A posição oficial do Vaticano pouco ou nada mudou em 19 anos. Ao contrário do que se possa pensar, a objecção ao uso do preservativo não se baseia na teologia católica. Nem sequer existe uma tese oficial sobre a moralidade do seu uso para combater as doenças sexualmente transmitidas (a condenação só é clara se usado para evitar a gravidez).
Esta polémica foi reavivada pelo discurso de Bento XVI, anteontem, nos Camarões. Muitos dos que ouviram o Papa recordaram as palavras do seu antecessor, na Tanzânia, em 1990. Ambos rejeitaram, perante multidões e no continente mais afectado pela sida, o uso do preservativo para combater esta epidemia.
Em 2006, o Papa encomendou a uma comissão de peritos científicos e teológicos um documento sobre a legitimidade do uso de preservativos em casais unidos por matrimónio, nos quais um membro fosse seropositivo. O cardeal Javier Lozano Barragan, líder do Conselho Pontifício para Saúde, explicou na altura que o caso admitido era apenas esse. A hierarquia quis, desde cedo, evitar um efeito de bola de neve, que acarretasse a legitimação do preservativo.
A recusa deste método para evitar o contágio é justificada pela sua suposta ineficácia. A Igreja Católica garante que o preservativo nem sempre evita a transmissão do VIH, pelo que defender o seu uso é enganador: estimula a fornicação, desvirtuando o papel do sexo previsto na doutrina, sem proteger da doença.
O mais notável defensor desta tese foi o cardeal Alfonso López Trujillo, presidente do Conselho Pontifício para a Família, que afirmou, em 2003, que o VIH passa pelos buracos do látex. A ideia foi desmentida quer pela Organização Mundial da Saúde quer pela Comissão Europeia. "O preservativo é parte da solução. A condenação do preservativo é parte do problema", defendeu Poul Nielson, então comissário europeu para o Desenvolvimento e a Ajuda Humanitária.
A escalada da sida e as críticas dos cientistas levaram vários responsáveis católicos a mudar de posição. O cardeal belga Goddfried Daneels considerou, em 2004, que é diferente utilizar o preservativo para deter uma infecção ou para evitar ter filhos. No primeiro caso, aceita-o como o "menor de dois males".
O padre Gerry O'Collins, professor emérito na Universidade Gregoriana de Roma, concordou, evocando o mandamento "Não matarás". França, Espanha e África do Sul foram outros países onde vozes autorizadas da Igreja admitiram o uso do preservativo.
Alguns dos defensores da aceitação do preservativo para evitar a transmissão de doenças argumentam que os pecados não se acumulam. Ou seja, quem tiver relações sexuais em circunstâncias proibidas pela Igreja não se torna mais pecador pelo facto de utilizar preservativo.
Epidemia piorou e muito
A pouca flexibilidade da posição oficial do Vaticano torna-se mais notória quando comparada com o muito que mudou a situação da sida do mundo. Quando o Papa João Paulo II afirmou que o preservativo era pecado em toda e qualquer circunstância e que só a abstinência e a fidelidade podiam evitar o alastrar da epidemia, havia dez milhões de pessoas infectadas com o VIH. Hoje, são perto de 40 milhões.
Dois terços desse total vivem na África subsariana. Em 2010, de 50 milhões de órfãos que a ONU calcula que venham a existir naquela zona do globo, 18 milhões sê-lo-ão devido a síndrome de imunodeficiência adquirida. Quando o Papa polaco discursou na Tanzânia contra o preservativo, 2% das crianças africanas tinham perdido um ou os dois pais para a sida. Hoje, esse valor é de 28%. Ainda assim, Bento XVI repete exactamente o discurso do seu antecessor.
Os cientistas que criticam o discurso eclesiástico lembram que em África, o continente mais afectado pela sida, ainda há muitas pessoas que acreditam que esta é um castigo divino. Como tal, esperam da parte do Papa uma resposta para a doença.
Recorde-se que um quinto dos africanos é católico e que esta é a região do mundo onde a Igreja de Roma mais tem crescido.