Perante a miséria olímpica, o país pergunta: "quem é o culpado?". Bom, para responder a esta questão, o país deveria procurar um espelho. A raiz deste problema desportivo está na cultura portuguesa. Não, não estou a falar de cultura desportiva. Estou a referir-me ao ADN cultural mais íntimo dos portugueses: o porreirismo.
Portugal é o único país do mundo que inventou uma expressão - 'o gajo porreiro' - com o objectivo de transformar vícios em virtudes. O porreirismo muda o nome às coisas. Por exemplo, nunca há incompetentes em Portugal; só temos coitadinhos. O professor porreiro é aquele que não marca trabalhos de casa. Ou seja, um professor que seria considerado desleixado em qualquer parte da Europa sobe à categoria de 'gajo porreiro' em Portugal. Com esta inversão de valores, os portugueses conseguem viver bem com a sua preguiça e incompetência, visto que estas são as virtudes do 'porreiraço'. Por outro lado, o porreirismo também transforma virtudes pessoais em pecados colectivos. Com muita facilidade, um indivíduo trabalhador desce ao estatuto de 'lacaio do chefe'. Na faculdade, o aluno aplicado que recusa a palhaçada dos trabalhos de grupo é encarado como 'alguém que quer ser melhor do que os outros'. Esta expressão, tão portuguesa, reflecte a perversão moral do porreirismo: uma virtude pessoal - o desejo de superação individual - passa à condição de defeito social.
O porreirismo impõe ainda outra regra: o espírito acrítico. Nesta terra, uma crítica profissional é considerada uma ofensa pessoal. 'Isto não ficou bem feito' é uma frase que os portugueses confundem com 'a tua mãe é uma galdéria'. Devido a esta estranha incapacidade auditiva, os ambientes de trabalho transformam-se em pântanos de incompetência. Os portugueses são incompetentes porque não toleram ser criticados. É assim na escola. É assim na faculdade. É assim nas empresas. É assim nos jogos olímpicos.
Ao denunciar a falta de brio dos colegas, Vanessa Fernandes teve a coragem de negar a portugalidade, isto é, enfrentou um esquadrão de porreiros. Claro que o porreirismo contra-atacou. Nuno Fernandes (comissão de atletas olímpicos) afirmou que "Vanessa Fernandes foi muito infeliz nas críticas que fez aos colegas". Para o porreirismo olímpico, as críticas de Vanessa não revelam o espírito de uma profissional séria; mostram, isso sim, a mente de uma delatora. Este 'Saltillo' olímpico acaba por ser o buraco de fechadura ideal para observar aquilo que se passa sempre em Portugal: o porreirismo transforma a seriedade em delação durante os 365 dias do ano e não apenas nos 15 dias das olimpíadas.
Waishi
A China fez batota na cerimónia de abertura dos jogos olímpicos: computorizou o fogo-de-artifício e colocou uma Lolita oriental a fazer "playback". Estes truques comprovam uma das teses de 'A China Abala o Mundo' (Bizâncio). A cultura chinesa, diz-nos James Kynge, é marcada pelo "waishi". Tradução: os chineses condicionam - de forma simpática - a maneira como os estrangeiros vêem o Império do Meio. Portanto, desconfiem sempre de uma chinesa sorridente: a simpatia é um assunto de estado na China.
Henrique Raposo