Com 45 anos de carreira, a voz não falha a Carlos do Carmo
Jorge Simão
A imagem de marca de Carlos do Carmo é só uma: a reinvenção do fado e de si próprio em cada trabalho que apresenta. O último desafio a que se propôs chama-se "À Noite" (Universal) e foi apresentado quarta-feira à noite no Museu do Fado, em Lisboa.
O fadista regressa ao passado ao escolher melodias dos grandes compositores das três primeiras décadas do fado, mas abre caminho para o futuro ao desafiar sete poetas contemporâneos que nunca escreveram para a canção de Lisboa a colorir com novas palavras as melodias mais tradicionais.
Alfredo Marceneiro, Joaquim Campos e o mestre Armandinho, os primeiros compositores do século XX a revolucionarem verdadeiramente o som do fado de Lisboa são a base musical do disco. Tradicionais, clássicos mas completamente revolucionários, emprestam a "À Noite" a sonoridade do fado mais puro, aquele com que Carlos do Carmo cresceu e aonde todos os grandes músicos e fadistas vão beber inspiração. Júlio Pomar, Fernando Pinto do Amaral, José Luís Tinoco, José Manuel Mendes, Nuno Júdice, Luís Represas e Maria do Rosário Pedreira dão um passo em frente com as palavras mais novas de que o fado está sequioso. O resultado é um misto entre a tradição e a modernidade, exactamente aquilo que faz com que Carlos do Carmo consiga inovar com dignidade e fidelidade a "canção da sua vida".
São 12 temas para ouvir com atenção pelo menos duas vezes. A primeira para ouvir a poesia, do princípio ao fim, sem interrupções, reflectindo a história que fado narra. A segunda, para ouvir a guitarra de José Manuel Neto e a viola de Carlos Manuel Proença, numa execução exímia e plena de emoções. No final, "a lição de fado", como chama a este trabalho Rui Vieira Nery, ficará estudada e muito provavelmente gravada no imaginário musical do século XXI.
Esta homenagem à canção de Lisboa pode ainda ser vista e melhor compreendida numa visita ao Museu do Fado, onde até final do mês, estará patente uma exposição alusiva ao disco, numa ligação inédita entre as artes plásticas e a música. Três retratos de Carlos do Carmo, da autoria de Júlio Pomar, são o ex libris da pequena mostra, que conta ainda com um vídeo em que o fadista faz um balanço de carreira, e cuidadosamente expostas estão as novas letras que dão corpo ao disco.