INFERNO
MISHA DEFONSECA
É impossível não verter uma lágrima por Misha Defonseca. Aqui há uns anos, mergulhado na literatura do Holocausto, o livro da senhora veio parar-me às mãos. E então li, entre gargalhadas mil, a história de como uma criança judia, órfã de pai e mãe (exterminados pelos nazis), se vê subitamente sozinha no mundo e condenada a errar pelas florestas da Europa. Mas o melhor do livro veio a seguir: perdida entre o arvoredo, a pequena Misha é finalmente resgatada por lobos (sic), que a alimentam e criam com muito amor e carinho. Não sei se, lá pelo meio, aparecia o Tio Patinhas.
A minha memória já não é o que era. Uma coisa, porém, recordo sem esforço: o livro apresentava-se como "história verídica" da sra. Defonseca, o que não deixa de ser uma audácia. Na verdade, não viria mal ao mundo se Misha assumisse a ficção do exercício (de John Hersey e William Styron, exemplos não faltam). Mas Misha, a menina criada por lobos, comparava-se a Elie Weisel e a Primo Levi, uma megalomania que ninguém se deu ao trabalho de desmascarar e, mais, foi levada à letra por aí: segundo leio, fez-se uma ópera da vida de Misha (em Itália); e, no passado mês, estreou filme respectivo (em França, claro). Sem falar nas múltiplas traduções que apresentaram ao mundo a incrível história de uma sobrevivente salva por animais.
Escusado será dizer que, depois da aldrabice, incongruências recorrentes exigiram de Misha uma explicação. Ou, melhor, várias. Para começar, Misha não é Misha; é Monique De Wael. Depois, não é judia; é católica. E, finalmente, não foi criada por lobos (a sério?), mas pelos avós. O único pedaço de verdade está na morte dos pais, membros da resistência belga que os nazis deportaram e mataram. Explicações para a loucura? Eu não sou psiquiatra. Mas sempre digo que, entre um neonazi assumido e uma "sobrevivente" que factura com a inominável tragédia judaica, talvez um neonazi seja mais honesto. Na sua boçalidade explícita, um neonazi não engana.
PURGATÓRIO
FILIPE LA FÉRIA
Nunca vi um musical de Filipe La Féria. Minto. Vi Passa por Mim no Rossio, por motivos bondosos para com familiar idoso. Mas esse não conta.
E não conta porque, sendo obra original, La Féria não fez com ele o que faz com os outros: mutilar, ou seja, preservar a música (digamos assim) e enviar a letra para o caixote.
No fundo, insultar quem gosta realmente do "songbook" americano. Ao contrário do que se pensa, um musical não vive apenas da música. Vive da música e da letra. E se existem casos em que a música supera a letra (qualquer musical de Cole Porter, com a provável excepção de Kiss Me, Kate), existem outros em que a letra é superior à música (qualquer um de Stephen Sondheim, com a provável excepção de Company). Se Filipe La Féria se limitasse a mutilar musicais que já são imprestáveis de origem (como Jesus Cristo Superstar), o gesto até seria caridoso. Mas leio agora, em entrevista radiofónica, que o encenador se prepara para deitar a gadanha a West Side Story e a Um Violino no Telhado.
O primeiro é uma criação de génio de Bernstein, com letra de Sondheim, tinha ele 27 anos. Pobre Sondheim: será o primeiro a ficar na mesa do talhante. E o segundo é obra dos esquecidos Jerry Bock e Sheldon Harnick, que ainda hoje escuto com admiração e uma inescapável melancolia.
Mas existe uma faceta redentora no meio do abuso instalado: eu não sou obrigado a pagar os massacres de La Féria, o que seria o supremo golpe. O homem arrisca, investe e, segundo sei, transformou uma sala portuense anteriormente habitada por grupos de "teatro" que só a pobreza e o atraso toleram em local frequentado e rentabilizado. Claro que este "sucesso" ainda horroriza certos espíritos "finos", que preferiam estar a pagar uma sala vazia na crença de que a "qualidade" não se mede em números.
Umas temporadas na Broadway, ou no West End, desfaziam este conceito bizarro. Porque, a La Féria, só o cutelo é imperdoável.
Tudo o resto é legítimo e até saudável.
PARAÍSO
JOSÉ CARDOSO PIRES
Abençoado Nelson de Matos. No décimo aniversário da morte de José Cardoso Pires, há inédito na costa. Inédito, vírgula: consta que, em 1963, uma versão de Lavagante - Encontro Desabitado (Edições Nelson de Matos, 89 págs.) apareceu na revista "O Tempo e o Modo" como capítulo preparatório de romance que nunca existiu. Que pena: escrito antes de O Delfim (um dos maiores romances de toda a literatura portuguesa), este conto longo (ou novela breve) é Cardoso Pires "vintage". Basta ler a primeira frase ("Bebemos mais um copo: o oitavo ou o décimo, não sei bem") para reconhecer a sensualidade única da escrita de Cardoso Pires: uma espécie de "sprezzatura" narcótica que, como diria Castiglione no Livro do Cortesão, se define por um máximo de esforço destinado a ocultar qualquer esforço. E depois vem o resto: uma capacidade para desenhar personagens ("desenhar" é o verbo) que devia enlouquecer de inveja qualquer escritor português em actividade.
O livro é uma história de amor, tão simples e tão desolada que até dói: Daniel, médico com actividade oposicionista ao regime de Salazar, conhece Cecília, estudante com particular gosto por jazz e Henry Miller. Daniel acredita que, como na história do Pigmalião, ele será capaz de a moldar a si próprio e às causas que defende. Mas é Cecília quem devora Daniel no final, como o lavagante devora o safio que alimenta no fundo das águas, com metódica perversidade. Uma história de traição? Não exactamente. Talvez a história de como a traição entre amantes se confunde, tantas vezes, com actos de sacrifício e salvação. Sobretudo no tempo silencioso e estagnado da ditadura pátria: um tempo em que a Primavera cobria os céus de Lisboa - mas a multidão, alheia à luz e à maresia do Tejo, circulava cá por baixo, muda e temerosa, como se fosse "uma irmandade de pequenos fragmentos de Inverno". Seja em romances ou em pequenas novelas, de que Lavagante é um caso, ninguém escreveu esse Inverno como Cardoso Pires.