23/05/2012 atualizado às 2:38
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Igreja católica sem doutrina oficial sobre uso do preservativo

Em 19 anos, pouco mudou no discurso do Vaticano, embora a Igreja não tenha uma doutrina oficial quanto ao uso do preservativo. Mas a sida ceifa cada vez mais vidas.

Pedro Cordeiro
16:23 Quinta feira, 19 de março de 2009
A visita de Bento XVI a África continua a ser marcada pelas declarações que fez sobre o uso do preservativo e a prevenção da sida
A visita de Bento XVI a África continua a ser marcada pelas declarações que fez sobre o uso do preservativo e a prevenção da sida
Finbarr OReilly/Reuters

A posição oficial do Vaticano pouco ou nada mudou em 19 anos. Ao contrário do que se possa pensar, a objecção ao uso do preservativo não se baseia na teologia católica. Nem sequer existe uma tese oficial sobre a moralidade do seu uso para combater as doenças sexualmente transmitidas (a condenação só é clara se usado para evitar a gravidez).

Esta polémica foi reavivada pelo discurso de Bento XVI, anteontem, nos Camarões. Muitos dos que ouviram o Papa recordaram as palavras do seu antecessor, na Tanzânia, em 1990. Ambos rejeitaram, perante multidões e no continente mais afectado pela sida, o uso do preservativo para combater esta epidemia.

Em 2006, o Papa encomendou a uma comissão de peritos científicos e teológicos um documento sobre a legitimidade do uso de preservativos em casais unidos por matrimónio, nos quais um membro fosse seropositivo. O cardeal Javier Lozano Barragan, líder do Conselho Pontifício para Saúde, explicou na altura que o caso admitido era apenas esse. A hierarquia quis, desde cedo, evitar um efeito de bola de neve, que acarretasse a legitimação do preservativo.

A recusa deste método para evitar o contágio é justificada pela sua suposta ineficácia. A Igreja Católica garante que o preservativo nem sempre evita a transmissão do VIH, pelo que defender o seu uso é enganador: estimula a fornicação, desvirtuando o papel do sexo previsto na doutrina, sem proteger da doença.

O mais notável defensor desta tese foi o cardeal Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família, que afirmou, em 2003, que o VIH passa pelos buracos do látex. A ideia foi desmentida quer pela Organização Mundial da Saúde quer pela Comissão Europeia. "O preservativo é parte da solução. A condenação do preservativo é parte do problema", defendeu Poul Nielson, então comissário europeu para o Desenvolvimento e a Ajuda Humanitária.

A escalada da sida e as críticas dos cientistas levaram vários responsáveis católicos a mudar de posição. O cardeal belga Goddfried Daneels considerou, em 2004, que é diferente utilizar o preservativo para deter uma infecção ou para evitar ter filhos. No primeiro caso, aceita-o como o "menor de dois males".

O padre Gerry O'Collins, professor emérito na Universidade Gregoriana de Roma, concordou, evocando o mandamento "Não matarás". França, Espanha e África do Sul foram outros países onde vozes autorizadas da Igreja admitiram o uso do preservativo.

Alguns dos defensores da aceitação do preservativo para evitar a transmissão de doenças argumentam que os pecados não se acumulam. Ou seja, quem tiver relações sexuais em circunstâncias proibidas pela Igreja não se torna mais pecador pelo facto de utilizar preservativo.

Epidemia piorou e muito


A pouca flexibilidade da posição oficial do Vaticano torna-se mais notória quando comparada com o muito que mudou a situação da sida do mundo. Quando o Papa João Paulo II  afirmou que o preservativo era pecado em toda e qualquer circunstância e que só a abstinência e a fidelidade podiam evitar o alastrar da epidemia, havia dez milhões de pessoas infectadas com o VIH. Hoje, são perto de 40 milhões.

Dois terços desse total vivem na África subsariana. Em 2010, de 50 milhões de órfãos que a ONU calcula que venham a existir naquela zona do globo, 18 milhões sê-lo-ão devido a síndrome de imunodeficiência adquirida. Quando o Papa polaco discursou na Tanzânia contra o preservativo, 2% das crianças africanas tinham perdido um ou os dois pais para a sida. Hoje, esse valor é de 28%. Ainda assim, Bento XVI repete exactamente o discurso do seu antecessor.

Os cientistas que criticam o discurso eclesiástico lembram que em África, o continente mais afectado pela sida, ainda há muitas pessoas que acreditam que esta é um castigo divino. Como tal, esperam da parte do Papa uma resposta para a doença.

Recorde-se que um quinto dos africanos é católico e que esta é a região do mundo onde a Igreja de Roma mais tem crescido.

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Crescei e Multiplicai-vos
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 19:25 | Quinta feira, 19 de março de 2009
O discurso de "crescei e multiplicai-vos" é, nos tempos que correm, um discurso perigoso, insano, demente, irresponsável, indigno e só serve para fomentar mais miséria, guerra, fome e insegurança.

Em 1945, o volume da população mundial estava próximo dos 2.5 Mil Milhões de habitantes.

Cerca de 5 décadas depois, em 1990, a população do Mundo tinha duplicado para cerca de 5 Mil Milhões.

Hoje, como sabemos, estamos sensivelmente nos 6.7 Mil Milhões.

Dentro de 4 décadas, estima-se que a população mundial atinja os 9.1 Mil Milhões de seres humanos.

Países africanos como o Uganda, onde se observam taxas de crescimento populacional de 3.4%/Ano, precisam APENAS de 20 anos para duplicar o volume populacional.

Defender a tese de que o uso do preservativo é um pecado, principalmente se for usado para evitar uma gravidez, é um discurso aberrante, anacrónico e demente.
 
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Inacreditável
Opinion Too (seguir utilizador), 1 ponto , 17:36 | Quinta feira, 19 de março de 2009
Sabendo Bento XVI o impacto que as suas palavras poderão ter numa população crescentemente católica, acaba por as proferir. Sendo a Igreja Católica a favor da vida em qualquer circunstância (Eutanásia), neste caso acaba por incentivar à propagação de uma doença, à propagação da morte!...
 
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Não é verdade
HPA (seguir utilizador), 1 ponto , 18:04 | Quinta feira, 19 de março de 2009
Caro Sr. Pedro Cordeiro,

O que afirma, nomeadamente no título, não é verdadeiro, e parece indicar um grande desconhecimento da doutrina Católica, e, talvez mais grave, da própria lógica.

Vamos por pontos:

1. A Igreja condena sempre o uso do preservativo. Esse uso é um mal moral, e há um princípio que diz que não é lícito usar meios maus para atingir fins bons;
2. Um acto sexual para ser lícito tem que ser unitivo e procriativo.
3. Torna-se óbvio que não é desejável que exista procriação quando um dos pais tem SIDA, portanto os conjuges devem abster-se de relações sexuais;
4. Não é lícito usar o preservativo porque (assumindo 100% de eficácia) isso permitiria que houvesse uma relação sexual não procriativa.
5. O preservativo não é 100%, e é altamente irresponsável colocar a vida do conjuge em risco para obter prazer sexual. Diria mesmo que a componente unitiva fica ela propria comprometida.

Assim, a doutrina da Igreja é claríssima (ver, por exemplo, Humanae Vitae) se atendermos à mais lógica, coisa que faltou neste artigo.

Possivelmente o Pedro deixou-se equivocar pelas vozes e Bispos e Teólogos que Católicos... só mesmo de nome. Os mesmos diriam que a ordenação de mulheres é possível (e desejável), apesar de o Papa já ter afirmado ex Cathedra que tal não é possível.

Com os meus melhores cumprimentos
 
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    Re: Não é verdade    Ver comentário
HPA (seguir utilizador), 1 ponto , 18:08 | Quinta feira, 19 de março de 2009
    Uma atitude diabolica    Ver comentário
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 12:31 | Sexta feira, 20 de março de 2009
Catolicismo é comportamento de risco
Manuel Almeida (seguir utilizador), 1 ponto , 12:13 | Sexta feira, 20 de março de 2009
Entre os comportamentos de maior risco de propagação desta terrível doença está a pratica do catolicismo. Essa é a pergunta crucial que os parceiros devem colocar ”És católico praticante?” Se a resposta for positiva é sinal de grande risco de contágio de doenças sexualmente transmissíveis, já que o católico por convicção não se protege, nem quer que os seus parceiros se protejam. Prefere morrer e matar a usar preservativo.

Não é aliás por acaso que na Europa os países com maior número de católicos praticantes, como Portugal, são os que apresentam taxas de doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a Sida, mais altas. Portugal é o país da EU com maior incidência da doença.

A intervenção do Papa deve ser entendida como o que verdadeiramente é. Um apelo ao suicídio colectivo, um acto de pura malvadez consciente.
 
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