INFERNO
OTTO RAHN
As ditaduras totalitárias não se recomendam. Mas no meio da loucura e da desumanidade, existem histórias pícaras.
Uma delas é contada pelo "Sunday Telegraph" e merece partilha com os leitores. Falo do destino do alemão (e nazi) Otto Rahn. Quem? Precisamente. Otto Rahn, arqueólogo de ofício, nutria uma admiração sincera por Heinrich Schliemann, um seu colega e antecessor que, embalado pelas leituras de Homero, realizou escavações na Turquia e encontrou as ruínas do que acreditava ser a lendária Tróia.
Rahn imitou o gesto de Schliemann e, substituindo a "Ilíada" por "Parsifal", um épico do século XIII, lançou-se na descoberta do Santo Graal, o cálice de Jesus na Última Ceia. Rahn partiu para o Languedoc porque, alegadamente, três reis cátaros, momentos antes de serem massacrados pelos cruzados, teriam escondido o Graal num castelo da zona. Rahn não encontrou o Graal (a sério?) mas alguns labirintos subterrâneos do castelo atiçaram-lhe a imaginação. O Graal existia, ele acabaria por encontrá-lo. E um livro da sua autoria sobre o assunto foi publicado em 1933.
Tudo terminaria aqui se o livro de Rahn não fosse lido, sublinhado e praticamente decorado por Himmler, outro adepto de fantasias que fez a Rahn uma proposta irrecusável: dinheiro abundante para pesquisas em troca do Graal. No dia em que Rahn o encontrasse, o cálice seria exposto num castelo da Vestefália propositadamente reservado para o efeito. A ladear o Graal, bustos de nazis ilustres (um oxímoro, eu sei). Rahn aceitou a proposta mas, para espanto dele, o Graal teimava em não aparecer. Até ao dia em que os nazis, cansados de esperar, decidiram terminar com a festa, terminando com a vida de Rahn.
E no fim, que dizer desta odisseia? Duas coisas. Primeiro, que a cabeça dos nazis tem tanto de infantil como de criminoso. E, depois, que as aventuras de Otto Rahn tiveram o mérito de inspirar um conhecido herói de cinema, especialista no chapéu, no chicote. E no Graal.
PURGATÓRIO
32 ANOS
Não vale a pena iludir: estou a envelhecer. E existem dois sintomas que normalmente denunciam o dilúvio na vida de um homem. O primeiro é observar a Selecção Nacional e concluir, com uma dor silenciosa e íntima, que os jogadores são todos mais novos do que ele. Não que eu pretenda lugar na equipa de Scolari: sou incapaz de chutar uma bola e 90 minutos atrás dela sempre me pareceram um clamoroso desperdício de tempo. Mas é sempre duro contemplar certos clubes onde, talento à parte, a entrada já nos está interdita. Biologicamente interdita.
O segundo sintoma acontece quando o número da roupa que nos acompanhou durante toda a juventude nos acena do outro lado da margem. Sim, havia sinais de que engordava sem retorno. Mas eu mentia a mim próprio, como um alcoólico em negação. E, com perícia de kung-fu, enfiava-me nas velhas calças. Enfiava-me, vírgula: rastejava para dentro delas, normalmente deitado no chão como uma lagartixa agonizante. Quando finalmente me enchouriçava no par, pedia ajuda para me levantarem e tentava não fazer certos gestos bruscos. Nem sempre conseguia, é certo, e a insensatez de alguns movimentos - como, por exemplo, caminhar - proporciona estrondo no sentido literal. E quando as calças aguentavam, não aguentava eu: a circulação sanguínea parava e o meu rosto adquiria um belíssimo tom púrpura. Na passada semana, e com um guarda-roupa irremediavelmente perdido, decidi actualizá-lo. E lá fui à loja da praxe, como um remador de Ben-Hur, disposto a esforço inglório para enganar o corpo. Mas o corpo não se deixa enganar: perante o riso da menina de serviço, que desaconselhou a repetição de erros recentes, experimentei calças e casacos dois números acima do habitual. Serviam-me. Ou, se quiserem, eu servia dentro deles, sem gemer de vergonha e dor. E agora? Agora, aguardo simplesmente pelo terceiro sintoma: o dia em que estarei mais gordo do que Figo, Rui Costa ou Fernando Couto. Tudo rapazes do meu tempo. E, como eu, reformados da Selecção.
PARAÍSO
PRAXES
Ah, as praxes... Ainda me lembro da minha, com lágrimas de saudade: terminou passados cinco segundos.
Eu era jovem, inocente, "caloiro". E acabado de chegar à universidade, contemplei com fascínio uma manada efusiva que rastejava pelos prados verdejantes do entulho urbano. Foi então que um "veterano" se aproximou de mim e, confundindo-me com um canídeo, perguntou se eu era "caloiro". Observei-o com a curiosidade típica que certos exploradores concedem aos selvagens. E quando ele, abismado com o meu silêncio, partiu para ameaças físicas, alguns amigos seguraram o "caloiro", para que não fosse ele a "praxar" o "veterano". A pergunta, que se repete desde esse tempo, é recorrentemente a mesma: como é possível que uma pessoa adulta e na razoável posse das suas faculdades mentais permita que um grupo de selvagens a humilhe, insulte e, às vezes, sove? E, no entanto, mais ninguém partilha esta extravagante inquietação: na "praxe", só existe um culpado; quem se deixa "praxar", não passa de uma vítima. Nos últimos dias, por exemplo, o país rejubilou com uma decisão da Justiça que não tolerou as "praxes" num instituto de Santarém. Há seis anos, os "veteranos" cobriram uma aluna com bosta; e a aluna, convém recordar, deixou-se ser coberta. Num país razoável, a pergunta seria a mesma: como é possível que uma aluna universitária, que presumivelmente atingiu um certo nível de maturidade pessoal e intelectual, se submete voluntariamente a estes espectáculos?
Não que eu proponha acabar com eles. Longe disso. Ao contrário do que se escreveu, as praxes académicas têm um inestimável valor pedagógico que as nossas universidades deviam reconhecer. Elas permitem identificar, de imediato, pessoas preparadas para o ensino superior; e pessoas que, humilhando ou deixando-se humilhar, manifestamente confundem a universidade com a pocilga. Estes últimos não deviam ter lugar no ensino superior. Porque são precisos dois para dançar o tango.
João Pereira Coutinho