depois voltou a ser presa outra vez porque se encontrou com ele apesar da proibição, e acabaram por ir viver juntos, quando o rapaz atingiu a maioridade.

É evidente que os menores têm que ser protegidos. Mas onde acaba a protecção e começa o desrespeito pela sua personalidade e sentimentos? Quando se afastam as crianças das pessoas que elas amam sem lhes perguntar o que querem, está-se a proteger ou a abusar dessas crianças? Mesmo aos 4 ou 5 anos, o respeito pela opinião da criança - ou seja, pelo seu bem-estar imediato - deve prevalecer. Aos 12 anos, as pessoas não são já exactamente crianças - e nenhum ser humano é, aos 12 anos, igual a outro. Há pessoas que começaram a namorar nessa idade aquele ou aquela com que vieram a casar-se, e outras que não pensam ainda em namoros. Há pessoas que mantêm aos 50 anos uma maturidade emocional de 15, e outras que aos 60 largam tudo e enlouquecem por corpos de 20 anos. Respeitamos as diferenças nos adultos, mas tratamos as crianças e os adolescentes como objectos - os nossos brinquedos de estimação, na melhor das hipóteses. Claro que um adolescente não tem capacidade para tomar decisões para a vida inteira. Mas será que todos nós, só por sermos adultos, temos essa capacidade? Conseguimos escolher por quem nos apaixonamos? Conseguimos manter as nossas escolhas? Consentimos conscientemente tudo quanto nos acontece? Um dia acordamos com a idade do consentimento e ficamos automaticamente maduros? Una diz que ninguém a deixava falar. Ninguém deixa falar as crianças: os adultos decidem por elas. O seu destino foi decidido por outros: arrancaram-lhe dos braços o homem por quem estava apaixonada e meteram-no numa prisão sem sequer a ouvirem. Quinze anos mais tarde, ela pega no carro e vai à procura dele. São agora, para todos os efeitos, um homem e uma mulher. Pela primeira vez livres do poder dos outros. Mas não livres do que esse poder fez deles.

Texto publicado na edição da Única de 30 de Janeiro de 2010

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 30 de Jan de 2010
Os seus filmes mostram que os valores estão na nossa mão.

É estúpido escrever-lhe uma carta que você já não poderá ler. De qualquer modo vivemos num mundo em que já ninguém escreve cartas - as palavras escritas deixaram de ter cor, mão, respiração e compromisso, mesmo as mais íntimas. Despejam-se rapidamente em e-mails que se modificam, apagam e esquecem. É estúpido escrever-lhe uma carta mas aprendi nos seus filmes a amar a força das coisas estúpidas, que aparentemente não servem para nada e só nos atrapalham a vida. Um dos seus filmes de que mais gosto, "Conto de Inverno", narra a história de uma rapariga tão estúpida que se engana no nome da terra onde vive na hora de passar a morada ao grande amor que conheceu nas férias e mora noutro país. Encontramo-la cinco anos mais tarde, trazendo pela mão uma filha nascida desse grande amor e enganando a solidão entre dois amantes. Às tantas, estupidamente, decide ir viver com o mais fruste desses dois amantes, o seu patrão no cabeleireiro. A filha arrasta-a para o interior de uma igreja, porque é quase Natal e a criança quer ver o presépio. Sentada na igreja vazia a rapariga reza em silêncio pelo regresso do seu amor perdido, e o rosto banal ilumina-se-lhe de uma forma inesquecível. Não é católica, tem uma fé vaga, que não aprofunda - não é rapariga de leituras nem de aprofundamentos, desdenha mesmo aqueles que copiam a vida pelos livros, como o amante preterido. Esse amante intelectual dir-lhe-á uma frase belíssima: "Sabes porque te amo? Porque és bela, mas isso não basta. Amo-te porque tenho a impressão de ser capaz de ler o teu coração, e é raro poder-se ler o coração das pessoas". A força dessa rapariga advém da fidelidade absoluta ao seu próprio coração e da confiança que deposita nos sentimentos. Nunca, nem por um segundo, escondeu aos seus amantes que esperaria até ao fim da vida pelo pai da filha - e nunca, o que é ainda mais extraordinário, duvidou da reciprocidade do amor desse homem. Lá onde estivesse, ele seria dela como ela era dele. Nesse momento de revelação no interior da igreja decide deixar o amante que escolhera e viver só com a filha, aguardando o improvável reencontro. Mais tarde dirá que teve "uma premonição". E dirá também: "Não há boas nem más escolhas. É preciso que a questão da escolha não se coloque".

Você soube como ninguém mostrar a inteligência, a verdade, o valor imenso das coisas estúpidas. Há páginas e páginas escritas sobre a sua erudição e argúcia, os clássicos em que se inspirou - e que aliás aparecem delicadamente nos filmes, porque você não era um destes pós-modernos que empinam bibliotecas e as despejam como obras suas para brilhar em sociedade - mas a sua singularidade vinha de outra coisa: da observação apaixonada das escolhas humanas. Das justificações racionais fez capas de seda sob as quais refulge o brilho animal dos sentimentos imediatos. Você dá-nos a ver o modo como as pessoas se agitam através dos seus pequenos mundos pelo pavor de olharem para dentro de si mesmas, como se enganam de propósito por medo da felicidade - ou da liberdade, que é a mesma coisa. Você mostra-nos pessoas tristes que engendram esquemas para tornar os outros felizes.

Por estes dias revi os "Contos das Quatro Estações" recentemente editados em DVD, e tive saudades dos filmes que você já não vai poder fazer. Há cada vez mais gente a bradar pela falta de ética, para poder falhar gloriosamente em todos os valores - excepto o do trabalho, que se tornou o capataz dos novos deuses do sucesso e do dinheiro. Os seus filmes mostram, pelo contrário, que os valores estão nas nossas mãos, e que o mundo se altera, minuto a minuto, através das escolhas que fazemos. Quando decidimos não ter tempo para a tristeza de um amigo, ou sequer para decidir o que mais nos importa na vida, estamos a preferir um valor a outro. As escolhas, por sua vez, dependem de expectativas, e as expectativas dessa palavrinha imensa: fé. "O Signo do Leão", o seu primeiríssimo filme, é a história de um rapaz que passa de milionário a sem-abrigo da noite para o dia. Aquilo que o impede de se suicidar é a convicção de que, pertencendo ao signo astrológico de Leão, a miséria será temporária. Essa fé no signo, que é uma outra forma de fé em si mesmo, salvá-lo-á. Nos seus filmes, Eric Rohmer, as pessoas sabiam salvar-se, a si mesmas e umas às outras. E agora eu não sei como vou viver sem as pessoas dos filmes que você já não vai fazer.

Texto publicado na edição da Única de 23 de Janeiro de 2010

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 23 de Jan de 2010
O Ministério da Educação pode finalmente dedicar-se ao ensino.

Terminou a saga sobre a vida dos professores, muito mais morosa e menos interessante do que os sete volumes de "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust. Esperamos que tenha terminado mesmo, apesar das ameaças não tão veladas do secretário-geral da FENPROF à saída da árdua maratona negocial. A ministra da Educação sublinha que "o país estará sempre à frente do interesse de uma classe". Era urgente passar da discussão das carreiras dos professores para o trabalho nas escolas; Isabel Alçada entendeu-o e agiu, depressa e bem, em circunstâncias e com interlocutores muito adversos. E conseguiu o essencial: que os professores se sentissem estimulados, sem deixar cair a ideia de avaliação e recompensa do mérito, à qual os sindicatos opunham - e opõem - uma resistência muito pouco pedagógica. Os professores têm agora a garantia de que a excelência será efectivamente recompensada. Os restantes funcionários públicos, que não só não têm acesso garantido ao topo da carreira como estão sujeitos a um sistema de quotas muito estreito, onde os "excelentes" e os "muito bons" são escassíssimos, mesmo que o seu trabalho o mereça (e merece-o numa proporção muito maior do que a má-língua diz), têm muito que meditar sobre métodos de combate, prioridades e objectivos. Mas o Ministério da Educação pode finalmente dedicar-se àquilo que lhe dá nome. A Educação, pois é. Até que enfim.

Isabel Alçada já anunciou que está a trabalhar na revisão e ajustamento dos currículos, o que é de muito bom augúrio. O número de disciplinas leccionadas nos segundo e terceiro ciclos do ensino básico é inversamente proporcional ao sucesso escolar dos alunos, o que deve fazer-nos reflectir. A intenção de reduzir a variedade de matérias do terceiro ciclo é de louvar, mas é urgente olhar também para o segundo ciclo. A existência de uma disciplina chamada Área de Projecto é algo que escapa ao meu entendimento: não deveriam todas as "áreas" - História, Matemática, Português, Inglês, Ciências, Educação Visual, Educação Física, etc. - ter um projecto? A aprendizagem de métodos de trabalho e de elaboração de projectos não é a base de qualquer matéria que se queira ensinar? O excesso de disciplinas não-curriculares prejudica o rendimento dos alunos nas disciplinas curriculares. É talvez tempo de, também para os alunos, se reivindicar uma carreira única: o que é um currículo que inclui matérias não-curriculares? O melhor projecto que se pode dar a uma criança ou adolescente é o hábito de pensar, interrogar a realidade. Parece-me evidente que a aprendizagem das Línguas, da Literatura, da Matemática, da História ou das Ciências ditas exactas beneficiaria muito do ensino da Filosofia, esse saber fundador e central que tem sido arredado para área de especialização. A verdadeira Educação para a Cidadania começa, ou devia começar, pelo ensino da Filosofia. Tão cedo quanto possível, porque pensar e fazer perguntas é uma actividade a que, em geral, as crianças dedicam mais e melhor tempo do que os adultos.

A ministra falou da necessidade de assegurar a segurança nas escolas. O avanço que, a esse nível, se conseguiu nos últimos anos no primeiro ciclo do ensino básico é notável; mas uma criança de 9 ou 10 anos passa de uma relação de ensino personalizada num professor e de uma escola pequena, onde os seus tempos estão todos preenchidos e o espaço é familiar, para uma escola imensa, com uma dezena de matérias e professores distintos, com horários cheios de "furos" e sem nenhum controlo. O modo de funcionamento do segundo ciclo do ensino básico necessita de ser repensado; esse período difícil e escorregadio em que já não se é exactamente criança mas também ainda não se é adolescente é particularmente crítico para o desenvolvimento futuro da personalidade e das competências de cada um. Nunca percebi porque se acabou com o conceito, útil e eficaz, de "ciclo preparatório". Imagino que devia ser caro ter escolas destinadas apenas a dois anos de ensino. Mas funcionava.

Isabel Alçada avançou já duas outras medidas importantes: o ensino da música e o reforço do ensino profissionalizante. Está provado que a música desenvolve capacidades de concentração, plasticidade mental, ritmo e harmonia que potenciam muito as outras aprendizagens - a começar pelo Português e pela Matemática. E é indispensável que o ensino técnico seja valorizado, ampliando a empregabilidade dos jovens e a eficiência do país.

A educação começa pelo trabalho e pelo bom senso, duas coisas que andavam há demasiado tempo esquecidas.

Texto publicado na edição da Única de 16 de Janeiro de 2009

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 16 de Jan de 2010
Método de combate à explosão anunciada pelo Presidente da República.

Uma gota de água pode assumir uma relevância especial. É o caso da famosa gota de água que tem a virtude de chegar ao copo no instante exacto em que ele está cheio até à borda. A gota de água que faz a diferença: imaginemos que ao lado do copo que a gota de água fez transbordar está uma geringonça eléctrica que entra em curto-circuito e explode, causando, se não um incêndio, pelo menos um ferimento grave na mulher que tinha a electricidade - suponhamos, sob a forma de um secador de cabelo - na mão. Por causa desse acidente, a mulher perderá a entrevista marcada e ficará no desemprego. Ou, se o acidente provocado pela gota de água for mais grave, a mulher acaba no hospital. O homem que ficara de se encontrar com ela, depois de seco o cabelo, pensa que ela rejeitou esse encontro. Suponhamos que se conheceram na véspera e que nessa mesma noite ele partirá para outro lugar e que nenhum deles ficou com o contacto do outro. Por causa de uma gota de água, um homem e uma mulher perderam um encontro que poderia ter alterado as suas vidas. Ou, se preferirmos, a mulher encontra no hospital alguém - um enfermeiro, um médico, um velho amigo - que alterará a sua vida. Quem diz um homem e uma mulher diz dois homens ou duas mulheres. Um dia perceberemos que todos somos diferentes como duas gotas de água. Para o melhor ou para o pior, a gota de água importa. A gota de água pode ser uma frase lançada em forma de faca. Uma frase que, mesmo inadvertidamente, corta. Todos temos um historial de gotas de água que nos transformaram.

A gota de água representa a diferença entre o copo que bebemos e o copo que nos encharca. O ano começou com uma mensagem inquietante do Presidente da República. Disse ele: "Com este aumento da dívida externa e do desemprego, a que se junta o desequilíbrio das contas públicas, podemos caminhar para uma situação explosiva." A metáfora da explosão não é certamente a mais tranquilizadora. Os portugueses estão, como o resto do mundo, habituados a "situações explosivas". Vêem-nas todas as noites nas televisões e acham que acontecem longe. Mas sucede que há dias um avião que ia da Holanda para os Estados Unidos também quase explodiu. Ora a Holanda não é assim tão longe. E nos aviões viajam pessoas que não são aquelas que estamos habituados a ver explodir e que estamos habituados a ouvir dizer que pertencem a "culturas outras" - certamente menos impressionáveis com os efeitos das explosões.

Antes de o fazer transbordar, as gotas de água vão enchendo o copo. É isso que cada gota de água faz: dá o seu contributo para ajudar a encher o copo. A "situação explosiva" a que se refere o Presidente Cavaco Silva é a da falência do país. Nem copo, nem água. Por isso, enquanto há copo, é importante que recolhamos todas as gotas de água que pudermos encontrar. O mercado de Inverno de jogadores de futebol abriu no passado dia 1 de Janeiro, e Portugal tornou-se imediatamente o campeão europeu das compras: os clubes portugueses gastaram já 18,8 milhões de euros em jogadores (contra 13,4 milhões em Itália, 3,7 milhões na Alemanha, um milhão em França e zero em Espanha, Inglaterra e Irlanda). A maioria dos produtos de alimentação diária têm uma taxa de imposto de 20 por cento. Já imaginaram quantos milhões de euros entrariam para o Orçamento de Estado se as compras de jogadores fossem taxadas, pelo menos, pela tabela do bife e do iogurte? Uma gota de água, é a resposta habitual. Exactamente. A gota de água que, somada a outras gotas de água, mataria a sede. Se todas as empresas aplicassem a regra que o empresário Alexandre Soares dos Santos, que o Expresso elegeu como figura do ano, aplicou às suas - congelar os salários de topo e subir os mais baixos -, outras gotas de água se juntariam a essas. O Estado deveria dar o exemplo. Agora que o presidente do Banco de Portugal parece encaminhar-se para o El Dorado do Banco Central Europeu, seria útil que se aproveitasse para baixar a tabela salarial do posto (17.817 euros mensais). Dois mil euros que fossem - coisa pouca. Menos de quatro salários mínimos, destes novos que o Governo impôs e que as confederações patronais acham exorbitantes (475 euros por mês). Ao fim de um ano, ter-se-iam poupado 24 mil euros. Uma gota de água. Quatro empregos. A sobrevivência de quatro famílias. Idênticas gotas de água poderiam ser extraídas da generalidade das empresas públicas. Até encher o copo, lentamente. É isso que fazem as gotas de água.

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 9 de Jan de 2010
Oficialmente, a cultura tornou-se, como a definiu Agustina, "um conjunto de prerrogativas".

Nas políticas culturais, esta não foi a década zero, porque foi a década menos dez: aquela em que o trabalho que vinha a ser feito na década de 90, em particular de 1995 a 2000, foi deitado para o lixo. O desprezo a que foram votadas as políticas culturais na última década representou um retrocesso concreto não só na afirmação da cultura portuguesa dentro e fora de portas mas sobretudo no desenvolvimento das capacidades e expectativas dos cidadãos. Assistimos a uma inflexão do conceito de cultura, que se tornou acontecimento ou festa pontual, em vez de estratégia transversal de estímulo à criatividade. Oficialmente, a cultura tornou-se, como a páginas tantas a definiu Agustina Bessa-Luís, "um conjunto de prerrogativas", ou seja, um instrumento de alienação dos criadores e uma fórmula de controlo e aquietação das populações. Multiplicaram-se os festivais de rock, as feiras medievais, as exposições de encher o olho e os concursos gastronómicos, e desapareceram os projectos de desenvolvimento sustentado nas mais variadas áreas da criação. Esta foi uma década de estilhaços, promessas inconsequentes, celebrações e citações desgarradas. Finou-se a política para o cinema e o audiovisual, finou-se a política do livro e da literatura, finou-se a política teatral e museológica. Todas estas políticas morreram à fome. Concentraram-se todos os meios nas novas tecnologias, esse deus contemporâneo e vazio, sem que ninguém parecesse pensar que o crescimento tecnológico depende, ele mesmo, da cultura. Preferiu-se a palavra "educação". É uma palavra importante, essa, num país que passou demasiados anos a falar de direitos de professores e alunos, sindicatos e comissões de estudantes, esquecendo o objectivo final e fundamental de toda essa agitação: mais e melhor educação. Mas educação sem cultura, como é? Computadores e redes sem pensamento, para que servem? A despromoção da filosofia nos currículos escolares sinaliza a menorização da inteligência desejante, investigadora, sem a qual não existe cultura.

O desinvestimento na área cultural tem sido acompanhado e apoiado nos media por um discurso neoliberal, pretensamente libertário, que afirma que a intervenção estatal nesta área deve cingir-se à preservação do património museológico. Segundo este discurso, os escritores não precisam de bolsas de criação para escrever, nem os pintores para pintar, e toda a actividade criativa que exija investimento prévio deve esfolar-se por arranjar mecenas. O problema é que os mecenas não estão à vista, e a lei do mecenato existente está, como aliás metade do país, embalsamada em burocracia; no Brasil, o Ministério da Cultura orçamenta os projectos e garante aos mecenas que cada cêntimo do dinheiro investido lhes será subtraído dos impostos. E há ainda outro problema, basilar: uma obra de arte que dependa do lucro imediato ou dos públicos já existentes é pouco susceptível de gerar inovação ou de ampliar os horizontes da sua época. Numa perspectiva mercantilista, o ensaio e a poesia acabarão por morrer nas gavetas de quem os escreve.

A estratégia de promoção da cultura portuguesa no estrangeiro, através de traduções, presenças marcantes em feiras internacionais de literatura e artes plásticas, apoio à divulgação externa do cinema, acabou precisamente no momento em que o reconhecimento exterior da cultura nacional começava a tornar-se realidade. Alguns artistas das novas gerações, já educados na cultura do individualismo absoluto e da competição feroz, lá vão correndo mundo com as obras debaixo do braço e de telemóvel em punho, para anunciarem à imprensa os seus quase sucessos num ou noutro cantinho, o que cria uma ilusão de cultura em movimento. A verdade é muito mais parada e triste do que isso. Fernando Pessoa é um desígnio universal que, para espanto dos muitos estrangeiros que desembarcam em Lisboa em busca dos seus sinais, não interessa como desígnio nacional. O pouco que se tem feito em matéria de cultura deve-se à energia de alguns seres luminosos e à sensibilidade específica de alguns autarcas - é o caso do Festival Literário Internacional Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, que celebrou este ano o seu décimo aniversário. O abandonado Pavilhão de Portugal é o símbolo de um país que a si mesmo se maltrata, se delapida, se interrompe, se afoga. Um país que nunca mereceu os criadores que teve e continua a não merecer os criadores que tem - por isso tantos deles se exilaram e exilam. "É a hora!", escrevia Pessoa, há 75 anos. Não foi. Será agora?

Texto publicado na edição da Única de 31 de Dezembro de 2009

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Sábado, 2 de Jan de 2010
O feminismo libertaria os homens, se as mulheres deixassem.

Num almoço de Natal de um grupo de mulheres feministas, alguém às tantas evocava, num riso cortado por um travo de melancolia, os tempos felizes em que era, no seu dizer, "uma boa cama". Logo uma outra voz se ergueu como um muro: "As mulheres não devem usar essas expressões primárias tomadas de empréstimo ao léxico masculino". Respirei fundo, pensei três vezes no meu mandamento experimental de mulher madura ("Não responderás impulsivamente"), lancei os olhos para a janela e apaixonei-me de novo pela beleza estarrecedora de Lisboa, casario e Tejo e tudo, ali aos meus pés. Quando dei por mim, entontecida de felicidade pela redescoberta do meu amor louco pela minha cidade, já tinha respondido que sermos livres é podermos escolher o léxico que quisermos e que não percebia para que tinham andado as feministas a labutar tanto se afinal o gozo de falarmos de bom sexo, com mais ou menos primarismo, fantasia ou presunção, continuava interdito. Acho que ainda acrescentei o meu estribilho habitual: "Não foi para isso que se fez o 25 de Abril". A paixão acelera-nos os níveis de impulsividade e sucede que os meus já nasceram altos. É-me difícil refrear o hábito de dizer o que penso. Tenho-me treinado para o dizer com um recuo de tempo que me confira uns fumos de respeitabilidade, porque entre os mitos urbanos da nossa civilização refulge esse que associa as poucas palavras, e pronunciadas com um ar densamente meditado, a inteligência e saber. Em geral, os homens são melhores no uso deste mito do que as mulheres. Por duas razões: em primeiro lugar, porque foram eles que o criaram, e em segundo, porque têm sido educados para pensar em menos coisas e mais devagar. As menos coisas em que os homens são treinados para pensar são simples e seguras: eles próprios, e os seus interesses particulares. A vantagem política e social desta educação é óbvia, mas o preço a pagar por ela é altíssimo: as derrotas deles são pesadas e solitárias, a possibilidade de uma mudança estrutural aterradora, os apoios emocionais escassos e a capacidade de pedir socorro muito diminuta.

Sucede que a maioria das coisas não é simples nem segura e por mais que evitemos pensar nelas, elas acabam por vir ter connosco, embrulhadas e inseguras, com ar de mulher. Por isso os viúvos sobrevivem muito menos do que as viúvas, os aposentados se deixam encarquilhar diante da televisão até à morte e as taxas de homicídio masculino são muito maiores do que as femininas. Por causa do mito da concentração monotemática, e da solidão epidémica que ele convoca. As mulheres são treinadas para tomar as dores dos outros, o que não só as alivia das próprias como as conduz a interrogações permanentes, em catadupa, sobre o que são, o que sentem, o que querem, além do que é esperado delas. Agustina Bessa-Luís disse várias vezes que o facto das atenções e esperanças da família se concentrarem no seu irmão foi péssimo para ele e extraordinariamente libertador para ela que, na sua invisibilidade de menina pôde observar com minúcia as vidas alheias e inventar para si mesma um destino singular.

O feminismo poderia libertar os homens, se as mulheres deixassem. Agarram-se a ele como coisa delas, do mesmo modo que eles se agarram ao poder como coisa deles, e se protegem, e se entrecitam, e se disputam e se elogiam uns aos outros para se sentirem importantes, que é o seu modo específico de se sentirem vivos. O mundo lá vai mudando, apesar da repetição automática dos gestos humanos; os pais de hoje, à força do divórcio ou do medo dele, descobrem a alegria sublime do amor pelos filhos. É cada vez mais frequente encontrarmos homens prostrados de amor diante dos filhos, de um modo outrora considerado feminino - nos filhos despejam o carinho que não receberam e não souberam dar, com os filhos ensaiam a intimidade que não aprenderam a criar com amantes ou amigos, com os filhos descobrem, extasiados e amedrontados, que o coração pode ser um lugar luminoso. À revelia dos discursos e do aparente sossego das classificações vetustas, os papéis de mãe e pai contaminam-se, invertem-se, recriam-se. As mães tornam-se a imagem da ordem e da exigência, os pais transformam-se em colos quentes e transigentes - e nada disto é fixo, nem linear, porque a casa e o mundo estão imbricados de uma forma, também ela, nova e em mutação: quando o desemprego sobe escuta-se no espaço público a velha canção da importância da maternidade a tempo inteiro. São os homens quem precisa agora do feminismo. Para conseguirem a longevidade estereofónica das mulheres. É uma questão de impulso, e de verdade.

Texto publicado na Única de 24 de Dezembro de 2009
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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:01 Sábado, 26 de Dez de 2009
Só o sexo atenta contra o nosso pudor. Triste país.

"Até chamei a minha mulher para ver e da janela da minha casa assistia-se a tudo". O tudo a que se assistia era um casal de jovens dentro de um carro namorando com muita intensidade. "Eles não se largavam. A rapariga estava sem camisola e o rapaz estava com as calças para baixo. Eu e outras pessoas passámos junto ao carro, mas eles não se importavam com ninguém", explica o mesmo mirador, definido pelo "Diário de Notícias" do passado dia 10 de Dezembro como morador. Não foi por falta de esforço deste voyeur convicto que os namorados se mantiveram embrenhados um no outro, fora do mundo: o homem viu da janela, chamou a sua Maria para que partilhasse a entusiasmante visão - na esperança de que ela aprendesse alguma coisa? - , depois desceu à rua, rondou o carro, e nada. "Quem foi passando na rua ficou 'escandalizado' com o que viu, sobretudo por ser ainda de manhã, e chamaram a Polícia Municipal. A patrulha chegou ao local ainda a tempo de apanhar os jovens em flagrante delito", conclui o "DN". A notícia tem por título 'Casal apanhado a fazer sexo oral', e surge devidamente ilustrada com a fotografia de uma rua desabrida e a legenda "Foi neste local de Paredes que os jovens se entregaram ao sexo". Lembrei-me de um poema de Daniel Filipe que lia, relia e sublinhava nos meus tempos de liceu, sobre um homem e uma mulher que "inventaram o amor com carácter de urgência" e foram perseguidos por isso mesmo. Estes jovens vão responder em tribunal pelo crime de atentado ao pudor. Sobretudo por "ser ainda de manhã"? Se tivessem guardado os seus ardores para o cair da noite, seria o 'atentado' menos grave?

A expressão "moradores escandalizados" é várias vezes repetida ao longo da notícia. A mim, escandaliza-me a existência da notícia. Ou melhor: escandaliza-me que o centro da notícia seja o 'escândalo' declarado pelos moradores e não o 'escândalo' da condenação judicial dos jovens. Quantas pessoas fazem sexo dentro de automóveis - por não poderem fazê-lo em casa dos pais, por não terem dinheiro ou coragem para alugar um quarto de hotel ou porque, simplesmente, começam a beijar-se e não conseguem parar de se entregar um ao outro? Que mal vem daí ao mundo? O desejo, os beijos, os abraços, fazem mal a quem? Os 'moradores escandalizados' reagiriam do mesmo modo se vissem, dentro ou fora de um carro, um adulto espancar uma criança, um homem espancar uma mulher (ou vice-versa, mas é menos frequente) ou um grupo de jovens humilhar outro? Estas coisas acontecem diariamente e não vêm nos jornais, nem são alvo de processo judicial. Imagino a reacção dos pais da rapariga, lá em Paredes, a este processo. Imagino os castigos a que será submetida, já fora da alçada do flagrante delito.

Enquanto escrevo estas linhas passa num canal de televisão uma das muitas obras-primas de Clint Eastwood, "A Troca", filme inspirado na história verdadeira de uma mulher a quem desapareceu o filho e que a polícia interna num manicómio depois de lhe ter devolvido um rapazinho que não era o seu e arquivado o processo. Durante séculos as mulheres que se rebelavam contra as autoridades foram fechadas em hospícios, sujeitas a choques eléctricos - para as libertar da 'histeria' própria do seu sexo - e anuladas como seres humanos. Ainda acontece, em mais lugares do que supomos. A penalização doméstica e social da rapariga apanhada neste 'flagrante delito' será equivalente à do rapaz?
Entretanto, como é que eu faço para conseguir que a Polícia Municipal resolva os atentados ao pudor que me preocupam e escandalizam?

Escandaliza-me o desespero das pequenas empresas que chegam ao fim do ano sem conseguir pagar os salários aos seus funcionários porque os senhores que mandam ainda não tiveram tempo, dois meses depois das eleições, de delegar competências e fazer com que as contas dos serviços prestados sejam pagas. Escandaliza-me que os compromissos assumidos por um candidato político sejam esquecidos ou negados assim que toma o poder. Escandaliza-me o dinheiro público atirado à rua em festanças inconsequentes, em vez de investido nos instrumentos e símbolos maiores de educação e promoção do país. Estes flagrantes delitos que ocorrem à vista desarmada e à luz fria do sol de Dezembro, não escandalizam ninguém? Não interessam os jornais?

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009


 

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:01 Sábado, 19 de Dez de 2009
Não é a mordidela, mas o bater do sangue.

Já não sei quantas páginas de jornais e revistas se publicaram sobre "Lua Nova", adaptação para cinema do livro com o mesmo título de Stephanie Meyer. Queria contá-las mas a minha filha de onze anos deitou-as para o lixo, vociferando contra a imprensa portuguesa. Enquanto procedia a essa limpeza, a garota perguntava: "Se os livros e o filme são tão maus como todos escrevem, para que gastam tanto espaço com eles?". A pergunta pareceu-me oportuna. Preferi não lhe responder a verdade ("porque vendem"), dado que gostaria que ela não desistisse já de ler jornais e de acreditar que o jornalismo é um serviço público, em vez de uma sucursal de vendas dos Hollywoods. Também não lhe fez mal nenhum acreditar no Pai Natal durante seis anos. Tenho esta ideia de que quanto mais acreditarmos nas coisas e nas pessoas mais felizes seremos e mais sonhos conseguiremos realizar. É uma ideia com a qual não me tenho dado mal. Várias almas bem intencionadas têm tentado convencer-me, ao longo dos anos, e às vezes por ínvios caminhos, que um bocado mais de cepticismo ou, pelo menos, uma dose de hipocrisia com uns fumos de cansaço existencial me seria útil. Sei que até têm razão - mas a alegria de me erguer mil vezes, com a voz e a liberdade intactas, dos escombros das esperanças perdidas, não há utilidade que a pague. É essa mensagem que procuro passar aos que crescem à minha volta.

Na minha arreigada ingenuidade, acredito que os jornais servem para interrogar a realidade. Por isso estranho que ninguém queira perceber o que há neste universo de "Crepúsculo" (o primeiro livro e filme da saga) que tanto excita os adolescentes. Não, não são apenas, nem particularmente, os vampiros ou os lobisomens. As meninas estão fascinadas por Edward Cullen, não por ser vampiro, mas por ser um rapaz diferente dos rapazes que elas conhecem. Um rapaz belíssimo, de 17 anos, que tem um homem de 109 anos dentro de si, isto é: um homem que não confunde amor com sexo. Melhor ainda: um homem que sabe imediatamente o que é o amor, quando o encontra. Um homem que sabe o que quer, em vez de se resignar a saber apenas o que pode. O contrário do protagonista de "A Fera na Selva", de Henry James, isto é: o contrário do ser humano do sexo masculino, tal como o conhecemos: perdido na sua própria vaidade, assustado com a capacidade estereofónica das mulheres, apavorado com a ideia de perder o controlo e de se entregar, agarrado às suas rotinas securizantes e aos instintos do seu apêndice sexual, ou à necessidade de se mostrar o maior garanhão da sua paróquia. A razão pela qual as mulheres crescem a sonhar com vampiros ou lobisomens é simples: em geral, os homens, por si só, são pouco surpreendentes. Não têm mistério. Repetem-se muito. São previsíveis como uma decepção. Vou ser boazinha e acreditar que a culpa não é deles, é da educação marialva ainda em vigor. Aliás, fui educada para ser boazinha e acreditar que, com paciência, os homens mudam. Perdi a paciência há muitos anos, mas organizei-me para não perder a bondade, que é uma forma de esperança, por motivos egoístas.

Não é verdade que, como tanto se tem escrito, Bella Swan, a protagonista da saga, seja um modelo de passividade. Ela salva a vida ao próprio vampiro. A história é explicitamente inspirada no Romeu e Julieta de Shakespeare, abundantemente citado. Nos tempos que correm, é uma felicidade encontrar uma citação verdadeira, isto é, com aspas: anda meio mundo a enganar outro meio com frases tiradas dos clássicos, sem qualquer referência à fonte. Chamava-se a isto roubo; agora chama-se, caso seja descoberto, contaminação, colagem, arte, pós-modernismo ou coisa que o valha. É a liquidez para a qual nos alerta incessantemente Zygmunt Baumant. Uma liquidez que resulta da embriaguez pelo sucesso. Acusa-se Stephanie Meyer de 'puritanismo' porque o sexo entre o par apaixonado é constantemente adiado - embora a menina se esforce muito por trazer o vampiro para os seus lençóis (ele não tem cama, porque não dorme). Aprecio esta assumpção do desejo feminino, tão rara nos filmes e livros para jovens. Pergunta-me a minha filha: "Porque é que têm sempre que escrever 'a escritora mormon' quando falam de Stephanie Meyer? Ninguém escreve 'o escritor ateu José Saramago' ou 'a escritora cristã fulana', pois não?". Pouco importa. Depois de Shakespeare, a minha filha quer ler "O Monte dos Vendavais", por recomendação dos vampiros. Não é a mordidela, mas o bater do sangue.

Texto publicado na edição do Expresso de 19 de Dezembro de 2009

 

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:01 Sábado, 12 de Dez de 2009
O ataque ao casamento homossexual indicia uma fixação no sexo e no poder.

A converseta moralucha em torno do casamento dos homossexuais recorda-me aquele fulgurante poema de Sophia de Mello Breyner que começa assim: "As pessoas sensíveis não são capazes/ de matar galinhas/ porém são capazes/ de comer galinhas". Não se pode chamar debate ou discussão ao que é apenas um tricô de preconceitos, uma espiolhagem salivante sobre a vida íntima dos outros. Os homossexuais têm o mesmíssimo direito ao casamento que todas as outras pessoas, porque o contrato de casamento não se estabelece a partir do tipo de práticas sexuais dos que o contraem. A 'ideia' de que o casamento tem por objectivo a procriação, como afirma a dra. Manuela Ferreira Leite, não é confirmada pela lei de nenhum país democrático, talvez porque nem sequer se lhe pode chamar 'ideia': não passa de um fogacho de autoritarismo deslocado. O casamento não é fácil - e toda a gente sabe que não é a procriação o que o sustenta. Demasiadas vezes, pelo contrário, a mimosa prole estoira com essa relação de carne e alma entre dois adultos. Há gente para tudo, mas, em geral, o sexo não suporta a transfiguração dos amantes em papá e mamã.

O casamento é uma decisão extraordinariamente séria. Os heterossexuais tendem a esquecê-lo, porque podem casar e descasar sempre que lhes apetecer. Desde que procriem, segundo os fanáticos da procriação, não há problema. Mas basta olharmos à nossa volta para verificarmos que é exactamente esse o problema: o frenesim da procriação atenta contra os direitos dos procriados, aqueles a que na adolescência passamos a tratar por malcriados. As novas gerações crescem num hipermercado de mães e pais que mudam de mês a mês como as promoções especiais. O mais elementar bom senso confirmará que uma criança adoptada por um casal homossexual estável terá muito mais hipóteses de desenvolver as suas capacidades do que uma outra - e são tantas, basta abrir as revistas ditas cor-de-rosa para o confirmar - que viva de 'tio' em 'tio', de madrasta em madrasta, até à perda de referências final.

O bom senso só não nos pode meter isto pelos olhos dentro porque, em Portugal, o cenário de um casal homossexual com filhos é inexistente. Por causa da moral de esquina, hipócrita, opressora, da maioria amorfa. O lado esquerdo dessa maioria diz coisas como: "Eu não tenho nada contra a adopção por homossexuais, mas o problema é que a criança vai ser discriminada na escola". Estes são os mesmos que há trinta anos diziam: "Eu não sou racista, mas não gostava que o meu filho casasse com uma negra porque as crianças seriam discriminadas na escola". Agora abanam a cabeça, enervados, e dizem: "Não, não é a mesma coisa: porque a criança necessita de um modelo masculino e de um modelo feminno". Que modelos são esses, nesta fase de mutação acelerada em que as mulheres ganham autoridade e os homens doçura? Que modelos eram esses - o pai que bebia e batia, a mãe que apanhava e chorava? O pai que mandava, a mãe que obedecia? O centro dessa maioria diz: "Não sou contra os casais homossexuais, arranjem-lhes leis que os protejam, mas não lhe chamem casamento". Estes estão imbuídos de uma noção de superioridade: chamem-lhe outra coisa, para não atingirem essa coisa sublime a que só nós, os que fazemos o sexo do qual podem nascer bebés, temos direito. A direita dessa maioria diz simplesmente: "Vivam lá a vida deles, mas discretamente". Ou seja, às escondidas, como os senhores faziam filhos às criadas.

O mundo já caminhou o suficiente (no Ocidente, claro), para entender que as crianças precisam de adultos que as amem. Um homem e uma mulher. Ou só um homem. Ou só uma mulher - os filhos dos viúvos, como se criam sem o tal modelo outro? Ou dois homens. Ou duas mulheres. As crianças precisam de modelos de amor. O amor, qualquer amor, ilumina. Os que se amam devem ter o direito à partilha e à herança um do outro. Devem ter o direito a acompanhar-se na saúde e na doença, em casa e no hospital, até ao último suspiro. As pessoas que pretendem negar a outras pessoas o direito ao casamento, fundamentando essa recusa no tipo de práticas sexuais dos outros, estão certamente a precisar de tratamento psiquiátrico. Porque só pensam em sexo e em poder, e há outras coisas na vida, muito mais importantes. A começar pelo amor.

Texto publicado na edição do Expresso de 5 de Dezembro de 2009

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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:01 Sábado, 5 de Dez de 2009
Só Lula se pode vangloriar do seu próprio analfabetismo.

A única pessoa autorizada a dizer que o Presidente do Brasil é analfabeto é o próprio. Aliás, ele faz mais do que dizê-lo: proclama-o como uma qualidade distintiva, que o superioriza face a "esses intelectuais" que, quando estiveram no poder - vide, Fernando Henrique Cardoso - não conseguiram fazer metade do que ele fez.

É verdade que o perfil de Lula da Silva, designadamente o facto de ter nascido numa família cheia de dificuldades, lhe concedeu um estado de graça único, feito do amor dos desfavorecidos e da diminuição de expectativas dos favorecidos. E convém não esquecer que, apesar do extraordinário crescimento económico do Brasil, os desfavorecidos continuam a ser a grande maioria dos quase duzentos milhões de brasileiros.

O portão de embarque do avião de São Paulo para Aracaju parece um terminal de rodoviária em hora de ponta, e muitos dos viajantes de hoje não teriam, há dez anos, hipótese de entrar num avião - a senhora de ar modesto que pede ajuda para encontrar o voo, porque não sabe ler, é um exemplo disso. Nesse terminal interno do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, as cadeiras escasseiam e não há ar condicionado. Achará o Governo Lula que não vale a pena, já que o povo está acostumado? A notícia da gloriosa modernidade do Brasil ainda não parece ter chegado ao interior do Nordeste. A cidade de Itabaianinha, que usa como cartaz turístico a sua alta percentagem de anões (130 famílias, resultantes da tenaz endogamia da miséria) é um museu interactivo tão eloquente quanto o ultratecnológico Museu da Língua, em São Paulo, uma espécie de avesso hiperrealista desse sonho.

O Brasil que melhorou é o das margens da telenovela. Mas o Brasil é imenso.

Lula soube desenvolver as reformas iniciadas por Fernando Henrique e mostrar que a inteligência não é um derivado dos estudos académicos - mas ao repetir, como repete, frases como: "tem gente que pensa que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você tem. Nada mais burro do que isso", presta um péssimo serviço aos seu país. Se Lula chegou lá sem aprender línguas, nem universidade, nem nada, para quê estudar? - perguntarão os jovens e os seus pais.

O estudo oferece distanciamento crítico, respeito em relação a ideias diferentes e capacidade de encaixe: três coisas que faltam calamitosamente a Lula. Quando algum jornalista ousa falar-lhe do escândalo do mensalão - e são poucos aqueles aos quais é permitido ousar, e mesmo assim só depois de meia hora de preliminares bajulatórios - o Presidente do Brasil quase salta de fúria da cadeira e responde que é tudo mentira, perseguição e inveja. E quando Caetano Veloso refere que o discurso de Lula é analfabeto, grosseiro e cafona - três evidências que aliás muito contribuem para o seu êxito - o escândalo toma tal volume que a própria mãe de Caetano se vê catapultada, aos 102 anos, para as capas políticas dos jornais, explicando que vai pedir desculpa ao Presidente por essa frase do filho.

O pedido de desculpas de Dona Canô surgiu na sequência desta carta assinada por Rodrigo Velloso, irmão de Caetano e secretário municipal de Cultura na cidade em que Caetano nasceu, Santo Amaro da Purificação: "Venho a público esclarecer que a recente declaração, feita pelo cantor e compositor Caetano Veloso sobre o Presidente Lula não expressa, em nenhuma hipótese, a opinião da família Velloso". Os Vellosos (com duplo l) demarcam-se assim do Veloso (só de um l), em defesa do Presidente proletário. Caetano dispensou sempre a pretensão aristocrática do duplo ll (pretensão tão brasileira, tão portuguesa, tão provinciana...) : tudo o que é, deve-o a si mesmo. Nesse aspecto, é mais parecido com Lula do que com o seu mano Rodrigo - seria este senhor secretário de Cultura se não tivesse os manos famosos (Bethânia e Caetano) que tem? Duvido que Maria Bethânia - que nunca usou nome de família, sempre e só o primeiro nome, escolhido para ela, à nascença, pelo mano Caetano - entenda que "a família Velloso" possa ou deva representar uma opinião única. A opinião é assunto da intimidade e precariedade de cada alma.

E o direito à expressão é a condição mínima da democracia. Todas as complicações do mundo advêm da negação das coisas simples. O mais recente disco de Caetano chama-se "zii e zie", que significa tios e tias em italiano. A ligação do título ao seu conteúdo é voluntariamente ténue, quase só uma sibilante em transformação sussurrada. Mas os tios e tias estão aí, vigilantes e surdos, sempre prontos para detectar o escândalo na nota errada.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009

 

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