O Algarve está a ser alvo de uma réplica do processo de espionagem industrial que nos Estados Unidos está a gerar uma acesa guerra judicial entre dois gigantes dos hotéis, a Hilton e a Starwood.
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) apreendeu a 20 de Fevereiro no Hotel Hilton Vilamoura As Cascatas Resort um servidor informático no valor de €10 mil contendo informações confidenciais do Sheraton Algarve, marca hoteleira da Starwood.
Nos ficheiros apreendidos à Hilton estava todo o plano de negócios de 2008 do Sheraton Algarve, com informações detalhadas sobre orçamento de custos, operação e estratégias de marketing, além dos salários do pessoal e sua distribuição pelas diversas secções.
Nos Estados Unidos, o confronto entre as multinacionais hoteleiras está ao rubro. A Starwood avançou a 16 de Abril com uma queixa no tribunal federal de Nova Iorque contra a arqui-rival Hilton e dois dos seus executivos, por espionagem industrial, roubo de informações secretas e concorrência desleal.
Em xeque, está o "roubo de quantidades massivas de informação confidencial", designadamente de 10 mil ficheiros informáticos com toda a informação sobre os hotéis W, que alegadamente terão servido para a Hilton lançar uma nova marca, a Denizen.
Na sequência deste processo judicial, a Hilton recebeu esta semana uma intimação e já decidiu que vai suspender temporariamente o lançamento dos hotéis Denizen, anunciados em Março e com aberturas programadas para uma série de cidades, desde Beverly Hills a Abu Dabi.
"É um caso flagrante de roubo de segredos de negócio, fraude informática e concorrência desleal", sublinha Kenneth Siegel, conselheiro geral da Starwood. "Nos últimos dez anos investimos uma enorme quantidade de tempo e dezenas de milhões de dólares para criar e desenvolver a marca W", frisa Siegel, sustentando que o roubo desta informação "permitiu à Hilton lançar uma nova marca em apenas nove meses, em vez dos habituais três a cinco anos".
Também o Sheraton Algarve classifica a apreensão dos seus ficheiros no Hilton de Vilamoura como de enorme "gravidade", tendo efeitos directos na perda de negócio e "conferindo vantagens ilegítimas às entidades que porventura acederam e utilizaram a informação confidencial".
Segundo Carlos Leal, director-geral do Pine Cliffs Resort, que integra o Sheraton Algarve, "estamos ainda a apurar toda a dimensão das consequências financeiras produzidas directa e indirectamente sobre os resultados em 2008 e já em 2009". A investigação da ASAE, que poderá dar matéria para uma queixa-crime, aponta para uma infracção da Hilton aos artigos 317 e 318 do Código da Propriedade Industrial, que se referem à concorrência desleal e protecção de informações não divulgadas, o que na lei portuguesa mais se aproxima da figura da espionagem industrial.
A Hilton alega que o processo teve origem "numa queixa anónima sobre um computador usado por um ex-empregado contendo informação relacionada com o hotel concorrente", e garante que "a gestão do hotel era desconhecedora da sua existência e não usou esta informação".
Também nos Estados Unidos, são ex-executivos da Starwood, Ross Klein e Amar Lalvani, agora ao serviço da Hilton, que estão no epicentro da polémica de espionagem. A cadeia de hotéis fundada em 1919 por Conrad Hilton, bisavô da socialite Paris Hilton, foi comprada em Julho de 2007 pela private equity Blackstone Group, por 26 mil milhões de dólares (€19,8 mil milhões), 40% acima do preço no mercado bolsista.
No actual processo de espionagem, a Starwood alega que a Hilton está sob pressão para recuperar o inflacionado negócio da Blackstone, e que o próprio nome da marca que quer lançar, a Denizen, ostenta semelhanças com o conceito dos hotéis W, designado de "zen den", que figurava num dos ficheiros roubados.
Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Abril de 2009