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Não explicar, não perceber

8:00 Segunda-feira, 21 de Jul de 2008
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Desconfia-se sempre da televisão. Faz o velho parecer novo. Vizinhos tratarem das suas desavenças à estalada e até ao tiro não é novidade. Era assim que se fazia nas aldeias deste país. Focos de violência entre diferentes comunidades também não. É assim desde que existe humanidade. Que a intolerância é a forma mais imediata de nos relacionarmos com quem é diferente é ainda menos novo. E não está escrito em lado nenhum que as vítimas da discriminação são imunes a sentimentos racistas. As proporções do que se passou na Quinta da Fonte é que são maiores do que o habitual.

Podia acrescentar a tudo isto algumas considerações: que o estilo de vida dos ciganos foi destruído pelas novas realidades económicas e que eles ficaram sem lugar numa terra que é também sua e que há cinco séculos os trata com desconfiança; que as segundas e terceiras gerações de imigrantes (que se envolveram neste conflito) tendem a devolver em ressentimento o desrespeito com que a sociedade tratou os seus pais e os seus avós; que os bairros de realojamento erguidos nas periferias são uma bomba-relógio que acumula todos os problemas no mesmo lugar; que o que vimos na televisão é, em Portugal, a excepção e não a regra.

Mas não posso dizer nada disto. A ditadura do politicamente incorrecto que recentemente se abateu sobre o debate político tem uma lei sagrada: explicar é justificar. E como não se pode explicar, não se pode compreender. E como não se pode compreender, não se pode prevenir ou resolver. E assim nos orgulhamos da nossa ignorância e da boçalidade transformada em doutrina. O resultado do politicamente incorrecto está à vista na Itália de Berlusconi: a recolha de impressões digitais dos cidadãos ciganos, crianças incluídas - informação de que estão isentos os restantes italianos. A mesma Itália que enviou ciganos para Auschwitz esqueceu o seu passado. Porque também ela não quer ser refém do 'politicamente correcto'. Apesar deste ter sido, durante sessenta anos, uma eficaz barragem aos nossos piores fantasmas.

Omar

Omar Khadr é um cidadão canadiano e foi preso no Afeganistão quando tinha 15 anos. Vivia desde os 11 anos entre fundamentalistas e era menor quando foi acusado de matar com uma granada um soldado americano. Está há seis anos em Guantánamo e vimos agora um vídeo de um interrogatório que durou sete horas.

Tudo na história da sua prisão é uma aberração. É acusado de um crime de guerra por fazer o que na guerra se faz: matar. Coisa que, como é evidente, o homem que ele terá morto por ali andava a fazer. É acusado de um crime de guerra apesar de não ser um prisioneiro de guerra e por isso a ele não se aplicar a Convenção de Genebra. Não teve direito à defesa e às garantias que o Estado de direito dá a qualquer arguido, porque, apesar de não ser um prisioneiro de guerra, também não é um prisioneiro comum. Era um soldado-criança mas é tratado como um perigoso terrorista. Na realidade, está preso porque o seu pai era amigo de Bin Laden. A história de Omar, que já passou um quarto da sua vida numa prisão ilegal, é o legado desta Administração americana: sete anos de atropelos à lei internacional e aos direitos humanos. Num mundo com alguma noção de justiça, George Bush seria julgado. Com todas as garantias de defesa, claro.

Daniel Oliveira

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Re: Não explicar, não perceber
sammscb (seguir utilizador), 1 ponto , 11:16 | Quinta-feira, 24 de Jul de 2008
"(...)o legado desta Administração americana: sete anos de atropelos à lei internacional e aos direitos humanos. Num mundo com alguma noção de justiça, George Bush seria julgado.(...)"

Permita-me que acrescente: Num mundo com alguma noção de justiça e desinteresses politicos e económicos, George Bush estaria a ser julgado em Aia, Mugabe estaria deposto do seu cargo e encarcerado após julgamento no mesmo tribunal, entre muitos outros auto plocamados lideres politicos e religiosos.

Permita-me também um outro reparo, Bush representa o seu país e é responsável máximo pelas acções do mesmo, mas mais do que julgar Bush (que o merecia) deveriam ser julgados os seus assessores e conselheiros, os altos responsáveis militares e o ex-presidente do "Fed"... e o que mais dá que pensar é que o Sr. Bush foi reeleito e, felizmente, não o pode fazer novamente, pois quer me parecer que Obama teria uma tarefa herculesca pela frente.

No que diz respeito o primeiro assunto que foca, não poderia concordar mais, de facto nenhum destes acontecimentos recentes é uma novidade no nosso país, mas o que poderemos dizer mais quando um "telejornal" de um certo canal nacional abre a emissão com a importantissima noticia "Ronaldo e Nereida estarão separados", prosseguindo para a ainda mais importante noticia "Padre afugenta larápio com vassoura", deixando para o final da sua emissão uma breve referencia ao caos económico que se avizinha e conflitos diplomáticos Irão - Israel - EUA que seriam as verdadeiras noticias.

Mas o que importará referir em relação aos acontecimentos na Quinta da Fonte é, não só o aproveitamento da comunidade em causa para lançar um grande alarido em seu torno, mas o vergonhoso aproveitamento politico de um certo partido da oposição, na pessoa do seu lider, tentando levar o caso à Assembleia da Républica. Não terão os Srs. Deputados assuntos mais importantes para tratar? E vindo de um ex-ministro que gastou milhões em submarinos, a proposta deveria ser adquirir novos tanques de guerra para vigiar estes ditos "bairros problemáticos"...
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