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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 16 de Nov de 2009
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Os pedintes de porta são diferentes. Têm vergonha e pedem desculpa de estarem ali de mão estendida.
Estão de volta. Os pedintes de porta em porta. Aparecem pelas manhãs de domingo, com toques hesitantes na campainha. Muitos não lhes abrem a porta e enxotam-nos de dentro das casas com um seco 'o que quer?' E não esperam para ouvir a resposta. Ninguém diz 'tenha paciência', como dantes. Responder àquela pergunta é embaraçoso. Os pedintes deixaram de se usar. Estavam, como outras espécies, extintos. Ou convertidos em sem-abrigo e excluídos, para a estatística. Os sem-abrigo têm o seu poiso, as entradas dos bancos, das repartições do Estado, as calçadas das ruas, os bancos dos jardins, os becos da cidade. E não pedem à porta, ou porque estão para além do acto de pedir ou porque não têm tino para isso. Nem gostam que as pessoas se aproximem deles, e as pessoas, sentido o cheiro a urina e matéria suja, fogem a sete pés. Os pedintes de porta são móveis e são mais ou menos sãos, estão limpos, têm uma casa. São diferentes. Têm vergonha de pedir e a primeira coisa que fazem é desculpar-se de estarem ali de mão estendida. Explicam a situação. São reformados ou desempregados. São velhos sem reforma. São mulheres sem família. Se não precisassem de comer não estariam ali. Têm de comprar medicamentos.
Nos últimos meses vários me tocaram à porta. Um homem que tinha sido despedido. Outro que não tinha "apoios" e caíra fora da malha do sistema. Um terceiro que adoecera e não tinha dinheiro para se tratar. Apresentavam-se e pediam que lhes arranjassem um trabalho qualquer. Biscates, limpezas, oficinas. Ou uma esmola. Andar de porta em porta não é um meio fiável de arranjar emprego porque as pessoas têm medo de abrir portas a desconhecidos. Os que conseguem vencer a barreira da porta da rua e tocar nas campainhas dos andares sabem que os espera um berro ou o silêncio. Ninguém fica a ouvir a história e muito menos com ela se comove. Os mais ricos vivem isolados nos seus condomínios com garagens e seguranças e viajam com os vidros dos carros subidos. Nunca se cruzam com gente desta. Os novos pobres pedem aos remediados, que estão acima na cadeia de alimentação. Os remediados encolhem os ombros, têm os seus problemas, o Estado que se ocupe.
E as mulheres. Uma mulher diz que não tem quem a ajude. Depende da caridade de estranhos. Chora por trás de lentes tão grossas que não deixam ver os olhos. Umas calças de veludo coçado, que não lhe assentam bem, parecem emprestadas. E um casaco de fazenda demasiado curto. Uns sapatos de atacador. As calças foram dadas, parece que eram de um rapaz. O casaco também. Os sapatos? Não se lembra. Não tem reforma. Tem uma pensão "pequenina". Nunca tratou "dos papéis". Uma sobrinha tomava conta dela e a sobrinha morreu. O marido da sobrinha e os filhos acabaram com isso. É doente, doenças da velhice e da tristeza. Vê mal. Pega num saco de plástico com um nó nas alças e desata-o. Diz que tem fome. O saco tem dentro umas maçãs e uns pães velhos como ela. O que lhe vale é a igreja, onde às vezes lhe dão de comer e roupas usadas. Vive sozinha na cidade, uma "casinha que era dela e do falecido marido", renda antiga, não sabe como pagar os remédios que o médico receitou. A sobrinha é que tratava de aviar as receitas. É semianalfabeta. Não sabe para onde se há-de virar. E o dinheiro não chega. Disseram-lhe que se pedisse sempre ganhava algum. Não tem coração para aquilo. Aqui, na palavra coração, começa a chorar. Estreou-se há dias. As pernas doem. Se fosse mais nova ajudava. Há muitos anos que não via uma mendiga a mostrar um saco com pão lá dentro. A última vez que vi esta cena à porta acho que ainda se usavam sacos de pano para o pão.
Há mais histórias assim, monótonas. A mulher a quem tiraram a casa. Quando voltou do hospital, o senhorio disse-lhe que perdera o direito a ela porque não tinha pago a renda. A renda era paga em mão. Não sei o que fazer. Não sei onde dirigir-me. Não sei o que faço aqui, querem todos dizer. A incapacidade de perceber o mundo onde ainda vivem. Os computadores e os analfabetos coexistindo no mesmo espaço e tempo. Os mais novos andam a entregar publicidade à porta. Tocam à campainha agressivamente, atiram os folhetos para o chão em protesto contra as portas fechadas. Os mais velhos pedem e levam com a porta na cara. Outros andam de noite. O monte de lixo deixado junto dos contentores de reciclagem é passado a pente fino. Um homem revista com método os caixotes dos restaurantes, à cata de restos. Houve um tempo em que esta gente quase desapareceu, apanhada pela prosperidade, que é directamente proporcional à bondade. A crise não gera dadores. Isto está mal para todos, ouve.
Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 9 de Nov de 2009
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No mundo em que vivemos é provável que o Muro se torne apenas uma efeméride. Uma memória.
Sei onde estava no dia em que o Muro caiu. Estava no Expresso, no velho prédio da Duque de Palmela; a fechar a Revista, de que era editora. O Joaquim Vieira, director-adjunto, estava na África do Sul (por causa da queda do avião onde viajava João Soares) e o director José António Saraiva estava a fechar o primeiro caderno. Quinta-feira. Foi um daqueles dias em que um jornalista sente que está no sítio certo. Não tínhamos ninguém para viajar de repente para Berlim; eu não podia largar tudo e apanhar um avião. Não havia lugares nos voos para Berlim. Num mundo sem computador nem internet, sem telemóvel e sem televisão por cabo nem satélite (a CNN só passaria a ser obrigatória depois da primeira Guerra do Golfo), saber notícias significava ver televisão, ouvir rádio e ler os despachos das agências internacionais que chegavam por telex. No Expresso havia uma televisão com os dois canais da RTP. Escrevíamos à máquina.
O meu entusiasmo não era partilhado pelo JAS, embrenhado nas questiúnculas da política nacional. Disse-me que a queda do Muro não era notícia de primeira página. Muito menos manchete. Discutimos. Depois de vários telefonemas, consegui apurar que Sena Santos (RDP) estava em Londres. Pedi-lhe que seguisse para Berlim para fazer a reportagem para a Revista. Passados uns meses, fui a Berlim. Atravessar a cidade do Ku'damm a Berliner Alexanderplatz, atravessar a Porta de Brandeburgo e entrar em Unter den Linden, olhar a Ópera, a Universidade Humboldt, o Hotel Adlon. Ver Berlim aberta, com o soturno edifício da Stasi sem atormentar a paisagem. Berlim, pressentia-se, nunca mais seria igual. O que víamos nesse instante deixaria de existir. E o Muro, arrancado aos pedaços e vendido em bancas, seria uma relíquia.
O "Público", que estava a preparar o lançamento sob a direcção de Vicente Jorge Silva e dos 'dissidentes' do Expresso, perdeu a queda do Muro, com grande pena dos jornalistas. No Expresso, perdi uma das reportagens da minha vida.
A minha geração cresceu à sombra do Muro, filosoficamente falando. O mundo dividido pela Cortina de Ferro era um mundo sob a ameaça permanente de uma guerra nuclear na Europa. A política de blocos dominava não apenas a geoestratégia, dominava a política e o pensamento. O Ocidente livre contra o Leste oprimido representado pela União Soviética e os seus satélites. No Portugal democrático, esta questão ideológica atravessava os principais partidos: o PCP, o PS e o PSD. Não havia uma querela entre liberalismo e socialismo, havia uma querela entre comunismo e socialismo democrático. A queda do Muro prenunciou a mais extraordinária mudança do mundo até ao 11 de Setembro. Reagan dissera a Gorbatchov: deite abaixo este Muro; no dia 9 de Novembro de 1989, o Muro veio abaixo. A URSS implodia.
Nunca vou a Berlim sem visitar Checkpoint Charlie e o Museu do Muro, com o inventário das fugas espectaculares ensaiadas pelos alemães orientais. A Friedrichstrasse tornou-se uma rua elegante, com cafés e lojas de luxo. Para quem viu Berlim dividida, para quem leu John Le Carré, para quem viu os filmes de Fassbinder e depois de Wim Wenders, para quem leu Heinrich Böll, Günter Grass e Hans Magnus Enzensberger, o Muro era o símbolo de tudo o que estava errado na Europa depois da derrota do nazismo. O símbolo da proibição da liberdade e da livre circulação, o símbolo da economia planificada, o símbolo da superioridade moral do parlamento eleito e da economia de mercado sobre o colectivismo forçado. E o símbolo do fracasso de uma ontologia. E de uma metafísica.
Crescemos a ler Marx e Engels e a observar o Muro, os tanques de Praga e Budapeste, os protestos e prisões na Polónia.
Quem visitou Berlim dividida lembra-se da fronteira. E lembra-se dos cães, das correntes, do arame farpado, das torres de vigia, das estações de metro fantasmas, das camas de pregos encostadas às janelas que davam para o corredor da morte, a estreita faixa de terreno entre a prisão e a liberdade. O Muro matou cerca de 200 pessoas. No mundo em que vivemos é provável que o Muro se torne apenas uma efeméride. Uma fotografia. Uma memória. Depois da queda do Muro entrevistei Günter Grass, que era contra a unificação da Alemanha por causa do peso da história e do passado. A Alemanha única era perigosa. E podia ser o despertar do monstro. Não tinha razão. À minha memória dessa data junta-se a imagem de Mitslav Rostropovich a tocar uma suite de Bach no violoncelo, de costas voltadas para o Muro. Perante o silêncio das lágrimas.
Texto publicado na edição do Expresso de 7 de Novembro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 2 de Nov de 2009
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Se fosse ao Saramago, não ia para os lados das Covas do Barroso.
Este país é o Entroncamento. Ficámos a saber que Deus é um "filho da puta". Ninguém agradeceu a Saramago, portanto, no meio do choro e ranger de dentes do "Caim" que ninguém leu e da Bíblia que ninguém leu, ter devolvido dignidade literária ao vernáculo; o que portanto não acontecia desde Gil Vicente e, salvo erro, Lobo Antunes nos anos 80. Só no admirável mundo dos blogues e da brigada iletrada dos comentadores a palavra não caiu em desuso.
Na literatura, estava irremediavelmente perdida, portanto. Na vida, o uso restringia-se a condutores de automóvel, claques de futebol e empregados de escritório depois de uma patuscada na cervejaria. E ficámos a saber por Lobo Antunes em milésima grande entrevista que é um escritor 'humilde'. O homem que disse que depois de Camões só existia ele, portanto.
Ficámos a saber que o distinto deputado Lello, do PS, e o distinto deputado Semedo, do Bloco, acham ter direito ao seu Tamiflu antes das grávidas, crianças e doentes crónicos. Portanto, os órgãos de soberania primeiro, incluindo os distintos. Alguns deputados do PSD recusam a vacinação, não se vislumbrando prioritários; o deputado Semedo, num acto de optimismo e de generoso esquerdismo, explicou que em caso de colapso e pandemia era necessário que os deputados estivessem vacinados para assegurar o normal funcionamento das instituições.
Não tínhamos do deputado Lello, nem do deputado Semedo, portanto, esta noção da sua importância. Caso o "Titanic" se afunde, costuma ser mulheres e crianças, primeiro, deputados depois. Espero que esteja previsto bunker adequado em caso de holocausto nuclear ou colisão de meteoro. Portanto.
O "Gato Fedorento" acabou. Os ex-futuros líderes dos partidos ficam sem palco para anúncios importantes, portanto. Os Gato entrevistaram trinta e tal pessoas. Duas eram mulheres. Uma era "aquela tipa gira do Bloco" e outra, por inerência, a dra. Ferreira Leite. Eis a medida da importância das mulheres na política. Portanto. Temos de arranjar umas Gatas para a quota. E uma Marcela, uma Vitorina. Sócrates tratará disso com o substituto do Santos Silva visto que o país todo se congratulou com as mulheres do Governo; tantas, portanto. Em termos de Gatos, não entram no casting. Com excepção da ministra Pássaro do Ambiente, por inerência.
E ficámos a saber que Santana Lopes não foi dos mais vistos. Ficou atrás de uma série de morcões e da miúda gira. Isto sim, é alarmante. É o fim de uma era, portanto.
Circunspectos, os bispos vieram alertar para a necessidade de proteger o casamento impedindo as pessoas do mesmo sexo de casar. Os católicos mobilizam-se, a pátria ferve, portanto. E entretanto, nos civilizados cerros de Trás-os-Montes, ficámos a saber que um padre fez um bruto desfalque numa Obra Social e outro foi preso na paróquia por posse de armas ilegais. O sacerdote Guerra, 74 anos, coleccionava explosivos, munições e caçadeiras. Um paiol dentro da igreja, portanto.
A polícia esperou educadamente o fim da missa do "senhor prior" para o prender. Para não irritar Deus, portanto, que é um tipo com mau feitio quando lhe entram assim pela casa. A investigação do Guerra, bendito nome, decorria há meses. O bispo de Vila Real veio dizer que o pároco continuará na paróquia de Covas do Barroso e só dela sairá "em caso de prisão prologada" ou "caso não consiga diluir a imagem negativa" junto das populações. Uma questão de "imagem", portanto. O distinto prelado não acredita em terrorismo ou tráfico de armas e sim "num negócio atrevido de armas de caça para fornecimento de amigos".
Este "atrevido" é importante, portanto. Ficámos a saber existir "uma certa tradição de caça entre o clero, principalmente nas zonas de montanha". "Alguns dos nossos sacerdotes foram excelentes caçadores". No dia-a-dia, o bispo acha que convém não andar armado em Osama porque o sacerdote "não pode ser um guerrilheiro da fé". O padre, que a população já tentou afastar, tem queixas e acusações, processos em tribunal. Um padre arguido, portanto. E ficámos a saber que os padres caçam com explosivos.
Sendo Deus quem é, segundo a altíssima e profunda discussão vigente, nada do que é divino nos deve ser estranho, portanto. Com alta profundidade, outro padre disse que Saramago não gosta de Deus mas Deus gosta de Saramago. Ficámos a saber que Deus não é um filho da puta, portanto. É um tipo bestial. Um tipo do caraças. As coisas devem ser postas nestes termos. Em todo o caso, se fosse ao Saramago, não ia para os lados das Covas do Barroso. Portanto.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 26 de Out de 2009
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Os portugueses não sabem decidir. Arrastam tudo. Não têm a noção do tempo.
Encontro-a por acaso. É portuguesa. Quer dizer, não é bem portuguesa, mas sente-se um pouco portuguesa. Estamos sentadas num desses cafés de Londres que servem pequenos-almoços rápidos e internacionais, baguetes com omeletas e salada verde, croissants de manteiga, sumos de laranja em frascos com rótulos que dizem que são frescos e acabados de fazer, granola com leite magro e barras de cereais sem aditivos nem químicos perigosos, pela nossa saúde. Pelo menos é o que diz um cartaz na parede, com um ovo sorridente como um smile a olhar-nos com bondade biologicamente pura. Toda a gente está apressada menos ela e eu. Desembrulho o jornal na mesa onde mal cabe o tabuleiro e depois o telemóvel toca e ela ouve-me falar português. É segunda de manhã cedo e o café está cheio de gente que entra e sai e se prepara para tomar o pequeno-almoço saudável no metro. Ou a andar para o metro. De pé. A correr. O que quiserem. O ovo do cartaz não contava com isto.
Ela tem outro jornal na mão, não é um tablóide. Tem um computador miniatura aberto em cima da mesa, uma mala de cabedal gigante donde saem objectos que tentam escapar e pastas com papéis. O jornal é o "Wall Street Journal".
Interpela-me num português ligeiramente acentuado. É morena e com a pele escura, a face lisa como um tecido de seda enrugado nas pontas. Cabelo preto e olhos fendidos. Indiana? Indiana de Goa, ou melhor, a família é de Goa, católica, com nome português. Uma das mansões de Margão, penso eu. Candolim, diz ela. Brâmanes convertidos ao catolicismo, tentando salvar as terras e os pertences da garra colonial através da conversão. Os goeses portugueses são cosmopolitas, refinados, tolerantes. E maltratados pelos hindus nacionalistas. Uma parte da família ficou em Goa e outra parte foi para Moçambique. Com a guerra, vieram para Londres, e ela foi educada em colégios ingleses. Esteve nos Estados Unidos, trabalhou em Wall Street e regressou depois do crash, em Setembro do ano passado. Está contente por ter voltado.
Curiosamente, no intervalo de 48 horas, é a segunda goesa que encontro. A primeira trabalha num cabeleireiro, uma mulher bonita e afável que acha Portugal um país maravilhoso onde tentou fixar-se sem êxito. Também viera de Moçambique. É um país muito pequeno, muito tradicional, muito estreito, percebi que não era para mim. Esta, com os óculos encavalitados na testa e um ar despachado, diz que Portugal tem óptimas praias, mas não há nada para fazer. Não há dinheiro para ganhar. Nem investimento sério. O país pertence a meia dúzia de famílias, é como Goa. Uma casta. Não é um mercado interessante, porque está controlado por eles e pelo Estado. E não existem serviços financeiros, é tudo muito pequenino. Mulher, com a minha cor de pele... Agora está tudo a correr para Angola, é natural. Angola e Brasil. Como falo português, conheço esses mercados. Depois de regressar da América, o único sítio que me interessava era Londres. Apesar da crise, arranjei emprego. As coisas vão melhorando, devagar. Não tenciono regressar aos Estados Unidos, embora sinta a falta. E da iniciativa, a iniciativa é tudo. Os portugueses não sabem decidir. Arrastam tudo. Não têm a noção do tempo.
Então, diz-me a verdadeira razão pela qual não tenciona regressar. O amor. Ali, com o ovo orgânico a sorrir-nos na parede e o corrupio de gente com pastas e copos a escaldar, ela desiste e diz: casei. Conheci o meu marido aqui. Em Londres. Na América estive para casar com um colega. A tensão em que andávamos fez com que o noivado fosse eterno. Quando me vim embora, sabia que estava morto. Ele perdeu muito dinheiro e ficou desesperado. Só falávamos em ganhar, perder, dava cabo de nós. Um dia, em Londres, entrei num sítio destes, esta cadeia de restaurantes rápidos, estava mesmo em baixo. Um homem alto e corpulento, com uma barba branca e um sorriso simpático, servia cafés. Eu desempregada, a ver os jornais. Pela minha cara, deve ter percebido e perguntou-me se queria mais um expresso por conta da casa. Era o único homem ao balcão, os outros eram todos miúdos, filhos de imigrantes. Conhecemo-nos assim. Casámos passados seis meses. Ele era o gerente do restaurante. Um engenheiro desempregado, divorciado. Uma história pior que a minha. Continua no café, todos os dias. Ganha muito menos e trabalha com adolescentes. Nunca o vejo desanimado. Diz que tem umas ideias para pôr em prática. Montar o nosso próprio negócio. Vamos conseguir. Os ingleses são duros de roer. Sou muito feliz. E o dinheiro? Chega? Ela sorri igualzinha ao smile do ovo. Se chega? Claro que chega. O meu nome é Anjo. Ela pronuncia "anjú". Anjo? Maria dos Anjos. Fiquei Anjo.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 19 de Out de 2009
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Digam-nos o que podemos fazer pela nossa cidade.
Na minha freguesia votamos ordeiramente. Vejo pessoas, vejo pessoas que se comportam como tão desejados cidadãos, votando para decidir a sua cidade. Vejo 'pilares da democracia' e uma classe média informada. Não é uma freguesia rica nem pobre, e não lhe chamaria remediada. É uma freguesia que tem a sorte e a teimosia e os rendimentos para poder viver numa das melhores zonas de Lisboa. Uma zona central, residencial, com muitos prédios antigos, alguns palácios, um jardim belíssimo chamado Príncipe Real e outro chamado Jardim Botânico, alguns museus, escolas superiores e secundárias, lojas, galerias, restaurantes, cafés e as famosas pastelarias de Lisboa onde, como dizia o O'Neill, a aventura morria.
No Outono, as pastelarias têm montras com tigelas de marmelada e os doces de ovos pingados. E as bolas de Berlim, os pastéis de nata, os bolos de arroz. Há tascas antigas com quadros de ardósia e ementas a giz com iscas e pataniscas e há restaurantes modernos com linhas geométricas, tintas brancas e negras, cadeiras translúcidas e candeeiros metálicos. Há uma mercearia gastronómica com uma das mais belas montras da cidade às vezes cheia de bombons e uma florista que dá vontade de comprar girassóis todos os dias. Aos sábados de manhã há um mercado biológico onde se encontram amigos e conhecidos e pessoas que pensam e prezam o ambiente e deambulam os estrangeiros residentes ou em visita.
Das janelas dos andares altos tem-se vista para o Tejo. Os mais privilegiados têm uma vista da cidade de Lisboa a 360 graus. Como uma casa que conheço. De um dos lados consegue ver-se, como diz o poema, para sempre. Num dia claro. Vêem-se os rastos de espuma dos cacilheiros, os mares dentro do Tejo, os verdes e roxos da outra banda, o nascer e o pôr-do-sol, as nuvens reflectidas no espelho do rio, o casario espraiado até à Baixa, os quintais e terraços, os telhados com antenas esquálidas, os vasos com sardinheiras, as palmeiras desnorteadas a sul, as recordações das casas amarelas, e das cor-de-rosa, as varandas ferrugentas, os portões de ferro forjado, os pombos nos beirais, o metal incandescente das tempestades. Vê-se o largo rio e os seus humores, dias em que é chumbo derretido e dias em que é esmeralda rutilada.
Ouve-se a respiração funda da cidade, a passarada empoleirada nas árvores, o miar dos gatos com cio, os risos de crianças no recreio, as buzinas, os eléctricos, os pneus a chiar, as telefonias dentro de casas com cortinas de crochet e as bengalas dos velhos na calçada. Ouve-se o ranger das gruas no porto e as sirenes dos navios que partem na direcção do mar com o Bugio como um polícia sinaleiro.
Se a cidade deixasse de respirar ouvir-se-ia o grito das gaivotas no nevoeiro e o pregão dos vendedores de castanhas assadas que anunciam o Inverno. E os carros na ponte, forçando o metal. Nos dias de chuva ouve-se a água a correr nas goteiras e o ronco subterrâneo das entranhas de Lisboa.
Do outro lado vêem-se os pinheiros mansos do castelo, as ameias cor de areia, os mosteiros e conventos alinhados como sentinelas, as torres das igrejas, os labirintos dos bairros mouriscos.
Nos dias de calor deste Verão indiano, a casa não aguenta o brilho de tanta luz e tanto céu e refugia-se na sombra e no fresco. No bairro, cheira a comida a ferver em panelas e a pão quente noutras. Uma velha padaria tem queques e carcaças com bifanas e malgas de sopa. Existe um vendedor de tapetes persas e um antiquário com máscaras africanas. Existem oficinas e mercearias. Sapateiros e ourives. Artistas e artesãos. Ali mora uma população que tem a sorte de viver no melhor pedaço de Lisboa, das Amoreiras até à Baixa.
O meu bairro é vizinho deste bairro, partilhando a freguesia. Tem algumas das coisas do Príncipe Real, algumas, não todas. Tem mais cheiro a gasolina queimada e mais engarrafamentos, menos lojas e prédios menos bonitos. Menos reabilitação. Menos árvores. Menos ar puro. Não é, conclui-se, um mau lugar para se viver, mesmo sem a vista do mundo da janela da casa. Há nespereiras e figueiras nos quintais, limoeiros e roseiras. E quiosques. E esplanadas. E pessoas.
Nos dias em que se consegue ver para sempre, com a luz do sol a queimar o rio e os olhos, imagino Lisboa como ela poderia ser. Uma cidade feita como uma casa. Uma cidade respeitada pelos seus habitantes e pelos seus visitantes.
A equipa de António Costa tem as condições para ajudar a fazer essa Lisboa. Não me digam o que vão fazer por mim e pela minha cidade daqui a vinte anos. Digam-me o que podem fazer amanhã de manhã. E não nos deixem de fora dessa decisão. Digam-nos o que podemos fazer pela nossa cidade.
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Terça-feira, 13 de Out de 2009
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Anotem, autárquicos candidatos: a solução de todos os problemas da cidade chama-se Olímpicos.
Um homem não chora? Se ouvir dizer que a sua cidade ganhou os Olímpicos, chora. Neste fabuloso momento um homem está inteiramente à vontade para chorar. Não digo choramingar, digo chorar. Foi o que Lula fez: chorou. Limpou os olhos com um lenço e voltou a chorar. Nós não podíamos ficar mais contentes por ele. Mais importante do que ganhar uma medalha nos Olímpicos é ganhar o direito aos Olímpicos. É como nos Óscares: mais importante do que ganhar a estatueta é exibir o trapinho e as jóias, a griffe, como dizem os nossos irmãos, na passadeira vermelha. Ele é Armani, ele é Prada, ele é Donna Karan, ele é Yves Saint Laurent. Quem se interessa pelos filmes? Alguém se lembra quem ganhou o Óscar do melhor realizador? Ou da melhor actriz secundária?
Nos Olímpicos é igual. Ninguém se lembra quem ganhou as medalhas do pentatlo e da maratona. Toda a gente se lembra de Pequim e dos milhões, das torres, dos edifícios, das pontes, das estradas, dos transportes, dos hotéis. Novinhos em folha. Toda a gente se lembra da arquitectura. Das festas. Das exposições. Dos arranha-céus. Dos centros comerciais. Da Internet censurada. A China passou no teste. É rica. Bem-vinda ao primeiro mundo.
Várias reportagens da ressaca dos Olímpicos atestam que o gasto excessivo não foi compensado pelas receitas. E que muitos edifícios estão vazios. E que o turismo não aumentou. Etc. O que é que isto me faz lembrar? Estádios? Pavilhões? Vazios? Inúteis? Hei-de ver se me lembro.
No entretanto, o Brasil pulou de contente e nós, seus irmãos, com eles. O político mais popular do mundo deu uma entrevista explicando que gastar 22 mil milhões de dólares não é um problema para o Brasil. Porquê? Porque o Brasil é uma grande economia e um país muito rico. Quantos milhões? Amendoins, traduzidos (porque Lula não falou inglês) por peanuts. Ponham lá 222 mil. Milhões. O Brasil é rico. Muito rico. O Rio é uma cidade maravilhosa. Tem aquele pequeno problema dos pobres e dos miseráveis. Dos meninos da rua. Das meninas vendidas. Das favelas. Dos assassinos. Dos assaltantes. Dos comerciantes de droga. Dos esquadrões da morte. Dos carros blindados e com vidros fumados. Dos semáforos vermelhos sem parada. Da noite. Uma pessoa sai do aeroporto pela Linha Vermelha e apanha com um tiroteio em cima. Já visitaram a Baixada? Os morros lindos de morrer quando escurece, com as luzinhas? A Candelária de madrugada? O Maracanã no final do jogo?
Para ganhar uns reais são cinco horas de autocarro entre a favela e o emprego. Serviçais deixam os filhos no morro e dormem a semana em cubículo na casa da patroa. Milhares são mortos em tiroteio. Tanques de guerra lutam contra a droga. Etc. O futebol, o carnaval, a televisão e a religião amansam as massas. E os negros ficaram do lado de fora da classe média. Etc. O Presidente chorou. O Pelé. E o Brasil.
Até que me lembrei do muro. Claro, o muro. O muro está a ser construído e apertado como um torno separando as favelas e as indignidades criminosas do comum dos cidadãos abastados e cumpridores. Com o muro, vários muros, e com os miseráveis e pedintes e assassinos e dealers atrás dos muros, os Olímpicos passarão olímpicos na Linha Vermelha. Como quem passa na passadeira vermelha.
Anotem, autárquicos candidatos: a solução de todos os problemas da cidade chama-se: Olímpicos. Os Olímpicos trazem bem-estar, monumentos, prédios, transportes, alegria, estádios, pavilhões e mesmo essa coisa que dá pelo nome de aldeia olímpica. E segurança. Bagdade e Cabul: candidatem-se. Tudo o que não foi feito antes passa a ser feito agora e em tempo recorde. Uma cidade, por mais maravilhosa que seja, não é concebida e construída, planeada e moldada para os seus habitantes. É para os visitantes. Os turistas. Os atletas. Enfim, o mundo.
Vendo bem, os pobres ganham. Expeditos cariocas hão-de arranjar modo de saltar o muro e vender mais droga, assaltar mais turista, trocar mais tiro e limpar o sebo a mais bope. Vender-se-á mais samba e bossa nova, mais cocada na praia, mais pastelinho em Copacabana, mais mulata em hotel, mais criança para tarado. O sistema de saúde melhorará. Mil bairros sociais florirão. As favelas desaparecerão. A corrupção será punida. Os meninos da rua estudarão. A prisão será corrigida. O mensalão será abolido. E o bicheiro. Lula sorrirá bondosamente. O Rio esplendoroso mostrará o seu cosmopolitismo e a sua maravilhosa luta de classes cessará. E nós, portugueses, já andamos por aí aos pulinhos a dizer, temos de aproveitar, temos de ganhar algum com isto, eles falam português, porra! Venha daí o maldito Acordo Ortográfico e venha o fato em vez de facto. Venham mais imigrantes brasucas. Amemo-los, irmãos. Quem diria. O espírito Oliveira de Figueira é maravilhoso. Acho que vou chorar.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Outubro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 5 de Out de 2009
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Enquanto o PSD continuar entregue a intriguistas e sibilinos não merece ser poder nem dar poder.
A sibila de Delfos estava sentada na pedra sibilina e respirava os vapores que vinham da terra e das folhas de louro que ardiam. Supõe-se que teria os olhos marejados e que das essências queimadas soprava um fumo que a fazia dizer coisas incompreensíveis. Era próprio da sibila que as suas palavras fossem recompostas pelos intérpretes, que as manipulavam a seu gosto, e pelos ouvintes, que voltavam a recompor as interpretações. E assim se recriava o mito do oráculo e das profecias a partir de um erro habilidoso e de vapores de efeito duvidoso.
A crença no oráculo de Belém e na sua sibila sofreu nestas eleições um rude golpe. Já ouço as vozes dos sibilinos do PSD interpretando a vitória do PS como mais um fenómeno da "sorte" de Sócrates, como se o homem estivesse predestinado a ter "sorte" com a crise internacional, os bancos falidos dos apoiantes e amigos da sibila, o desemprego e a dívida. Na verdade, o PS mereceu ganhar as eleições, mesmo sem maioria absoluta, na qual ninguém acreditava e, mais importante, o povo português não acreditava. Ao contrário da sibila, o povo português pronunciou-se e achou melhor não oferecer maiorias absolutas, obrigando os partidos a negociarem a viabilidade do país e a responsabilizarem-se pelas decisões. Na verdade, o PS fez uma campanha positiva e o PSD fez uma campanha negativa e cheia de atoardas e justificações secas para esconder a irremediável asneira da sibila. Seria bom que a sibila se deixasse de pronunciamentos vagos, apagasse a fogueira da instabilidade e se comportasse como o primeiro magistrado da nação, refém da unidade nacional e não de intrigas e "manobras pífias", para citar o desassossegado director do "Público".
Como é que este resultado deixa o PSD? Mal. O partido precisa de renovação e precisa de se libertar, definitivamente, da figura tutelar de Cavaco Silva. Os sucessivos sentimentos de orfandade, primeiro de Sá Carneiro e depois de Cavaco Silva e até de Durão Barroso, obrigam o PSD a escolher o mal menor em vez de escolher um chefe. Manuela Ferreira Leite demonstrou exaustivamente que não estava preparada para governar e que não estava preparada para deixar governar. Os seus sibilinos terão de procurar outra sibila. Sibilas a mais.
O que resta? Ao PS, um segundo fôlego que terá de ser politicamente negociado caso a caso. A José Sócrates, uma segunda vida como primeiro-ministro que terá de aprender a conviver e a negociar com os adversários. Num Parlamento revigorado e com um Presidente enfraquecido (destituindo a profecia do sibilino Marcelo em relação ao tempo de vida deste governo antes de Cavaco o demitir e dissolver), o novo governo terá de buscar acordos programáticos que o autorizem a governar. Não será fácil e será, curiosamente, o regresso da política. Será a famosa "ingovernabilidade"? Pode não ser. E pode não ser porque, com um PSD renovado e com um PP que conquistou o lugar de terceira força política, Sócrates tem mais hipóteses de se vir a entender com o centro e a direita do que com o Bloco e o PCP.
O crescimento do Bloco nas europeias e a euforia tiveram o resultado esperado. Um Bloco assanhado deixou de ser uma ideia simpática e modernaça. O Bloco demonstrou a sua natureza ao afastar deputados das listas por ousarem pensar pela sua cabeça. Só pode e só quer ser contrapoder. Quando foi poder, caso de Lisboa, ficou tão arreliado que difamou o seu candidato. Um erro eloquente. O PCP definha a olhos vistos, e talvez o Bloco possa continuar a crescer à custa dele e não do PS. Teve a votação que merecia, e com estes votos pode continuar a ser o partido moralista. Moralismo em doses homeopáticas.
O resultado do PP foi vencedor. O eterno retornado Paulo Portas foi o mais inteligente e bem preparado líder da direita, o que fez melhor campanha para essa faixa de eleitores, o que não descurou o eleitorado (idosos, agricultores, conservadores desagradados com os desmandos do PSD, convertido num saco de gatos). O PSD precisa de encontrar o seu Paulo Portas. Dito isto, é com Paulo Portas e com o PP que Sócrates tem mais hipóteses de se vir a entender pontualmente. É uma ideia que não agrada à esquerda do PS, mas a esquerda do PS também demonstrou que não tem coragem, nem ideias. Se as tivesse, tinha avançado. Manuel Alegre terá entendido que sem o PS não chega a Belém, e o PS entende muito bem Manuel Alegre.
Sócrates e Portas partilham a determinação e a resistência, e, convenhamos, as relações do PS com um PSD que se entregou a falácias e ataques ad hominem são péssimas. Enquanto o PSD continuar entregue a intriguistas e sibilinos não merece ser poder nem dar poder. Já agora, o oráculo de Delfos teria proclamado Sócrates o homem mais sábio de toda a Grécia. E Sócrates teria respondido ser o mais sábio por ser o mais consciente da sua ignorância. Sábias palavras.
Texto publicado na edição do Expresso de 3 de Outubro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Terça-feira, 29 de Set de 2009
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Ninguém sabe o que a personagem de Eça queria dizer com a expressão. Discutam e depois votem.
O nervo político dos portugueses anda espicaçado como não andava desde o combate presidencial entre Mário Soares e Freitas do Amaral para as presidenciais. Precedido do combate entre Mário Soares, Maria de Lourdes Pintasilgo e Salgado Zenha para a primeira volta da esquerda desunida contra a direita.
Nesse tempo, dentro das redacções dos jornais tomava-se partido e discutia-se política nos corredores (precursores do Twitter), na sala da maquetagem e paginação, na gráfica. As redacções fervilhavam de paixão. Havia zenhistas que acusavam os soaristas de serem uns bandidos; havia pintasilguistas que acusavam os zenhistas e os soaristas de dividirem a esquerda; havia soaristas que acusavam os zenhistas de serem eanistas ressentidos; havia zenhistas que acusavam os pintasilguistas de serem aliados dos soaristas; enfim, era um espectáculo de berros cercados por espirais de fumo de cigarro e escandalizados por golinhos de whisky. Só o cansaço da madrugada acalmava os espíritos. Escrevíamos de noite, fechávamos páginas de noite, vivíamos de noite. No edifício do Expresso da Duque de Palmela comia-se e bebia-se política e Francisco Pinto Balsemão era acusado por correligionários de ser um liberal excessivo e de ter uma redacção "de esquerda" cheia de maoístas e udp's transviados. E de socialistas. Era verdade, e muitos deles são hoje de direita.
À direita, o rio não corria mais tranquilo. Freitas do Amaral não tinha o apoio total do PSD e muitos votariam em Soares. O grande medo era que o PC de Cunhal votasse nele também, o que daria uma desagradável coabitação táctica entre comunistas e sociais-democratas. À esquerda, Soares sabia que se fosse a uma segunda volta necessitava do voto dos comunistas, de quem tinha sido o inimigo principal. Nada era claro e tudo era ideológico. Estava-se em 1985 na dobra para 1986. Mário Soares partiu com 7%, e com toda a gente convencida de que era uma corrida de vencido contra vencedores. A esquerda parecia mais disposta a unir-se em torno do catolicismo social de Pintasilgo ou do moralismo reprovador de Zenha do que da figura e das convicções de Soares, que era acusado de todas as malfeitorias e traições. O tom da campanha era violento e a disputa atirava velhas amizades para a vala comum da suspeita e do insulto.
Jornalistas, comentadores e analistas trabalhavam mais ou menos clandestinamente nas campanhas dos seus candidatos e nenhuma linha era escrita sem molhar a pena no tinteiro da ideologia. Intelectuais e artistas sentiam-se ameaçados na sua liberdade e produziam a doutrina correspondente. A famosa imparcialidade foi deitada para o lixo e fazia sentido, ou parecia fazer sentido, o empenho na salvação da pátria apoiando um candidato. Faziam-se favores e congeminavam-se golpes baixos (ainda não existiam assessores profissionais) porque se entendia que não eram golpes nem favores, eram actos de cidadania e "engagement" que contribuíam para o bem da nação.
Embora a personalidade dos candidatos contasse, e muito, para a sorte dos votos, contava também uma concepção romântica da esquerda, encabeçada por Zenha e Pintasilgo, e uma concepção pragmática da esquerda, encabeçada por Mário Soares. Sociais-democratas que não gostavam de Freitas e da democracia-cristã reviam-se no socialismo democrático de Soares e tencionavam votar nele contra uma esquerda "estalinista" que detestavam.
A segunda volta, com Zenha e Pintasilgo eliminados, reuniu a esquerda em peso contra a direita. Rivais e inimigos unidos contra a direita "antidemocrática", "capitalista" e "fascista". Freitas do Amaral foi ridicularizado como um símbolo do grande capital porque usava um loden. O casacão verde tornou-se uma espécie de bandeira dos "betos" hostilizada pelos "fixes" de Soares. Soares, que rejubilava com campanhas duras, vestiu um capote alentejano e foi ao Alentejo converter os comunistas. A sombra de Freitas do Amaral era o jovem "beto" Paulo Portas, que também devia ter o seu loden e que se estreava em público como estratego. Os "betos" diziam que os "socialistas" cheiravam mal e não se lavavam e os "socialistas" diziam que os "betos" cheiravam a mofo e antigo regime.
Discutia-se nos cabeleireiros e nas tabernas, nos escritórios e nas oficinas, nas ruas e nos becos, nos carros e nas casas, no céu e na terra. A campanha serviu de grande catarse para o sevandijismo. Era como o futebol. Disse-se de tudo, escreveu-se de tudo, fez-se de tudo. Sem Internet nem telemóvel, com uma televisão única e oficial, a campanha mobilizou o povo português. Sabemos como tudo acabou. Havia uma personagem do Eça em "A Capital" que dizia "Eu, quando há calistos, não posso!" Ninguém sabia o que ele queria dizer. Discutam e depois votem.
Texto publicado na edição do Expresso de 25 de Setembro de 2009
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 21 de Set de 2009
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Sócrates tem citações a mais.
Sócrates ganhou o debate mas isso não interessa nada. Sócrates ganhou o debate mas não ganhou um único voto. Sócrates ganhou o debate porque tinha obrigação de estar mais bem preparado. Sócrates ganhou o debate porque quem governa tem obrigação de estar mais bem preparado. Sócrates ganhou o debate porque tem um gabinete de propaganda . Sócrates ganhou o debate porque tem muitos assessores.
Os assessores de Sócrates espiam o Presidente da República nos banquetes e visitas oficiais. Os assessores de Sócrates sentam-se onde não se deviam sentar nos banquetes e visitas oficiais para ouvir as conversas. Sócrates ganhou o debate mas não esteve à altura.
Sócrates ganhou o debate mas não conseguiu responder à questão mais importante. Sócrates ganhou o debate mas não chega para ganhar as eleições. Sócrates ganhou o debate mas não ganhou a confiança dos eleitores. Sócrates ganhou o debate mas é agressivo. Sócrates é agressivo com Judite de Sousa por causa do marido dela. Sócrates ganhou o debate mas é tarde de mais. Sócrates abusou das falinhas mansas. Sócrates ganhou o debate mas não falou sobre o que fez enquanto Governo.
Sócrates ganhou o debate porque só falou do Governo para fazer propaganda. Sócrates ganhou o debate porque só fala do futuro e do TGV.
Sócrates ganhou o debate porque só falou do passado. Sócrates não gosta de falar do passado quando se trata do caso Freeport. Sócrates tem a mania de invocar o caso Freeport para se vitimizar. Sócrates ganhou o debate porque tem a experiência de idas ao Parlamento. Sócrates nas idas ao Parlamento reduziu o debate político a zero.
Sócrates ganhou o debate porque é um político profissional. Louçã, Jerónimo, Portas e Manuela não são. Sócrates podia ter ganho o debate se não tivesse empatado. Sócrates empatou todos os debates. Sócrates perdeu todos os debates. Sócrates perdeu todos os debates em que não participou. Manuela Ferreira Leite ganhou todos os debates incluindo aqueles em que não participou. Sócrates tem citações a mais. Sócrates não conhece um único poeta. Sócrates não conhece Manuel Alegre.
Sócrates trasladou clandestinamente Jorge de Sena porque não o conhece. Manuel Alegre não quer ser trasladado clandestinamente. Belém tem um assessor que disse ao jornal "Público" que um assessor de Sócrates espiou o Presidente da República. Louçã nomeou um assessor do Presidente da República como sendo a fonte dos 'espiões'. Fernando Lima é um assessor presidencial sério. Francisco Louçã é um homem sério. O Presidente da República é um homem sério.
O director do "Público" foi acusado pelo provedor do "Público" de ter publicado deliberadamente uma notícia falsa sobre os espiões e as escutas ao Presidente. O director sofre de asfixia democrática. Manuela Moura Guedes é uma jornalista asfixiada. Manuela Moura Guedes começou a carreira como apresentadora do Festival da Canção com o nome de Manuela Matos segundo fonte do YouTube.
Manuela Moura Guedes (ainda) não dirige o YouTube. Manuela Moura Guedes está disponível para dirigir o YouTube se o marido a convidar. Ou qualquer coisa para que o marido a convide. O marido (ainda) não é o patrão do YouTube. Moniz é mais importante do que Berlusconi. Berlusconi não é um homem sério. Sócrates é o verdadeiro Berlusconi. Sócrates não é sério. Sócrates é um traidor à pátria e trabalha para os espanhóis.
Sócrates nunca foi administrador do banco espanhol Santander. Manuela Ferreira Leite foi administradora do banco espanhol Santander. Manuela Ferreira Leite sabe bem do que fala quando fala de espanhóis. Manuela Ferreira Leite é genuína e patriota. Manuela Ferreira Leite vendeu dívidas do Fisco e da Segurança Social portuguesa ao Citigroup para diminuir o défice. O Estado perdeu dinheiro com o negócio.
Sócrates tem a mania do défice. Sócrates beneficiou com a crise. Sócrates ganhava as eleições se não tivesse aparecido a crise. A crise não passa de um abalo inventado por Sócrates. Manuela Ferreira Leite lamenta que se fale assim de um abalo. Sócrates nunca deu conferências. Não percebe nada de finanças. Não consta que tenha biblioteca. E suspendeu a democracia há mais de seis meses. Manuela Ferreira Leite é genuína.
António Preto é sério e arguido. Alberto João Jardim é sério e genuíno.
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Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
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8:00 Segunda-feira, 14 de Set de 2009
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Lisboa, fora do centro histórico e do parque temático para turistas, não passa de um subúrbio.
Sou uma coleccionadora de cidades. Prefiro-as à grande natureza, que acho vagamente opressiva. Uma cidade no Outono, quando a gente regressa de férias, é um prazer. Uma cidade são cafés e esplanadas, ruas cheias de movimento, lojas bonitas, lojas abertas fora do horário, transportes públicos de qualidade, variedade da população, imigrantes integrados, jovens moradores, parques e jardins, ruas arranjadas, bicicletas e transportes alternativos, estacionamento adequado, moda de rua, livrarias com cafés lá dentro, restaurantes e bares, museus e bibliotecas, exposições e concertos, teatros e clubes, propostas exóticas e ambiente protegido. Uma cidade tem de ter um jardim em cada bairro, população jovem, crianças e velhos, alegria nas ruas, pequeno comércio, oferta cultural, carros afastados dos centros. Entre outras coisas.
Quando desembarco em Lisboa tenho sempre a sensação de uma apatia que mergulha a cidade nessa melancolia que alguns cantam e que é sintoma das doenças da capital. Desembarcar na Portela num domingo e fazer uma viagem de táxi por Lisboa, a ouvir um relato de futebol aos berros, é uma experiência terminal. Em alto contraste com a chegada a uma capital europeia. A terra de ninguém das Avenidas Novas, o inconcebível monumento a Sá Carneiro no Areeiro, os caixotes vidrados da Avenida da República e da Fontes Pereira de Melo, as árvores sombrias do Campo Grande, o desapego ventoso do Parque Eduardo VII, as lojas fechadas da Avenida da Liberdade, a deserção da Praça dos Restauradores (mais feia do que nunca), o vazio e decrepitude das ruas da Baixa, levam-me a pensar o que terá acontecido durante todos estes anos para Lisboa ter chegado a este estado vil.
Com excepção do Chiado e do Bairro Alto, onde se ouve música e se vêem jovens e não velhos com ar abatido, e da LX Factory (condenada a prazo) toda a Lisboa é uma neura, a neura de que falava Cesário Verde. Quem conhece outras cidades sabe que a cidade é o lugar onde se vê o futuro. Vê-se o que vai acontecer. Em Lisboa vê-se o passado. Em certos domingos, a Lisboa de certos bairros é a Lisboa do tempo de Salazar, a Lisboa das fotografias a preto-e-branco do Estado Novo. A Lisboa da Morais Soares e da Almirante Reis, de Arroios e do Campo Santana, do Conde Redondo e da Duque de Loulé, da Mouraria e dos Anjos, de Alcântara e do Rato (seria possível fazer pior do que o Rato?), da Estrela e da Lapa.
Uma Lisboa silenciosa e posta em sossego, com ruas esburacadas e mal calcetadas, carros estacionados em todos os espaços, velhas que espiam nas janelas, homens que cospem para o chão quando passa a carrinha funerária. E cheiro a chichi de gato, como dizia o Solnado. Com excepção do Chiado, que teve um princípio de esforço de "colonização", e do esforço inacabado do Bairro Alto (graças à visão, entre outros, do empresário Manuel Reis), e do bairro de Campo de Ourique ou das ruas adjacentes à Avenida de Roma, tudo o resto mudou pouco em 35 anos. A Expo melhorou a zona mas não é mais do que um subúrbio de luxo. Os condomínios privados espalharam-se e os centros comerciais também, matando a vida das ruas, eliminando os cinemas, eliminando os cartazes e os néons. Eliminando a vida. Sobram bancos, que matam as fachadas, e medonhos edifícios públicos e escritórios.
A oferta cultural é infinitamente maior e apesar disso a Baixa é um deserto e o Terreiro do Paço uma área de desastre. A Lisboa à beira-Tejo está tomada por monstruosidades e pelo porto, e o metro, esse modo simples e rápido de deixar o carro à porta, anuncia com estalo que irá até às Amoreiras. Daqui a uns anos. Como se fosse uma grande novidade. Os moradores de Lisboa têm mais dificuldade em deslocar-se dentro de Lisboa do que os da Pontinha.
Várias cidades, de Istambul a Edimburgo ou Sevilha, de Dublin a Berlim e Praga, apostaram nos eléctricos rápidos como meio de circulação. A preocupação 'verde' reina. E os novos empreendedores conseguem 'furar' e abrir pequenas lojas e bares, cafés e galerias, cabeleireiros e restaurantes que atraem os jovens, enfeitam as ruas e as alegram.
Lisboa, fora do centro histórico e do parque temático para turistas, não passa de um desolado subúrbio.
Em vez de mais planos megalómanos e estratégias o que Lisboa precisa é de micromanagement. Serviços decentes, transportes 'verdes', proibição de mais centros comerciais e condomínios privados, atracção da população jovem, recolha e reciclagem do lixo, plantação de árvores, incentivos aos novos empresários e comerciantes, regulação do mercado da habitação e escritórios, arquitectura integrada, responsabilidade dos moradores e proprietários no governo dos bairros. Substituir os carros de vez. Será assim tão complicado?
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