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Filósofo Americano Premiado pela Academia Sueca das Ciências

As Questões Mortais de Thomas Nagel

Desidério Murcho
12:20 Quarta feira, 12 de novembro de 2008

Thomas Nagel
Thomas Nagel

A Academia Sueca das Ciências atribuiu este ano o Prémio Rolf Schock de Lógica e Filosofia ao americano Thomas Nagel. Em anos anteriores o prémio foi atribuído a alguns dos mais importantes filósofos dos últimos cinquenta anos: W. V. Quine, Michael Dummett, Dana S. Scott, John Rawls, Saul Kripke, Solomon Feferman e Jaakko Hintikka.

Thomas Nagel nasceu no dia 4 de Julho de 1937 em Belgrado, na antiga Jugoslávia, e é hoje professor de Filosofia e Direito na Universidade de Nova Iorque. Estudou nas universidades de Cornell e Oxford, e doutorou-se em Harvard com a supervisão de John Rawls. É justamente considerado um dos mais importantes filósofos contemporâneos, destacando-se pela abrangência dos temas estudados e pela precisão do seu pensamento, sem contudo perder o dom de uma escrita literariamente agradável e desprovida de tecnicismos supérfluos. Entre os seus artigos mais influentes estão "Como é Ser um Morcego?" (1974), "O Absurdo" (1971) e "Sorte Moral" (1976), todos reunidos no seu livro Questões Mortais (1979). Entre os seus livros mais influentes estão A Possibilidade do Altruísmo (1970) e Visão a Partir de Lugar Nenhum (1986).

Nagel ocupou-se de problemas centrais da filosofia - como o problema do livre-arbítrio, o fundamento da acção moral e a natureza da mente - sendo em todas essas áreas uma referência central para qualquer filósofo posterior. A sua abordagem tipicamente socrática à filosofia torna-se evidente no extraordinário Que Quer Dizer Tudo Isto? (1987), uma introdução para jovens que apresenta a força dos problemas filosóficos e o labirinto do pensamento filosófico com uma precisão, vivacidade e elegância difíceis de superar. Nagel caracteriza-se por dar a máxima atenção à força original dos problemas filosóficos genuínos, não procurando fingir que temos teorias convincentes para todos eles, ou que podemos eliminá-los ou dissolvê-los. O objectivo da sua introdução à filosofia é precisamente fazer os jovens - e menos jovens - sentir a força dos problemas filosóficos, concebidos como realidades vivas que nos batem à porta mal pensamos outra vez e não como meras ficções ou narrativas inventadas por pessoas ociosas do passado. Foi com base nesta concepção da filosofia que Nagel formulou a crítica talvez mais contundente a Richard Rorty, que defendia a ideia positivista de que não há problemas filosóficos precisamente por não haver métodos científicos para os resolver. Nagel defendeu que Rorty concebia os problemas filosóficos como meras ficções ou "narrativas" inventadas para passar o tempo por nunca ter sentido a sua força, encarando-os sempre ao invés como meros formalismos escolares ou académicos.

Na ética, Nagel defendeu posições fortemente kantianas, segundo as quais os fundamentos da moral se encontram na própria razão e não no sentimento, opondo-se assim a David Hume. O seu primeiro livro é precisamente uma defesa da irracionalidade da acção imoral. O modo como Nagel formulou a plêiade de problemas relacionados com este aspecto da fundamentação da moral tornou-se entretanto canónica: a questão central é saber se a razão é motivacionalmente inerte, como defendia Hume, ou se pelo contrário um agente pode ter razões para agir que sejam externas às motivações que já tinha previamente. O debate entre o internalismo e o externalismo é hoje central em ética, opondo-se o externalismo de Nagel ao internalismo de outro grande filósofo contemporâneo da moral, falecido em 2003: Bernard Williams.

A abordagem de Thomas Nagel aos problemas da filosofia da mente foi citada na atribuição do prémio Rolf Schock. Ao invés de enfrentar isoladamente os problemas mais técnicos da filosofia da mente, Nagel insere-os no problema mais geral de compatibilizar duas perspectivas diferentes e dificilmente reconciliáveis sobre a realidade: a perspectiva pessoal e a impessoal, a que ele chama respectivamente perspectiva da primeira pessoa e da terceira pessoa. No artigo "Como é Ser um Morcego?" Nagel ilustra dramaticamente esta distinção argumentando que há um sentido em que nunca poderemos saber como os morcegos percepcionam o mundo, dado que o fazem em grande parte por ecolocação. Podemos evidentemente saber tudo, cientificamente, sobre como funciona a ecolocação - afinal, usamo-la nos radares. Mas isso é conhecimento impessoal ou na terceira pessoa, e este é o tipo de conhecimento que caracteriza a ciência. Em termos pessoais, da nossa própria perspectiva, nunca poderemos saber como é percepcionar o mundo por ecolocação, por mais que saibamos cientificamente sobre isso - um pouco como alguém que nunca foi a Paris mas viu muitos filmes e leu muita informação sobre Paris: há um sentido em que esta pessoa sabe muitas coisas sobre Paris, mas há outro sentido em que ela não conhece Paris. Assim, Nagel reformula o problema central da filosofia da mente nestes termos: por mais que possamos ter um conhecimento na terceira pessoa sobre o cérebro, esse conhecimento nunca poderá esgotar o tipo de conhecimento na primeira pessoa que temos dos fenómenos mentais. A mente e o cérebro são assim, num certo sentido, irreconciliáveis.

Nagel usa o conflito entre as duas perspectivas no seu artigo sobre o sentido da vida, "O Absurdo", no qual defende que a vida humana é necessariamente absurda precisamente porque nunca poderemos reconciliar a perspectiva da primeira pessoa que temos sobre nós próprios com o conhecimento de que somos apenas mais uma coisa no mundo, sem qualquer importância. A ideia é que não podemos evitar viver a nossa própria vida, e isso implica entregarmo-nos a ela da perspectiva da primeira pessoa, dando-lhe imensa importância, mas que ao mesmo tempo é constitutivo da nossa natureza como seres dotados de racionalidade a capacidade para olhar para nós próprios objectivamente, "por cima do nosso ombro", e ao fazê-lo verificamos inevitavelmente que atribuímos a nós mesmos uma importância que não poderemos realmente ter.

Mais recentemente, Nagel ocupou-se de dois outros temas filosóficos: a teoria dos impostos e o relativismo. No que respeita ao primeiro, escreveu com Liam Murphy o livro O Mito da Propriedade: Impostos e Justiça (2002), no qual ataca a noção típica da direita de que os impostos são necessariamente um roubo perpetrado pelo estado. A ideia da direita é que se deve cobrar o mínimo possível de impostos, suficientes para fazer funcionar os serviços mínimos do estado que, por uma ou outra razão, não podem ser privatizados: exército, polícia, burocracia e os próprios políticos. A justificação desta ideia, defendida por filósofos como Robert Nozick, falecido em 2002, baseia-se na noção considerada errada por Nagel e Murphy de que há propriedade e riqueza antes de haver estado. O argumento é assim o de que é falacioso pensar que o dinheiro que se paga de impostos é na realidade nosso, e que ao invés devemos pensar que toda a riqueza que produzimos só se tornou possível com o estado, pelo que só é possível precisamente por haver impostos: sem impostos, nenhuma riqueza seria possível.

Quanto ao relativismo, Nagel publicou em 1997 A Última Palavra, uma das mais sofisticadas defesas da objectividade, em quatro áreas centrais: linguagem, lógica, ciência e ética. Usando a sua distinção central entre as perspectivas da primeira e da terceira pessoa, Nagel argumenta que os filósofos pós-modernistas e outros que declaram todo o pensamento humano inevitavelmente subjectivo estão sem se aperceber a tentar ter a última palavra sobre o nosso pensamento, última palavra essa que não se pode ter. A última palavra consistiria em ver todo o nosso pensamento a partir do exterior, a partir da terceira pessoa, para declarar dessa perspectiva que todo o nosso pensamento é inevitavelmente paroquial. Mas não se pode realmente entender o pensamento humano a partir do exterior, tal como não podemos entender a ecolocação a partir do exterior, e só a partir dessa perspectiva exterior da terceira pessoa poderíamos alguma vez declarar que todo o nosso pensamento é paroquial.

De Nagel estão publicados em Portugal os livros Que Quer Dizer Tudo Isto? e A Última Palavra (ambos na Gradiva). O artigo "Como é Ser um Morcego?" está publicado na revista online Crítica, e a Dinalivro anuncia para breve uma antologia de textos que incluirá "O Absurdo".

Desidério Murcho
Professor de Filosofia,
Universidade Federal de Ouro Preto

http://blog.criticanarede.com

Nota
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Tradução de "Introdução à Filosofia Matemática": Bertrand Russell em Português

13:13 Sexta feira, 18 de julho de 2008

Bertrand Russell (1872– 1970)
Bertrand Russell (1872– 1970)

Na sequência da publicação, pela Fundação Calouste Gulbenkian, da tradução portuguesa da Introdução à Filosofia Matemática de Bertrand Russell, Adriana Graça, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, autora da tradução, e Fernando Ferreira, do Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da mesma universidade, respondem a algumas questões sobre a obra.

Como surgiu este livro no percurso de Bertrand Russell?

Adriana Graça: Este livro foi acabado em 1918, durante um período de seis meses que Bertrand Russell passou na prisão, em virtude da publicação de um seu artigo pacifista e crítico em relação ao papel do governo inglês e do exército americano na 1ª Grande Guerra. O livro foi publicado no mesmo ano. Russell dá-nos um resumo do programa logicista que tinha tentado levar a cabo uns anos antes e que ficou condensado nos três volumes monumentais, escritos em conjunto com Alfred North Whitehead e publicados entre 1910 e 1913, denominados no seu conjunto Principia Mathematica. Para lá disso, incorpora este programa na sua visão mais geral de diversas questões de índole filosófica, visão que nasce de quais as soluções para inúmeros outros problemas filosóficos, aparentemente desligados do programa logicista. Isso faz do presente livro uma obra única em originalidade.


O que é a "filosofia matemática" a que se refere o título? Como se relaciona ela com a filosofia da lógica ou a lógica filosófica?

[AG] Efectivamente, há que distinguir os três universos de questões que, estando relacionados, são diferentes entre si: falo de "Filosofia Matemática", "Filosofia da Lógica" e de "Lógica Filosófica".
A Filosofia Matemática é a área da Filosofia que se interessa pelos objectos com os quais a Matemática lida, como por exemplo, os números, perguntando tipicamente o que eles são, bem como pela natureza dos diversos procedimentos típicos da Matemática: o que é uma demonstração, o que são as frases da Álgebra e por ai em diante. O logicismo, de que falámos acima, é uma teoria acerca do que são as proposições da Aritmética; mas não a única sobre este assunto. O intuicionismo e o formalismo são duas outras respostas diferentes à mesma questão. A Filosofia da Lógica é uma área diferente da Filosofia; é aquela que se debruça sobre a natureza e a justificação dos diferentes sistemas de Lógica, bem como dos diferentes conceitos usados na Lógica: o que é a implicação, a negação. O que é a consequência lógica e qual a validade do princípio do terceiro excluído, são temas típicos desta disciplina. Finalmente, a Lógica Filosófica, ao contrário das duas disciplinas anteriores, é uma área da Lógica (e não da Filosofia). Como resulta óbvio, as três disciplinas estão fortemente conectadas.

Que ideias fundamentais defende Russell nesta obra?

[AG] Como disse acima, a defesa e apresentação do programa logicista é o objectivo central do livro. A ideia é a de que as proposições da Aritmética são todas deriváveis a partir de proposições da Lógica, o que é o mesmo que dizer que a Aritmética é a Lógica disfarçada. Só em 1931, com o Teorema da Incompletude da Aritmética, de Gödel, se mostrou que o projecto está em princípio votado ao fracasso, dado que há pelo menos uma frase escrita no sistema que é verdadeira e indemonstrável no sistema. Ao tempo em que Russell escreveu esta obra, o resultado que acabei de mencionar não estava disponível, e Russell tenta apresentar uma solução para os problemas que o projecto logicista impõe. Assim, o conceito de função proposicional de ordem n, o Axioma do Infinito e o Axioma da Redutibilidade (para só mencionar alguns) são apresentados e discutidos. De um ponto de vista mais geral, Russell propõe um modelo de análise dado pela sua Teoria das Descrições Definidas, o qual, desejavelmente, pode ser aplicado a outros conceitos e problemas.


Há quem considere o livro importante, mas datado. Qual pensa ser o relevo filosófico da obra, e em particular, da teoria das descrições definidas aí exposta?

[AG] A Teoria das Descrições Definidas é por muitos considerada, mesmo por quem a não subscreve, um modelo de análise filosófica. Russell faz nesta obra uma apresentação amadurecida da teoria, resumindo os resultados por ele obtidos em 1905, em "On Denoting", onde pela primeira vez a teoria, a motivação para ela, e as suas implicações, são apresentadas. Esta teoria foi seriamente questionada muitos anos depois, por Peter Strawson e Keith Donnellan, mas o seu alcance continua, e muitos ainda a subscrevem.

Basicamente, o que Russell quer estabelecer é que, ao contrário do que parece e do que é sugerido pela gramática de superfície, as descrições definidas não são termos singulares (como o são nomes próprios genuínos). Isto significa que estes termos não têm sentido isoladamente, mas unicamente no contexto de uma frase declarativa. Isto quer dizer, por seu turno, que a entidade descrita por meio de uma descrição definida, mesmo quando existe e é única, não é um constituinte de qualquer proposição expressa por qualquer frase que inclua essa descrição. Russell parafraseia a frase da linguagem corrente que contém a descrição definida numa linguagem logicamente perfeita, a qual alegadamente lança luz sobre a verdadeira sintaxe (escondida) deste tipo de frases, mostrando que os termos descritivos são assim elimináveis. A frase "O autor de Waverley é Scott" (i.e., Sir Walter Scott), para usar um dos exemplos de Russell, diz algo significativamente diferente da frase "Scott é Scott", mesmo apesar do facto de Scott ser efectivamente o autor de Waverley. E, se isto assim é, fica a dever-se ao facto de a descrição definida não contribuir com a entidade descrita, mas sim com as propriedades expressas pelos predicados linguísticos que ocorrem na expressão verbal da descrição, para a determinação daquilo que é dito. Assim sendo, a frase inicial afirma que Scott é o único objecto que satisfaz a descrição definida em causa. Mas, ao contrário do nome "Scott", a descrição "o autor de Waverley" não contribui com Scott para aquilo que é expresso por meio de uma elocução da frase, ou pela frase ela própria.

Este resultado tem importância imediata na solução de outros problemas que Russell tem em mãos, dado que fornece um método de eliminação de entidades, ou melhor, de pseudo-entidades, indesejáveis (as classes vão ser abordadas por Russell a esta luz, por exemplo). Tem também importância para toda a Filosofia da Linguagem subsequente, sendo um exemplo de solução engenhosa e bem-sucedida de um conjunto de problemas de difícil solução.

Quais são as ideias fundamentais que Russell defende nesta obra?

Fernando Ferreira: O livro de Russell termina assim: "Se algum estudioso se sentir motivado para vir a estudar lógica matemática seriamente após a leitura deste pequeno livro, este terá cumprido o objectivo principal para o qual foi escrito". Li pela primeira vez "Introdução à Filosofia Matemática" de Bertrand Russell quando tinha 16 ou 17 anos numa tradução brasileira das edições Zahar. Se hoje trabalho em lógica matemática, isso deve-se em muito às leituras de Russell que fiz em adolescente e, em particular, à sua "Introdução à Filosofia Matemática". O livro causa imediatamente uma impressão forte numa mente jovem. Logo no segundo capítulo, pergunta-se (estranhamente) o que é um número e dá-se uma resposta pasmosa. O número dois (p. ex.) é a classe de todas as classes com exactamente dois elementos. A resposta impressiona pela surpresa e naturalidade e, passe a primeira impressão, não é circular. A tese fundamental do livro é a de que a matemática e a lógica são a mesma disciplina (tese do logicismo). Com uma maestria e graça dificilmente superáveis, Russell (que escrevia muito bem, tendo sido galardoado com o prémio Nobel da literatura em 1950) mostra até ao capítulo XII como é que as noções fundamentais da matemática, desde os sistemas numéricos dos números naturais, racionais, reais e complexos, até às noções mais abstractas da teoria dos conjuntos (ordinais e cardinais transfinitos), se podem desenvolver numa parca linguagem que apenas menciona classes e relações.

A partir do capítulo XIII surge a parte crítica do livro. Afinal os assuntos não são assim tão cristalinos. A noção de classe não pode ser usada de modo irrestrito, pois engendra paradoxos. Considere-se a classe constituída exactamente pelas classes que não são membros de si próprias. Esta classe é membro de si própria se, e somente se, não é membro de si própria. Trata-se do célebre paradoxo de Russell de 1902, que deitou por terra o trabalho do pioneiro do logicismo, o matemático alemão Gottlob Frege (1848-1925). A este último autor devem-se as ideias principais do programa logicista, nomeadamente a definição de número que mencionámos acima. Russell dedica-se intensamente na próxima década a tentar articular uma posição logicista defensável. Não cabe nesta pequena resposta explicar as ideias de Russell (os capítulos XIII a XVIII do livro são uma introdução soberba a estes assuntos). Bastará dizer que Russell defende uma doutrina de tipos lógicos segundo a qual, p. ex., um dado elemento não faz parte do mesmo domínio de significância de uma classe a que esse elemento pertença.

O desenvolvimento da teoria dos tipos lógicos (assim como o pioneiro trabalho de Frege) ilustra uma nova forma de fazer filosofia: se se defende a tese filosófica de que a matemática e a lógica são a mesma disciplina, deve pôr-se mãos à obra e mostrar que se pode desenvolver a matemática a partir de princípios lógicos. Com o seu co-autor A. N. Whitehead, Russell publica entre 1910 e 1913 os três influentes tomos do Principia Mathematica, onde se trabalha com detalhe a redução da matemática à lógica. O desenvolvimento do projecto logicista é um assunto fascinante e irá levar à descoberta de subtis problemas na tese logicista. Este facto também ilustra outro ponto interessante: os problemas tornam-se apenas patentes quando se embarca num desenvolvimento rigoroso do projecto. É esta especial combinação entre reflexão filosófica e desenvolvimento técnico rigoroso que torna tão fascinante a filosofia da matemática.

Alguns matemáticos consideram o livro importante para a sua época, mas datado. Qual pensa ser o relevo da obra para a filosofia e a matemática actuais?

[FF] Talvez não seja devidamente apreciado entre o público culto (nem mesmo entre muitos matemáticos e filósofos) que a matemática sofreu uma revolução de monta na passagem do século XIX para o século XX. Esta revolução só é comparável ao desenvolvimento do método axiomático na Grécia Antiga e ao aparecimento do cálculo infinitesimal no século XVII. A matemática de hoje, ao contrário da matemática de meados do século XIX, tem uma linguagem comum (a linguagem da teoria dos conjuntos) onde tanto se desenvolve a Álgebra como a Geometria ou a Aritmética, e através da qual se torna escorreito usar métodos de natureza infinitária que, ou eram inexistentes, ou eram muito polémicos no século XIX. A função unificadora da teoria dos conjuntos é um dos grandes legados desta terceira revolução. O outro grande legado, desta feita à informática, é o legado dos desenvolvimentos formais. O logicismo desempenhou um papel central em ambos estes legados, perenes à cultura humana. Devido às complicações e à carga filosófica do programa logicista, hoje os matemáticos preferem ao logicismo o método axiomático da teoria dos conjuntos (teoria de conjuntos de Zermelo-Fraenkel). Outra razão que contribuiu (entre os lógicos) para esta preferência foi a emergência da lógica de primeira-ordem nos anos vinte do século passado. Esta lógica tem uma axiomática completa e com ela atinge-se o rigor formal absoluto (o sistema de Russell é descuidado em vários aspectos sintácticos; se bem que estes pudessem ser consertados, o sistema é de uma complexidade desmesurada). Do ponto de vista filosófico, o logicismo é um marco na Filosofia da Matemática, e todo o estudioso destes assuntos deve tentar compreender aquilo que o logicismo propõe e quais são as suas limitações.

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Cães Telepatas e a Sensação de se Estar a Ser Observado

15:27 Sexta feira, 27 de junho de 2008

Wolf Singer falando sobre sincronia no cérebro
Wolf Singer falando sobre sincronia no cérebro
David Chalmers, Toward a Science of Consciousness / Center for Consciousness Studies.

No passado mês de Abril decorreu em Tucson, Arizona, nos Estados Unidos, a célebre conferência sobre a consciência "Towards a Science of Consciousness". Esta conferência ocorre de dois em dois anos, e é uma das mais interessantes e arrojadas na área da ciência cognitiva, tendo participantes das áreas da neurociência, psicologia, filosofia, física, medicina e artes.

Em anos anteriores, a conferência foi organizada por David Chalmers (filósofo, agora na Universidade Nacional da Austrália) e Stuart Hameroff (médico e professor da Universidade do Arizona). Este ano foi organizada apenas por Hameroff.

A organização é excelente, a conferência dura uma semana e inclui workshops, plenários de manhã e cinco sessões simultâneas à tarde, apresentações em poster ao fim do dia, visitas ao deserto, um almoço e uma festa final. O ambiente é estimulante para todos, com o espírito aberto muito típico dos americanos mostrando o que têm de melhor. Este ano participaram, entre muitos outros, Michael Tye (Universidade do Texas, Austin), Andy Clark (Universidade de Edimburgo), Bernard Baars (Instituto da Neurociência em La Jolla, Califórnia), Wolf Singer (Instituto Max Planck para a Investigação sobre o Cérebro, Frankfurt), Susanna Siegel (Universidade de Harvard), Alison Gopnick (Universidade de Berkeley) e Rupert Sheldrake (biólogo e escritor que investiga a telepatia).

O estudo da consciência está ainda na sua infância, e ainda não há uma teoria ou paradigma aceite pela comunidade científica. A abertura e interacção entre as disciplinas é por isso a forma mais produtiva para todos os que participam neste tipo de estudos, e esta conferência providencia o ambiente ideal para essa interacção. Entre outros tópicos, falou-se de questões como a diferença entre "prestar atenção a algo" e "estar consciente de" (Michael Tye), do que significa ver algo ou não ver algo (exemplos de "change blindness"), e de variações feitas às experiências de Libet - experiências que indicam que, nalguns casos, a decisão de agir é tomada no cérebro antes da consciência dessa tomada de decisão (William Banks). Este último tópico foi muito abordado, sendo levado ao extremo no caso de exemplos que parecem indicar uma espécie de "pressentimento" do cérebro antes do estímulo, algo inexplicável que leva alguns a assumir a possibilidade de causalidade retroactiva ("backwards causation", Daniel Sheehan).

Wolf Singer propôs a ideia de que altos níveis de sincronia no cérebro poderiam ser responsáveis pela experiência da consciência, ideia também defendida por Stuart Hameroff. Bernad Baars falou da ideia de consciência global que desafia a distinção tradicional radical entre o interior do indivíduo e o meio ambiente. Na conferência também foram apresentados estudos científicos sobre estados alterados do cérebro, seja através de drogas, de meditação ou mesmo estados que existem nas experiências sexuais (Jenny Wade).

Por fim, Rupert Sheldrake apresentou alguns estudos sobre telepatia, nomeadamente sobre cães que sabem quando os donos decidem vir para casa, e ainda a experiência de ter alguém atrás de nós e a olhar para nós (o Journal of Consciousness Studies tem um número inteiro só sobre este último tema, "The Sense of Being Glared At", vol. 12, número 6, 2006). É opinião geral dos mais de 800 participantes, cerca de 300 apresentações, desde conferências a posters, e 500 que apenas são espectadores, que esta conferência é especial dentro deste meio, pela liberdade e quantidade de temas abordados no verdadeiro espírito aberto da ciência.

A próxima sessão será em 2010. Pode ver todos os resumos das apresentações no sítio da conferência de 2008, mediante o link abaixo.

Sara Bizarro

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